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LIVROS E PUM

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Fui convidado a participar de um bate papo com escritores em uma biblioteca comunitária aqui em Salvador. A biblioteca fica no Retiro. Disseram: no começo da ladeira. Pedi um táxi. A ladeira do Retiro é gigantesca, uma das mais íngremes da cidade da Bahia.

Você ia se lenhar se descesse aqui, disse o motorista dando uma gargalhada. Esse povo indica tudo errado. Num calor desses, mesmo assim sendo seco (magrinho), você ia chegar lá todo suado!, completou.

Claro, claro, eu disse com um sorriso amarelo.

Chegamos.

Cheguei pontualmente.

Quando começou foi uma festa: crianças bagunçando tudo e adolescentes tímidos e curiosos; alguns roíam unhas.

Pensei: devem estar pensando: Nossa, um escritor de verdade aqui!

Pensei: não tem glamour algum, só a dor de trabalhar com as palavras.

Para é mim é sempre uma tortura explicar por que escrevo, como surgem as ideias etc.

O processo criativo é um presente, um traço, uma nódoa, um desvio. É portanto um mistério.

Falei disso e de outros assuntos para uma plateia atenta de professoras, bibliotecárias, mediadoras de leitura, crianças e adolescentes. As crianças, quando eu falava do meu conto O sumiço do bolo ou Conto de ibeji, pareciam irradiadas pelos outros erês.

Quando eu falava de um assunto “sério”, uma das crianças peidou bem no meio da sala. Foi aquele constrangimento. As professoras ficaram com “a cara no chão”. Quebrei a agonia do momento falando que ibeji, orixá criança, também solta pum enquanto come bola branca e bebe água suja (ovos e refrigerante). E que todos mundo presente ali na sala soltava pum, inclusive eu.

Rimos muito. E foi assim a fala sobre processo criativo, livros, literatura, bibliotecas comunitárias, direito de ler, democracia, política, infância e juventude, candomblé e outros temas.

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FALANDO PARA CRIANÇAS

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A Rede de Bibliotecas Comunitárias de Salvador – RBCS me convidou a participar do bate com o escritor; serei um dos homenageados dessa profissão cruel e com ares de chique que é ser escritor. Vou falar para crianças, o que é um desafio enorme, porque criança não é idiota, tem um horizonte de expectativas bem diferente de nós adultos; reside nelas a fantasia, a curiosidade, a sede pela descoberta, pelo aprendizado e sobretudo a dúvida. Não gosto de tratá-las como idiotas, mas como semelhante.

Me refiro à criança “que temos dentro da gente”.

Preciso colocar freios na língua e no pensamento. As meninas das bibliotecas devem estar mortas de medo, muitas me conhecem e sabem que minha fama de falastrão e pornográfico charmoso me precede. Todas me amam e entram em frenesi com meus discursos, mas morrem de medo por causa do politicamente correto.

Vou me comportar.

Escrevi um conto exclusivamente para a atividade. Vou ler a história em quatro bibliotecas e falarei sobre minha (ainda pouca) produção literária para os pequenos.

Será um prazer, uma honra, uma delícia e um desafio.

Em breve postarei aqui crônicas sobre os eventos e o conto que escrevi.

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PICADURA NA BUNDA

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Florian Raiss – Mitologias pessoais

Gosto de dormir nu, sempre nu, seja verão ou inverno.

Acordei com uma conceira infernal no lado direito da bunda.

Um caroço pequeno.

Fiz drama: e se for um câncer?

Corri para o médico.

Duas horas de espera. Aflição total.

No consultório, na maca, de bunda pra cima:

Não é nada grave ele disse retirando a lupa de minha bunda. Uma picadura.

Na bunda? eu perguntei com a calça arriada.

Esperei que ele dissesse: não, no nariz, daí reverberou pra bunda.

Sim. Uma picadura de inseto. O senhor dormiu em decúbito ventral?

Com a bunda pra cima?

Ele ficou me olhando.

Possivelmente. Roçando a rola no lençol. Eu gosto.

Ele riu sem me encarar.

Com aquela objetividade bem fria sacou um talão, começou a escrever.

Você vai usar essa pomada antes de dormir. use também um repelente.

Sim, os mosquitos são uma praga. Estão resistentes aos repelentes, aos inseticidas, a tudo! falei com meu tom cataclísmico e dramático.

Ele me entregou a receita.

Poderia ter dormido de barriga pra cima e ter levado uma picadura na…

Na pica? emendei.

Sim, no pênis, ele falou sorrindo. Velhinho assanhado. Se ele soubesse que odeio a palavra pênis…

Saí de lá, joguei a receita fora. passei um pouco de álcool.

Fiquei bom.

 

 

 

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A CAMINHO DE PORTUGAL

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Eu sabia que não deveria ter feito aquela viagem. Sempre morri de medo de atravessar o oceano.Nove horas dentro daquele tubo de alumínio ou seja lá o que for me causava pânico, eu suava frio só de imaginar!

Tudo ia “bem”. Meu pânico estava controlado. Eu havia tomado três doses de cachaça com canela e seis latinhas de cerveja, além de dois antialérgicos daqueles que dão sono.

De repente um homem levantou-se, sacou uma arma e ameaçou atirar. Estamos em um avião, moço, pelo amor de Deus, gritou uma mulher desesperada. Um rapaz que estava sentado à minha esquerda tentou segurá-lo pelas pernas, mas caiu sob uma coronhada.

O pânico foi geral; a aeronave entrou em turbulência. Todos começaram a gritar e o homem berrou mais alto ainda que quem se aproximasse dele iria levar bala e ele atiraria para o teto do avião. Isso vai despressurizar a aeronave e vamos todos morrer, vamos cair no oceano, disse um velhinho, o único que não tremia. Eu? Eu comecei a vomitar, meu desespero era petrificante, eu sabia que não deveria ter feito aquela viagem. O avião sacudia, sacudia, parecia uma britadeira gigante, eu via a gora de os parafusos começarem a se desprender das janelas e tudo ir por água abaixo – literalmente. Me veio a culpa. comecei a pedir perdão a Deus, esperando acordar no paraíso. Tentava me arrepender de maneira genuína, mas não parava de pensar na altura em que eu estava. Tudo o que eu mais queria era estar em minha cama, sob uma coberta.

De repente um sacolejo e um freio.

O avião havia pousado.

A aeromoça me acordava com um sorriso apático.

Um filete de baba no canto de minha boca.

Obrigado Senhor, eu falei baixinho já pensando em pecar.

 

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KAROL CONKA

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Uma vez escrevi sobre a Pabllo Vittar, que eu pensava que era um cantor de música sertaneja, esse sertanejo estranho de hoje, algo híbrido.

Lembrei agora sobre a Karol Conká.

Eu pensava que era uma escritora Polonesa, porque o antigo papa católico, Karol, que virou santo após ter ajudado a “acabar” com o “comunismo” lutando ao lado dos igualmente santos EUA era polonês.

Vejam que loucura.

Numa conversa, na cama, me explicaram que não, entre gargalhadas infindáveis, que Karol não é polonesa, não é cantora de sertanejo. É uma artista brasileira, cantora, atriz, negra de Curitiba!

De Curitiba? Negra?

Sim, negra e de Curitiba!

Conká é alguma cidade, pra colocar no nome artístico?

Tipo Fafá de Belém?

Sim.

Não. É tipo Yan com ípisilon.

Karol, afirmando que é com a letra ká!

Ah. Estou passada, falei entre as gargalhadas.

 

 

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AS CIDADES

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Sentei no banco da praça e fechei os olhos. Senti o calor do sol forte e a brisa do outono. A praça estava deserta. Quando abri os olhos havia um homem diante de mim. Um mendigo. Fiquei surpreso, mas não assustado. Ultimamente tenho visto muita gente pedindo esmolas, vivendo nas ruas e comendo lixo aqui em minha cidade.

Sentou-se.

Afastou-se um pouco, sempre calado.

Boa tarde.

Boa tarde eu respondi sorrindo, tentando não ser preconceituoso.

Posso pedir um favor?

Eu iria dizer que tinha dinheiro, mentira eu tinha, mas não costumo dar dinheiro. Pode pedir, falei.

Posso deitar a cabeça em seu colo?

pode, eu disse e num milionésimo de frações de segundo me dei conta da resposta ousada. Quantas vezes fui ousado comigo mesmo? De uma ousadia revolucionária! Porque a primeira revolução deve acontecer aqui dentro. Como aquela compreensão gigantesca do que é a existência.

Ele pousou a cabeça em meu colo. Não coloquei as mãos sobre ele. Olhei bem: era jovem. Não chorava. Sorria discretamente. Seria louco? Ou eu tinha ficado doido? Uma mulher passou e viu a cena. Caminhou olhando, indiscreta.

Quer um chiclete? eu perguntei. Ele disse quero e eu disse que não tem açúcar, não uso chiclete com açúcar, mas eu deduzo que seja tudo uma farsa, eles colocam açúcar sim!

Coloquei a goma em sua boca.

Mastigamos os dois sentados no banco da praça de frente a uma massa de pombos que voava.

 

 

Foto: reprodução de instalação de  Roja de Hong Yi

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UM PLANO PARA MATAR MICHEL

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É uma peça de teatro que acabei de apresentar.

Realismo é a coisa mais difícil de fazer no teatro, suponho agora. A ideia há de ser superada com o próximo desafio. Sempre olhei para o público. Sempre falei diretamente para essa massa multifacetada e enigmática que se chama público. De repente estive em temporada com uma peça “realista” escrita, dirigida e “atuada” por mim e dois colegas., Moisés e Sonale.

Começamos bem: parecia uma peça de rua.

Na platéia um bêbado.

Oh, Senhor, pensei assim que me sentei e ele começou a falar que também queria um cálice de vinho. É que bebericamos vinho de verdade em cena.

Pai, afasta de mim esse cálice, pensei.

O espaço pequeno, a primeira fila de espectadores apenas meio metro de distância de nós. Eu poderia sentir o bafo da cerveja que ele tomou ontem – o fígado ainda processando as informações.

Era bêbado simpático. Um velho conhecido de todos nós.

Na última apresentação da temporada não havia um bêbado, mas um público entusiasta e empoderado. Isso pode ser ainda pior que um público apático, frio e alienado. Devemos estar sempre preparados mas nunca estamos. Aguentamos firme.

Que cara insuportável, disse um espectador sobre meu personagem.

Meu Deus, eu vejo um monte de gente assim, disse outro.

Ah, eu não acredito!, disse uma mulher batendo as mãos nalguma coisa, possivelmente as próprias coxas.

Todos querendo matar o repugnante.

Alguns o imaginam acordando, levantando da cama e indo trocar a fralda geriátrica, sendo eletrocutado no banheiro por um serviçal suicida. Isso eu soube nos debates no final de uma das apresentações.

Foi infernal. Mas foi gostoso. Tenho a sensação de que serei engolido a qualquer momento.

Agora quero mais de Um plano para matar Michel.

Vamos voltar.

 

 

Foto: Gal Oppido

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O PREGADOR

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Vendeu com muito gracejo sua mercadoria: amendoim japonês em pequenos saquinhos de cinquenta centavos. Depois agradeceu e começou a cantilena mequetrefe.

Que o mundo está perdido;

Que as mulheres não se respeitam;

Que uma mulher veste uma roupa apertada demais e um vestido curto e depois quer ser respeitada.

– Mulheres, amem seus maridos, respeitem seus maridos, porque o adultério não é obra de Deus! Maridos, amem e respeitem suas mulheres!

Continuou dizendo que que as mulheres estejam sujeitas aos seus maridos e aos seus namorados para honrar a família e os mandamentos divinos.

Eu sentia dor nas costas. O ônibus sacolejando de um lado pro outro, o calor úmido e pastoso do outono, a Baía de todos os santos vista da Avenida Contorno não era um alívio. A mulher ao meu lado reclamava.

– A mulher deve vestir a roupa que ela quiser!, disse baixinho. Em seguida levantou-se, sacou da bolsa (por um segundo eu pensei que fosse um revólver) uma garrafa de água, destampou e jogou na cara do mercador.

O pregador disfarçado de vendedor de amendoim disse algo e todos gritaram amém!.

A mulher levantou-se, o agarrou pelo pescoço, os dois rolaram pelo chão do veículo, algumas pessoas começaram a gritar, a mulher gritando a plenos pulmões: eu sou mulher e sou livre!

Tentamos afastá-los, mas era luta vã: eles se estapeavam, os olhos do pregador começaram a ficar vermelhos e saltaram das órbitas. Repentinamente sua cabeça explodiu. A mulher, banhada em sangue e pedaços de cérebro, sorria ensandecida. Meu enorme nariz estava com uma gota de sangue. Os cabelos de uma passageira estavam banhados de vermelho. o motorista tinha freado o coletivo e estava embasbacado. o cobrado tremia. Uma velhinha tinha desmaiado.

Então eu acordei. O pregador desejou que Deus abençoasse a todos, apenas a todos e desceu.

Ele desceu.

A mulher ao meu lado: glória a Deus!

 

 

Foto: Marina Abramovic’s work, AAA AAA

 

 

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POLÍTIKA

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Não existe nada mais divertido, enigmático e nojento do que a Política. Por isso que eu amo política. A política brasileira então é de morrer de rir.

A desfaçatez, cinismo, cara de pau, canalhice e mau caratismo de nossos políticos é um prato cheio para inúmeras teses de doutorado, dissertações de mestrado, crônicas, ensaios, livros, peças de teatro, filmes e o escambau. Lembro vagamente do que aprontava o último general da ditadura, o Figueredo; lembro das peripécias de Sarney com seu bigode sempre bem pintado e da inflação surreal. Lembro de Collor com sua cafonice anos noventa de jet ski, aquilo roxo e o roubo da poupança do povo. Lembro do Itamar, seu topete sempre na dança do vento e das namoradas gostosonas, em especial aquela última que apareceu sem calcinha e um fotógrafo safadinho fez registros belíssimos de sua xoxota, rendendo elogios dos falecidos ACM e Jorge Amado.

Mas passei a olhar atento para nossos políticos safados e sua política mequetrefe mesmo na era do FHC. Ah, ali eu assistia assombrado aquele professor beiçudinho tirado a porreta vender as empresas brasileiras, dando ar de modernidade e intelectualidade a tudo. Vendia a comida alheia e posava de cozinheiro supimpa (no caso o plano Real do Itamar), sob os gracejos da grande imprensa.

Veja por esse lado: era de morrer de rir aquele cinismo platinado. Ele e sua turma posando de mocinhos, de heróis, de gente boa e fina vendendo o país e o país sempre endividado, quebrado, levando a seco do FMI. E ainda teve a cara de pau de publicar os diários de quando era presidente. Não é de rolar de rir? O estado de seu vice presidente vivendo penúria total. nunca fizeram nada por estradas, contra a seca e o analfabetismo.

Não poderia pular a era Lula com seu jogo de fingir que não está vendo as traquinagens dos coleguinhas. O socialismo de conciliação de classes caiu como uma luva no país da piada pronta. Como poderia o povo sentar e tomar um drinque com a elite? O grande golpe estava em curso. o primeiro negro da Corte Suprema veio com tudo contra quem o indicou. Até tu, Brutus? Santo país da parvoíce!

As alianças insanas vieram com a Dilma, cercada de ratos despelando, velhacos sebosos da mordaz política brasileira, da nova velha política café com leite, ainda tão presente. Lhe custou a cabeça, ainda que tenha caído em pé e seus algozes enjaulados ou enlameados.

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Aí ocorreu o grande fenômeno: todos viraram comediante; todos viraram iutúberes, com postagens no tuíter e no instagrã. No feicibúqui também. De uma hora pra hora a profissão de político e comediante virou moda. Gente aos montes discutindo política e pregando jargões aos montes. Gente criticando a ditadura de países ditos comunistas e pedindo a ditadura de novo aqui.

(Não foi uma sessão de humor ácido a histeria em torno daquela performance onde o artista foi acusado de pedofilia? De repente todos passaram a se interessar por exposições, performances, e peças de teatro…)

Não é de rolar de rir?

Até os militares dizem, manas, vocês piraram? Uma senhora gritou na rua: esses militares de hoje em dia são uns botas ralas! Os de antigamente sim, aqueles eram militares de verdade!

Tá bom, pode rir, é piada das boas.

Ano de eleição. Ou ereções, como diz o macaco Simão. Você pode imaginar um político tão comediante, que diz que é patriota e afirma ao mesmo tempo que a Amazônia não é nossa e que precisa ser explorada por outros países porque ali tem muitas riquezas? Imagine aí! Pois é, aqui no Brasil ele tem muitos seguidores. Dizem que é um mito do humor. humor negro ainda existe! Vocês pensavam que estava em desuso? Que era coisa do Monty Pithon? Estão enganados. Esse político faz humor negro. E a ingenuidade dos seguidores dele é tipo A praça é nossa, muito nossa!

Tem também o machão nordestino, o homem do ovão, que bate na mesa e diz que sabe tudo, é a tábua da salvação, ora pendendo pro socialismo, ora pro liberalismo, numa crise de identidade retada. Diz que é muito amigo do ex presidente preso pelo juiz celebridade (outra hora eu comento sobre essa modalidade de comediante que só tem aqui no Brasil, o juiz celebridade), que são amigos há mais de não sei quantos anos, mas nunca foi visitá-lo e diz que ele não é preso político, quando todos aqueles que ele diz pertencer (a tchurma) diz que é! Veja que mui amigo é esse político…

Não é de rolar de rir?

O ex governador de São Paulo disse recentemente que pode haver gente tão íntegra quanto ele. Mas mais íntegro do que ele é impossível! Ele mesmo, cujo partido governa o estado faz mais de vinte anos, esteve todo enrolado na falta de água, na falta de investimentos, com roubalheira de merenda escolar…

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Poderia passar o dia inteiro escrevendo aqui e não faltariam comediantes e suas piadas de morrer de rir, de levantar defunto do caixão. Tipo o prefeito de Salvador, que fez um esforço danado pra chorar, dizendo que não se lançou candidato ao governo da Bahia porque ama Salvador. Foi tanta lágrima que pareceu o final do filme Titanic. Sim, leitor, você pode passar seus dias de folga, suas horas de descanso se divertindo largamente com o país da piada pronta.

E seus políticos humoristas.

Não tem nada de honesto. Os vínculos que estão em jogo são as relações de poder, a sanha pelo mandonismo e a falta de pluralidade de ideias férteis nessa guerra de narrativas toscas. Seria prato cheio para Lima Barreto ou Machado de Assis.

 

(Sequência de fotos da performance La Bête, do artista brasileiro Wagner Schwartz. Reproduções da internet.)

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CRISE DE IDENTIDADE

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Sentou-se ao meu lado no ônibus. Sua companheira (não sei se amiga, colega, esposa, namorada ou mera conhecida recente do ponto de ônibus) no lado oposto. Ele ficou de costas para mim. Continuei lendo meu livro.

O coletivo ia devagar.

O tema era  aquele deputado que vocifera ódio e bobagens.

Eu era eleitor do PT! Mas hoje vou votar nele, disse o rapaz que pelo que eu entendi mal sabe o que é votar.

Hoje não, na eleição em outubro, eu pensei.

Eu também vou, disse a moça completamente desavisada.

O motorista freou bruscamente.

Nesse momento um velhinho começou a dizer que eles eram jovens inconsequentes, que deveriam curar sua crise de identidade, que eles não sabem o que é ditadura, que eles deviam estudar a história do Brasil.

Aí o rapaz ao meu lado vociferou: que o velho não sabia de nada, que os tempos mudaram.

Graças a Deus que mudaram!, eu pensei.

O que esse cara quer é meter a chibata em vocês!, disse o velhinho de bengala. Nunca mais eu tinha visto alguém de bengala.

Em mim ninguém mete a chibata, disse o rapaz sorrindo.

Onde você trabalha?, perguntou o velho.

Sou porteiro de um prédio, disse o rapaz.

Eu sou balconista de uma farmácia, disse a moça.

Vocês estão pensando que são quem, os donos do prédio e da farmácia?

Como assim?, perguntou a balconista.

Estão pensando que estão na casa grande? Não confundam as coisas! Não confundam!

O velhinho desceu.

Senti que os jovens ficaram atordoados com a referência ao Gilberto.

Eu não entendi nada, disse o rapaz porteiro de prédio.

Qual foi a do vovô?, perguntou a balconista.

Fiquei confuso agora, como assim casa grande? Minha casa só tem dois quartos!

A essa altura eu já tinha fechado o livro e tentava desembaraçar os fios do fone de ouvido. Aquilo parecia contagioso. Pra completar começaram a falar em privatizações, que o “governo” deveria vender essa e aquela empresa. Até empresas particulares entraram no bolo da conversa, como se fossem estatais. A moça mostrou ao rapaz um vídeo do Facebook.

Chegou meu ponto. Deus é grande, eu suspirei aliviado.

Entrou um casal de evangélicos. Começaram a pregar. As portas do céu, digo, do ônibus se abriram e eu subi, digo, desci.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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OS BÊBADOS NO CÉU

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Vez ou outra um se vai. Se esvaíram no corpo ou na garrafa, com doses sempre a mais de tristeza e solidão.

Lembro de seu Antônio, a quem os pescadores chamavam de zoinho, porque tinha os olhos apertados, míopes, avermelhados, castigados pelo sol do porto da Barra, onde pescava. Ele atuava junto comigo em uma peça ao ar livre e fazia o remador que levava meu personagem até a beira da praia. os colegas pescadores o chamavam de “escravo de pedro Álvares Cabral”. na verdade eu fazia o Tomé de Souza.

Escravo é a puta que te pariu!, gritava seu Antônio e todos riam.

Com ele aprendi sobre a maré elevadia (se não estou enganado é esse o nome), quando as pequenas ondas rebentam pouco antes de chegar à praia, num vai e ver que impede do barco “estacionar” na areia. Só vivendo e vendo pra entender. Sobre alguns peixes também. Tem um que morde, ou fura, ou morde e fura, que causa febre. Diz que precisa “pegar a baba do olho do bicho e passar no local da mordida pra passar a febre”.

Eu nunca quis experimentar. Ele (o peixe) lá e eu cá!

No ano seguinte era outro remador. Seu Antonio entendeu de ir embora, pegou o barquinho, bebeu horrores e se perdeu no mar. Até hoje. Desapareceu, ninguém mais viu. Nem ele nem o barco. É o que contam os pescadores do porto.

Triste zoinho.

Lembrei de Quincas Berro D’água: “Cada qual cuide de seu enterro. Impossível não há”.

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Outro bêbado fantástico era o Tavares, que se foi por esses dias. O conheci através de Selma, vigilante do teatro onde trabalho no subúrbio aqui de Salvador. Cabelos brancos encaracolados, sempre sem camisa, calça ou bermuda bem segura no alto da enorme pança. E sempre sorridente. E sempre com uma lata de cerveja nas mãos. Muito respeitador, nunca sequer falou um palavrão ou entrou no foyer do teatro, justamente por estar sem camisa. Brincava com todos sem tocar em ninguém, sempre sorridente e com palavras de elogiosas para as mulheres. Imagino que na juventude devia ser um puto galanteador.

A última vez que nos vimos eu cortei a conversa para falar de um assunto de trabalho com a assistentente de coordenação, Cilene, e ele me disse:

Quando um burro fala, o inteligente se cala!

Todos nós rimos. Tavares se foi. Para sempre.

Soube que era aposentado, que fora encontrado caído na varanda da própria casa.

Deve ter sido o coração, disseram.

O coração, eu falei com a cara mergulhada em muitos pensamentos e lembranças.

 

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CIDADÃO DE BEM

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Eu estava evitando falar de política.

A rinite alérgica me deixa impaciente e nesses momentos eu prefiro respirar fundo e evito falar e entrar em questões polêmicas. Estava focado em concluir a montagem do aparato de iluminação para que a companhia de dança pudesse ensaiar com todos os elementos necessários para sua apresentação logo mais a noite.

O colega de trabalho puxou o assunto porque o outro colega falara sobre a polícia militar, a famosa PM que extermina pretos e pobres. Ele, “negão”, sentia-se ofendido por ser seguido por policiais, mesmo estando em companhia da esposa e da filha.

Então o colega atacou sobre a saúde:

– Em países como os EUA o governo não gasta com a saúde.

– Não é gasto, meu querido, é investimento, eu disse com voz branda e amorosa.

Mas não adiantou. Ele continuou falando: que o gasto com a saúde é enorme, que países como os EUA as pessoas pagam pelo atendimento, que antigamente a gente pagava pelo INPS ou INAMPS, que todo mês íamos a um local carimbar a carteira para poder utilizar o serviço.

– Com a invenção do SUS, universalizou-se o atendimento à saúde, dando lastro à Constituição de 1988, é coisa constitucional. Gasto mesmo é com a dívida interna, o o governo paga aos bancos, o que deixa de arrecadar com impostos, com a falta de repatriação de recursos, com o que a elite predatória suga do país utilizando a classe média como fantoche e o todo o povo como escravo, por sadismo, ódio e prazer, eu disse mas parece que ele não entendeu.

– Veja que até uma sacizeira dessas aí na rua tem direito a atendimento de primeira, utilizando serviços que poderiam ser usados em gente que trabalha e paga!

– A sacizeira é uma cidadã!, tentei argumentar. Quanta gente morreria sem atendimento por não poder pagar?

Sacizeira é gíria utilizada para designar pessoa viciada em drogas que perambula pelas ruas. Atentei bem ao fato de o colega utilizar o gênero feminino em sua fala. Aquilo tudo começou a me angustiar. No palco os dançarinos ensaiavam a todo vapor.

O espanto veio a seguir:

– Eu sei, mas a pessoa não passa de um vegetal, está praticamente morta. O governo não deveria atender motoqueiros que dão cavalo de pau, que não usam capacete, é um gasto com gente irresponsável. Eles deveriam pagar, disse o colega com a lógica radical e perversa.

O filho dele é jovem, belo, rebelde. Se um dia lhe acontecesse um acidente por imprudência e irresponsabilidade. Ele deixaria o filho morrer à míngua, sem atendimento só por isso?, pensei com minha lógica radical e perversa.

Calei-me e fiquei quieto. Aproveitei que me chamaram ao palco.

Desci.

Dentro de mim percorria um sentimento ruim de espato, dor, nojo, surpresa e injustiça.

Um pouco de raiva.

O bailarino se esbarrou comigo e me salvou brincando sorrindo: Becker, venha salvar a gente, deu um defeito num refletor da torre lateral!

E apertou minha bunda.

Eu sorri.

Graças.

 

 

Imagem: detalhe de obra de Debret: cirurgião negro aplicando ventosa.

 

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CHUTANDO O PAU

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Apresentávamos a cena final da peça “A fundação da cidade de Salvador”. Eu fazia Tomé de Souza, primeiro governador-geral do Brasil, que veio fundar a capital baiana, a primeira cidade do país, a cidade planejada, a capital do império colonial português na América. A mim causa nojo dizer aquelas palavras, posar de herói quando na verdade aquela gente não passava de um bando de predadores, canalhas a serviço da exploração, do terror e do medo. Eram isso: terroristas. Não relaciono, com a minha fala,  a corrupção nossa a uma herança dos antepassados portugueses. O jeitinho e o patrimonialismo é tudo coisa nossa.

Mas todo e qualquer ofício possui ossos. Minha função era quebrá-los e engolir pedaço por pedaço, ao menos torná-los macios.

A plateia era de estudantes de uma escola particular. Crianças. Estávamos no forte de São Diogo, uma das construções que formam a “santíssima trindade” de fortes na região da Avenida Sete de Setembro e Barra. Havia os militarismo e suas fardas engomadas.

Do alto da fortificação avistávamos o grande mar da baía e a ilha de Itaparica. Lá embaixo os negros mercavam de um tudo. Negros vendendo água mineral, cerveja e refrigerante na praia. No calçadão negros vendiam colares, coxinhas de galinha e sonhos. Nos ônibus negras e negros ganhavam a vida vendendo suor e sangue na lida injusta do Brasil.

Minutos antes, meu colega, fazendo o padre Manoel da Nóbrega estava ajoelhado, e o padre pedia a Jesus “que abençoasse os índios daquela nova terra, os brancos e os negros que virão”.  A índia Catarina Paraguaçu, que dera suas terras para a Igreja ao ser catequizada, batizada e engodada em matrimônio na Europa com Diogo Álvares estava a nosso lado na pele da atriz Ana Paula Carneiro e ouvia tudo, sorrindo. Ossos do ofício.

Então Exu, que a tudo observava, para colocar pimenta naquela mornidão do dia, para movimentar aquelas águas paradas, cutucou uma criança autista, que irrequieta, pediu a fala, dando uma de Téspis, virando-se para a plateia e cortando nossa ação:

– Eu quero falar: é tudo mentira! Os portugueses acabaram com tudo! Mataram os índios e escravizaram os negros, os portugueses que são culpados de tudo!

Chutou o pau da barraca. As professoras, que com aquele ar peculiar de impaciência, tédio e despreparo, tentaram impedir o menino de falar. Mas cederam porque pedimos que deixasse ele se expressar. E assim elas fizeram, talvez por ele ser autista e elas terem aquele sentimento de pena e de não saber o que fazer. E assim foi por uns 10 minutos, Exu fazendo o menino circundar a roda de assistentes com seu discurso atrapalhado, infantil e certeiro. Foi o desabafo do ano! Ficamos observando, aplaudindo a criança. Era tudo o que eu gostaria de dizer. E mais! Mas havia os ossos do ofício e o cachê!

E o menino falava sem parar.

Estava vivo o teatro, o teatro de rua. Onde os da rua interferem e tem voz e voto.

Laroiê!

 

 

 

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YAKEKERÊ

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A Yakekere é a segunda pessoa de uma casa de candomblé. É pessoa de confiança da Yalorixá, é como se fosse a vice, a pessoa que substitui a líder espiritual em alguma eventualidade. Na casa que sou filho, essa pessoa é por acaso – ou não – a minha mãe pequena, espécie de “madrinha” ou segunda mãe, vamos dizer assim. Lá eu tenho a honra e o prazer imerecido de ser ogã da Oxum de yalorixá, sendo filho espiritual da mesma, sou filho espiritual de uma senhora de Oyá, a senhora dos ventos fortes.

Imagine!

Pois fui convidado para um almoço na casa de minha mãe pequena, uma feijoada que todos os anos ela oferece logo após seu aniversário. Cheguei lá por volta das 14 horas, atrasadíssimo e faminto. O calor estava de matar! Ela dava comida a sua sobrinha que deve ter uns quatro anos.

Até agora só tem você, meu filho, ninguém veio, parece que esqueceram de mim! Ano que vem não faço mais, ela disse quase chorando.

Calma, o pessoal está atrasado mas deve estar chegando.

Marquei almoço, não janta, acho que ninguém vem, ela disse zangada.

Vem sim, tenha paciência.

Isso são horas de almoçar?

Na próxima vez a senhora marca um chá das cinco, faz umas torradas, eu disse e ela parece que não entendeu a piada.

Aquietei.

Quando a menina terminou o almoço eu disse:

Finalmente posso almoçar.

Fomos para o fundo da casa, lá estava mais fresco. Tudo arrumado, tudo em ordem. As mesas vazias.

Vou aproveitar, eu pensei.

Quer logo tomar uma cerveja?, ela perguntou.

Fiz charme:

Agora não, deixe pra depois.

Ela fez meu prato. Mudei de ideia, quero uma cerveja sim. E me sentei sozinho no quintal com aquele prato farto e a cerveja bem gelada. A sobrinha dela se aproximou.

Venha me fazer companhia, eu disse sorrindo.

Faça companhia a seu tio, disse minha mãe pequena.

Ficamos ali conversando, ela comendo chocolate. A certa altura tossiu quase em cima de meu prato.  Depois de duas frases tossiu de novo.

Quando tossir, ponha a mão na boca, eu disse bem didático.

As vezes quando eu tusso, eu peido também, ela disse com aquela natural tranquilidade das crianças.

O pessoal começava a chegar.

O dia será ótimo, eu pensei.

 

 

 

 

pintura de Jean-Baptiste Debret

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COCA E COCADA

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Eu estava apresentando peça de teatro feita sob encomenda para escolas. Espécie de teatro de rua dentro do local onde se situa a histórica empreitada de começo do Brasil com a dizimação dos nativos e a importação de pessoas africanas vindas como escravas que acabaram fazendo o nosso país continental.

Acontece que eu fazia o Tomé de Souza, o canalha que veio a ser o primeiro governador do Brasil e fundou a primeira cidade e capital do império colonial português na América: Salvador. Me custa muito dizer aquelas palavras para as crianças, viu, mas o cachê é sempre bem vindo e vida de artista é a mesma vida de qualquer profissional: faz-se de tudo pelo vil metal.

Uma apresentação acontecera pela manhã e eu estava enjoadíssimo, porque meu personagem chega de barco e a maré de outono parecia nos castigar com ondas de mais de meio metro. Eu e o Sérgio, meu colega ator que faz o padre Manuel da Nóbrega estávamos verdes, quase botando tudo pra fora.

A rua estava quente e úmida. Vendedores ambulantes – todos negros – acumulavam-se pelo calçadão vendendo de um tudo. Salvador estava presente: cidade perversa, racista, segregada, injusta e desordenada, de povo iletrado e a serviço dos poderosos que manipulam o povo desde sempre (tática humana empregada por famílias quatrocentonas que estão no poder no Brasil); povo que resiste com força, brilho e fé, apesar de tudo. Um ambulante me parou para oferecer um colar de Omolu, que o ano é dele, me disse.

Então decidi comprar um sonrisal antes da apresentação da tarde. Encontrei uma venda muito da cheia de mercadorias e encerrada por uma grade, apenas um quadrado vazando as linhas verticais pintadas de cinza. Uma japonesa, ou chinesa estava sentada distraída.

Boa tarde, me vê um sonrisal.

Pão?, ela perguntou com aquele ar de perdido, aquele olhar meio morto que eles tem.

Não, sorinsal.

Ela se levantou e apontou para o freezer vertical.

Vinho?

Não, um sonrisal, respondi achando graça e pensando: meu Deus, como é que coloca uma estrangeira para trabalhar num balcão em uma venda em frente à praia da Barra?

Antiácido, remédio para quem está enjoado.

Não tem, ela disse.

Espirei por cima das prateleiras: uma parte tinha anador, AAS e Bandeid.

Por ali deve ter, eu pensei.

Então fiz o gesto de estômago embrulhado, cara feia e botei a língua pra fora, como quem está vomitando e apontei para a prateleira. Ela foi apontando todas as caixas até que encontrou. leu o rótulo.

Ah, sonrisal.

Isso, sonrisal, eu disse me achando o homem mais feliz do mundo.

Pedi uma garrafa de água mineral, um copo descartável e bebi aquela porcaria como quem sorve o néctar dos deuses. Quando eu estava terminando chegou uma moça loira.

Me vê uma cocada, por favor.

A chinesa se levantou e apontou para uma lata de coca-cola no freezer.

Coca? Light?

 

 

 

pintura de Jean-Baptiste Debret

Destaque

O FILME DO EDIR

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Eu fui assistir Boca a boca, espetáculo sobre o poeta baiano Gregório de Mattos e sua poesia deslumbrante. O teatro que leva o seu nome fica logo atrás do Cine Glauber Rocha, como ainda chamamos aqui em Salvador. O cinema fora reformado e pertence a um banco. Fui mostrar a alguns amigos o terraço do cine, que tem uma ótima vista para a Baía de Todos os Santos, tendo em primeiro plano a estátua do poeta Castro Alves. Na subida, filas e mais filas, aglomerações na porta do prédio. Uma gente que não é comum ser vista naquele cinema. Lembrei: deve ser o filme do Edir. Meus amigos sorriram, eu sempre digo essas coisas com aquele tom irônico e quase escroto. mas era: era o filme sobre o Edir.

Parece que eles dão ingressos, disse minha amiga.

Vai ser recorde de bilheteria, falou o amigo que nos acompanhava.

Vai ultrapassar Xuxa e Os Trapalhões, eu disse lembrando as vezes que assisti aos trapalhões ali naquele prédio. Eu e meus primos.

Claro que não perdemos a oportunidade de falar mal do que não vimos, a julgar por nossas opiniões formadas sobre o que a personagem em questão representa. olhei para a cara daquelas pessoas: tão crédulas e felizes.

Olha, ainda tem mais dois ônibus cheios de fiéis, disse a amiga.

Fui sacana: não será um caro de boi? De gado?

Riram-se todos. (aqui estou querendo ser bem literário e pernóstico)

Não sei se tenho pena ou ódio, falei subindo as escadas. (mais um chiste meu, porque jamais nutri ódio por alguém, nem pelo Edir)

Pena, disse a amiga.

Ódio é muito bobo, eu disse. Melhor ignorar. pensar sobre isso cansa muito.

Melhor, disse o amigo sorrindo.

Mas essa gente não tem pena dos semelhantes “diferentes”, os que pensam diferente, como gays, putas, maconheiros etc. Eles nutrem ódio, eu falei provocando só pra saber o que eles pensam.

Concordo, disse ela.

É verdade, eles não tem pena de ninguém, disse o outro.

Enfim a bela vista: aquele finalzinho de pôr do sol, a luz mágica, a ilha de Itaparica lá no fundo, o antigo prédio do jornal A Tarde, as pessoas passando, um monte de cachorro vagabundo passando atrás de uma cadela no cio. Do alto as coisas ganham outra perspectiva.

Deus que o diga!

Após algumas fotos e autorretratos, ataquei, bem mordaz:

Altura impressionante. Imaginem essa turba sendo jogada daqui de cima…

Uarlen, você é cruel, disseram os dois rindo.

Um a um caindo daqui de cima e se espatifando lá embaixo… Feito tomate podre. Ou como aqueles desenhos animados onde um pirata coloca uma prancha e o condenado precisa caminhar por ela e pular no mar. Uma prancha daquelas bem aqui nesse parapeito seria ótimo!

Riram-se todos. (gostei do termo)

Depois descemos, todos já se tinham entrado. Comi um pedaço de torta de chocolate com suco artificial. Pensei que fosse vomitar. Encontramos a Ana Paula Carneiro. A peça foi maravilhosa.

Eu e Ana terminamos o programa bebendo uma gelada e comendo isca de frango no bar do Brian, num beco contíguo ao largo Dois de julho. Travestis, cachaceiros e “pessoas duvidosas”.

Estávamos bem a vontade.

Cheguei em casa e fui dormir sem tomar banho. Pensei na cara do Edir tomando banho na banheira que dizem ser de ouro.

Tive um pesadelo.

 

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CUBANA

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Achei o consultório frio demais (o atendimento). Aliás nesses consultórios a metodologia é o atendimento seco, frio, impessoal, como se a gente estivesse em um campo de concentração. As indefectíveis revistas de fofocas e as semanais que escorrem pós-verdades e notícias falsas (as fake news, porque aqui precisamos de termos em inglês para respaldar tudo e todos).

A dentista demorou um pouco a me atender. Depois saquei que estava no sistema do plano de odontológico vendo o que poderia ou não fazer comigo e já chegou enfiando;

– Seu plano não cobre algumas trocas nas restaurações, que precisam ser em porcelana.

A postura dela, pelo que percebi foi de me repelir e passar para outro atendimento. Foi meu julgamento inicial.

Mas a neguinha loira não me amansou.

– Vou fazer assim mesmo, mas antes preciso retirar esse aparelho; quero colocar um convencional, mais barato.

– Aí só com seu ortodontista.

– Não rola, ele viajou e eu briguei com todos os funcionários e funcionárias do consultório.

Novamente ela atacou:

– Mas eu cobro por fora, porque o plano não cobre retirada de aparelho e limpeza dos dentes pós retirada.

-Não se preocupe, pago a vista, aceita cartão?

– Aceita sim.

– Vamos passar logo, quero pagar adiantado.

Tirei onda, estava podendo um pouquinho. Aí ela me respeitou: o capitalismo é foda. Só é, quem tem.

Prosseguimos com tudo de praxe, fora que ela atendeu muito bem, delicada, cuidadosa, uma senhora paciente. Me explicou tudo direitinho, revisou tudo, dente por dente, fez mil e uma anotações. Me levou até sua mesa. Me explicou tudo sobre as poucas restaurações, a substituição de um bloco etc. não sou de guardar rancor por coisa grande, quanto mais por bobagem. Não me fiz de rogado e a elogiei, que seu atendimento parecia o dos médicos cubanos: cuidadoso, meticuloso, humano (no sentido bom do termo, é claro). Ela ficou surpresa, nem sabia que em Salvador tem médico cubano.  Aí eu dei aula, falei do governo progressista. Ela concordou e disse que até ralhou com uma colega que meteu o pau no programa de importação de profissionais. terminamos falando de açúcar, que ela também é doida por um doce, que nem eu.

A conversa foi simpática, ela me fez descontos nos próximos serviços.

Saí de lá me sentindo bem.

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O CENSOR

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Quando cheguei o pessoal ainda estava se arrumando. Aquele clima de tranquilidade me deixou tenso e satisfeito. Essas emoções e sentidos díspares sempre tomam meu corpo, é real!

Sabia que iria dar em coisa boa. Carimbó e samba de roda. O pequeno espaço de meu grupo de teatro iria comportar tanta gente? Deixei o abacaxi para os orixás descascarem. Eles são melhores do que eu não resolução de certos problemas. Não era bem um problema, era uma solução.

Não podemos chamar atenção da vizinhança, ô pessoal sem graça e pau no cu, disse minha colega.

Pau no cu pode ser bom, ele são insuportáveis mesmo. Gente repente e desprezível. não sei se odeio ou se tenho pena. Melhor nem pensar, pensei.

No fluxo da coisa, a coisa toda aconteceu toda bem, toda boa. Quase uma “peleja” no dique do Tororó, uma música de cada, samba de roda potente e carimbo retado numa mágica que só os grandes artistas apaixonados podem proporcionar. Até eu, que sou “quiabo duro” entrei na roda e dancei e sambei. No mini cortejo até a sede do grupo foi uma JAM session ambulante, pandeiros nas mãos rodando loucos e curimbó (pesadíssimo) nas costas ao som dos carros enlouquecidos e dos refletores encarnados nos faróis dos carros. Os anjos nadavam nas águas misteriosas do dique. Do alto da grande árvore um encantado tupinambá espiava atento. Na sede do grupo, calor da porra de fim de verão, a roda novamente, dessa vez regada a cigarro artesanal que uma figura pediu pra vender. Não é que fumei dois daqueles deliciosos? transmissões ao vivo, flashes e intervenção teatral com asas de anjo negro de cabaré e bigode sedutor. Cantora belíssima e energia contida naquele pequeno espaço. Tudo parecia girar. A felicidade se encontra nessas horinhas, eu dissera nalgum poema. uns goles de cachaça com jambu e a tristeza desce pelo cano. Mas era chegada a hora, batia nove e meia o relógio; um vizinho já tinha se exaltado, queria ver a novela ou se empapuçar com sua rotina de casal infeliz. Paciência, é direito deles, eu disse ao colega. E pedi para parar a festa. o som da festa. Antes fui ao banheiro e me olhei no espelho. limpei o suor da cara. lembrei do Nelson Rodrigues falando da nossa hediondez estampada na face. Senti que iria cometer um crime hediondo. Me joguei como na tragédia grega. Que horror. Parei tudo, deram como última música.

Depois de uns quinze minutos duas moças se prepararam, animadas, pois tinham chegado naquela hora, para tocar. Disse que não poderia. Só uma, pediram e eu senti pena, mas disse que não. nunca me senti tão mal. Um horror.

Mais tarde, no Red River, erva, cerveja e cachaça, uma DJ simpática em um bar. As duas artistas passaram por mim e uma delas fechou a cara. É a vida, pensei. Horror novamente por saber ser a vida.

Ninguém reparou.

Voltei pra casa meio zonzo. Embaixo do chuveiro (não poderia ser acima) lavei tudo.

Fui dormir com o som do tambor, as asas do anjo negro, a negona sambando de vestido vermelho e o discurso apaixonado da cantora.

Axé.

 

Charge da cartunista iraniana Mana Neyestani

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FINA E LONGA

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Estava atrasado. Eu sempre fui pontual, mas de tempos pra cá cultivei a porra da impontualidade. Preciso ligar pra avisar que estou quase chegando – quase sempre é uma mentira, ainda vou sair de casa. Geralmente as pessoas sabem que é mentira, mas deixam passar. Como não tenho carro, o coletivo imundo circulando pela cidade com a conivência da prefeitura era a solução, já que estava sem internet para solicitar uber e táxi sairia muito caro. Eu estava descapitalizado naquele momento. Encontrei o velhinho no meio da rua; me pediu ajuda com as sacolas; me deu uma pena danada e eu carreguei as duas. Incrivelmente pesadas. Culpei seus familiares, claro, como é que deixa um homem naquela idade sair sozinho para fazer compras? Acabei sabendo que a família dele morrera em um acidente de carro. Meu coração iria me fuder, pensei. Pronto. Acabei ficando no outro ponto – que não era o meu – esperando o ônibus do velhinho, que não chegava nunca! Eu não poderia deixar a pobre criatura ali sozinha com aquelas sacolas pesadas. Liguei para a pessoa do compromisso: telefone deu caixa. Puta merda, entrei numa barca furada. Mas já tinha firmado ali um compromisso moral em colocar o pobre homem dentro do ônibus. Ficamos um tempão parados á espera do ônibus que não vinha. Apenas os dois, parados debaixo do telhado de acrílico do ponto de ônibus – que deixava passar luz do sol e infernizava a gente ainda mais com o calor. Quem teve essa ideia certamente foi um filho da puta. O velhote não dizia nada, absolutamente nada. Só falou quando uma moça me perguntou onde ficava a rua da Esperança. O velhinho se adiantou, parecendo um galo no terreiro vendo uma galinha novinha e gostosa: é ali atrás da igreja, uma avenida fina e longa. Estreita e comprida, eu emendei cortando seu gracejo. Teu pau ainda sobe, velhote?, pensei com um sorriso bem discreto e sacana. Ele se foi num ônibus amarelo. Eu cheguei com quase três horas de atraso.

Ninguém mais esperava por mim.

 

 

Na foto: Cacilda Becker e Walmor Chagas em cena da peça Esperando Godot.

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GRANDE E GROSSA

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Estava sem um puto no bolso, tinha uma graninha no banco, mas havia esquecido o cartão em casa. E agora? Me fodi, eu pensei limpando o suor da testa. Não teria tempo de voltar para casa, almoçar e ver a próxima palestra ótima de um cara super boçal. Aquela gente toda ali no campus da universidade vendendo coisas absurdamente caras me fez lembrar que lutávamos contra o capitalismo. Olhei para as moças que se beijavam. As duas com saias enormes e lindas, cheias  brilho e esvoaçantes. Aquilo na contraluz parecia uma imagem de cinema. Pensei esperar elas terminarem o beijo delicioso para fazer a pergunta, mas deixei pra lá. Procurei outra pessoa. Eu queria um bebedouro. Soube que beber água ajudava a passar a fome. Perguntei a um e outro: ninguém sabia dizer ao certo onde poderia achar água para beber – de graça, é claro. Finalmente encontrei. Água curtinha, fria, evitei olhar ao redor do aparelho não muito limpo, não muito simpático. Um funcionário da limpeza – um negro, sempre um negro, para meu desalento – , passou com cara de fastio.

Liguei o foda-se.

Vamos lá, meu pai, me ajude. Toquei no solo e no ori molhado de suor. Nem deu tempo de olhar as horas. Uma colega tocou meu ombro. Estava procurando alguém para distribuir os benditos tíquetes de almoço e janta que o evento tinha doado para quem ajudou na organização. Okê arô, falei baixinho. Ele não me abandona. Nenhum deles. Tenho guardada comigo essa convicção: minha esperança pode ser curta, mas minha fé é grande e grossa.

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AS CRIATURAS

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Chamou todas as hostes celestes, estava feliz por demais. Tivera uma ideia grandiosa, tão grandiosa quanto o universo que criara e sobre ele se deitava. Criaria um mundo e colocaria nele criaturas.

Todos se espantaram e ficaram igualmente felizes. Levaram milênios somando, subtraindo, dividindo, pesando aqui e ali, atarefados em milhões de experimentos sob a batuta do Senhor, que por fim a tudo aprovou. Viu os seres criados e soprou-lhes a vida, dando início ao que conhecemos. Naquele mesmo dia afiaram-se lanças, teceram-se ódios de diversas cores, cercaram a terra por todos os lados e separaram em lotes e exploraram uns aos outros. As lanças eram tão afiadas que os dominados tinham medo de cometer um deslize e por elas serem traspassados.

Então o Senhor olhou aquilo tudo horrorizado e diante dos olhares estupefatos das hostes celestes, calou-se e deu as costas. E nunca mais se ouviu falar.

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MAR DE VEIAS

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Desci do ônibus.

Estava na avenida Paralela, próximo à estação do metrô e do estádio de Pituaçu, onde o ex-presidente Lula falaria dentro da programação do Fórum Social Mundial que acontece em Salvador.

– O senhor vai atravessar?

– Vou, respondi.

-É para lá que fica o estádio de Pituaçu?

-É sim.

– O senhor vai pra lá?

-Gostaria, mas não posso, estou a caminho de outro compromisso.

– Muito obrigado pelo dedo de prosa.

-Por nada, o que é isso.

-Quero ver o presidente.

-O ex presidente?

-Sim…

-Vai vender cafezinho no estádio?

-Não. vouverlulafalar, disse assim numa palavra só.

-O senhor tem esperança?

-Sempre.

Olhei para suas mãos e pés: um mar de veias idosas, pele agredida pelo sol. Sorria, contente.

– Aceita um café?

-Aceito sim.

Me serviu.

-É de graça.

-De jeito nenhum faço questão de pagar.

-Não, é um presente, hoje é um grande dia para mim.

-Ah, sendo assim, ao seu grande dia!, falei erguendo o copinho plástico e bebendo um gole do café sob o calor escaldante.

-Deus te abençoe.

Axé! Ao senhor também, eu respondi apertando sua mão suada e leve.

Entrei na passarela de acesso à estação de metrô. Quando olhei para trás, o velho vendedor de café já tinha dobrado a esquina, com seu carrinho puído, seu sorriso e sua enorme fé.

 

Imagem: “Cruzando Jesus Cristo Com o Deus Shiva”, obra de Fernando Baril, 1996

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MANIFESTO DO NOVO MUNDO

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Ou Aquelas vozes roucas que gritam

Ou ainda Essa incerta incerteza

      O mundo como conhecemos está prestes a sucumbir. É preciso dar uma basta nessa coisa de felicidade, essa felicidade falsa de um cotidiano triste e assombrado. Toda a arte é falsa e é um fim em si mesma. De nada serve. Um novo mundo só será possível com a quebra radical e irreversível de todo esse verniz social de clichês e terror do capital. Sem os ismos do passado, sem a desgraça do capitalismo e o fracasso do comunismo. Uma nova ordem sem o medo da vida e o pavor da morte, sem o temor a um Deus que nós mesmos inventamos e sem o pudor exaustivo ao corpo e ao sexo. Só será possível quando o sumo do egoísmo e da vaidade forem extirpados disso que chamamos raça humana. Quando toda arte deixar de ser submissa e for um espelho da vaidade; quando finalmente o humano deixar de ser humano e reconhecer-se no animal e encontrar o divino; quando finalmente deixarmos o nojo do vômito e do excremento e nos sabermos podres, em estado de morte iminente. Quando todas as cloacas de poder forem destroçadas e estupradas, um novo mundo será possível.

 É preciso limpar, gozar a vida liberta das leis e da arte vendida e inútil. Tudo que compraz ao artista e ao poder deve ser considerado inútil. Por que as religiões e seus centros de poder não acolhem em seus templos todos os mendigos das calçadas e viadutos e assim encontram o divino pela hospitalidade e pelo amor? Por que as pessoas revoltadas não formam grupos de extermínio e acabam de vez com os donos das estruturas de poder que as escravizam? Por que nos permitimos trabalhar demais e gozar de menos? O corpo nu é cheio de tédio e mornidão. O falo, o pênis, a rola, a pica, de tão ingênuo que é não condiz com nossa realidade infame. Ao contrário da vulva, da vagina, da xota, da buceta, da xereca, que é um mistério em si mesma, doadora de vida, trânsito sem engarrafamentos do aqui e agora. E por causa dela estamos presentes nessa delícia de coisa que chamamos vida e que jaz amordaçada e presa. O capital é um sangue podre misturado à merda em uma garrafa de vinho branco. É o veneno dissipador de esperança e produtor de ódio e desgraça. Por que os negros não tomam as lanças dos índios e se sentam de vez na cadeira do poder? Por que os índios não assumem de vez sua propriedade maculada e fértil e demarcam de uma vez o país como reserva deles? Por que não usam as terras como capital na guerra contra o capital e o latifúndio?

            Dos artistas não podemos falar. Ouviram o canto da sereia e mergulharam encantados na torrente brilhante da celebridade instantânea, dos cliques e dos flashes e dos cachês miseráveis. Pois que sejam miseráveis também! Vejam nossos corpos. Estão sedentos de gozo. Abaixo o puritanismo e sua velhacaria. Abaixo o hedonismo e o racionalismo. Viva a folha, o mato, o barro e a água em movimento. Um novo mundo dará vivas ao ato de comer e ao ato de cagar. Nada mais será pudor. Nada mais será dito ao pé do ouvido. Daremos vivas às prostitutas, que assumem sua posição, enquanto nos prostituímos e chamamos de trabalho honesto. Sem academicismos e sua retórica blasé. Sem essas universidades que vendem educação e formação como um cachorro quente de esquina. Um novo mundo sem as amarras do fanatismo e sem as certezas da ciência. O novo mundo será possível pela trans-existência, pelo trans-humano, pelo que trans-cende e vive do outro lado e do lado de cá. Pelo mistério do que vive e morrerá e pelo que é morto. Abaixo a pintura de um milhão, que vale mais do que o artista. Um novo mundo será possível sem a mercantilização do que foi criado, mas pela ode ao criador.

Que todas as televisões sejam públicas, como os mercados, as feiras, as empresas, os hospitais, as manicures e os dentistas. Um novo mundo só será possível com a ponta da faca, decepando poeticamente a cabeça das víboras humanas. Viva o peito caído, a barriga grande, a bunda murcha, os dentes tortos, os narizes enormes e as bocas sem lábios. Um novo mundo será possível quando venderem as tralhas preciosas do Vaticano e a fortuna dos templos bregas dos evangélicos. Quando admitirmos que o grelo existe e grita, quando a cabeça do pau está aí e berra, quando o cu, oh, o cu existe e grita, quando o mamilo urra na madrugada sedento de prazer e quando a língua deflora o grande lábio ou a prega mais tímida. Abaixo as listas de presença e as grades curriculares, abaixo a nota e a média final, abaixo o cartão de ponto e a hora extra. Abaixo o punhal sangrando o peito na ansiedade de ser feliz. Um novo mundo só será possível quando tivermos a liberdade para odiar sem culpa, para cultuar a tristeza sem culpa e quando não formos obrigados a ser felizes. Abaixo a imposição da necessidade de sermos o que não somos! Um brinde à auto piedade e melancolia!

            Um novo mundo será possível somente pela existência do corpo; o corpo é o templo sagrado. É único e intransferível. Cada corpo é uma novidade sedenta para ser descoberta. Todo corpo será desamarrado e finalmente fluirá como ondas do mar gigante. Daremos um viva ao corpo dos velhos e ao corpo do jovem que envelhecerá ou não. No novo mundo possível, as estruturas de poder não engolirão nossas mentes e nosso pensamento com suas podres cloacas cheias de lucro, belo canto, desgraça e dor. Um novo mundo será possível pela poesia herética. Aberta como uma vulva e erétil como um falo; pelo amor absurdo e espantoso, pelo amor que destrói o velho simplesmente por ser amor. No novo mundo existirá o ser, os seres, o ser, os seres, o ser, os seres, o corpo, os seres, os corpos, as mentes, os seres, o corpo, o ser, os seres.

            – Onde? Cadê? Vamos!

 

Performance Still 1985, 1995 by Mona Hatoum born 1952

 

fotos:    The Belgian contemporary choreographer Anne Teresa De Keersmaeker is presenting four early works at the Lincoln Center Festiva e Mona Hatoum, ‘Performance Still’ 1985 respectivamente

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CASO PERDIDO

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Eu havia lançado meu segundo livro de poesia. Não entendo, mas costumo “enjoar” muito rapidamente das obras que produzo. Gosto da criação nova e quando a anterior está “no mundo”, preciso do novo, pois as ideias surgem para mim não tão claras como o sol que amanhã nascerá, mas com aquele brilho misterioso da lua e das estrelas. Isso tudo parece um horroroso clichê. E é. mas é preciso.

Saí para passear com minha cachorra  envolto nesses pensamentos, sobre o novo que surgia e não vi o morador de rua que dormia na calçada perto de minha casa e que a cada dia estava mais doente e magro.

O lixo que se amontoava na rua era de um fedor espantoso.

A pessoa que eu dera bom dia não fez esforço mínimo para me responder.

Pensei em não recolher o cocô de Liuba naquele dia. Pensei duas vezes e recolhi. O certo é sempre o certo, mesmo que não tenha ninguém olhando, lembrei num misto de contentamento e chateação por estar fazendo algo correto quando a rua estava repleta de sacos de lixo dos próprios moradores.

Naquele dia eu li e escrevi. Ouvi música e tomei café.

Acabara de sair o resultado de um edital e o meu grupo de teatro não havia sido contemplado, mais uma vez.

Tudo parecia perdido.

Meu pai apareceu à porta de minha casa e deixou um presente para minha sobrinha, para que eu entregasse a ela. Deu alguns passos indo embora e retornou: estou indo mais cedo para casa porque voltei a estudar. Quero escrever bem e ler melhor, completou ele.

A princípio a minha estupefação foi nítida. O parabenizei, sorri e disse que estava feliz, que ele continuasse, que nunca seria tarde para aprender algo novo ou aprimorar o que já se sabe.

Sentei-me com os olhos turvos.

E fiquei parado.

 

 

foto: Carolee Schneemann – Up to and Including Her Limits (1973-76)

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OU DE COMO EXU RESOLVEU O IMBLÓGLIO

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(Continuação da crônica anterior)

Estava formada a grande confusão.

E eu atento para saber o que iria acontecer.

O monge com as de fastio aproximou-se de mim, limpou os cantos da boca. Me contou que Exu, ardiloso como sempre, passara na frente de Jesus e Buda. Deus já se parecia com Sai Baba e com Morgan Freeman. Era negro e luminoso e de olhos puxados.  Os humanos tinham se juntado em famílias, famílias as mais diversas. Tornaram-se ingovernáveis. A bagunça era tremenda e Deus estava ocupado com outro afazeres e não poderia se preocupar com as questões menores aqui da Terra. Então Exu propôs que os próprias criaturas terrestres administrassem suas vidas. Deus parou e pensou atentamente. Todos silenciaram em respeito ao fato de Deus pensar. Asteroides se tornaram pós e outras estrelas surgiram. O pensamento divino durou cerca de 6oo anos.

Que assim seja, disse o Senhor.

O coro de 100 bilhões de anjos entoaram louvores sem parar durante 209 anos, em homenagem ao fato. Uma decisão divina muda todo o curso da história e jamais poderá ser contestada ou desfeita.

Exu sorriu contente, tinha descido à Terra algumas vezes e tinha visto a monotonia que era o paraíso: uma pasta morna e asséptica, sem acontecimentos relevantes e cotidiano trivial e chatíssimo. Exu poderia mexer os pauzinhos e a coisa poderia ser mais dinâmica. Exu desceu novamente para cá e o lugar onde pisou transformou-se em laterita. E começou a confusão: soprou nos ouvidos dos homens e mulheres que poderiam governar a si mesmos. Elegeram-se governantes, que foram traídos e traíram; muitos elevaram seus súditos à condição de grandiosos e prósperos, outros os tornaram miseráveis.

Deus a tudo observava, contente, alegre por permitir que a chamada liberdade de arbítrio imperasse entre os humanos. Quando rogavam por Ele, Ele atendia minimamente, em coisas mais espirituais, enviando, claro, ministros que pudessem resolver as questões.

Ah, mas havia a família. Nessa Exu não se metia, olhava da porta e via que dentro das casas a coisa era pavorosa. Vez ou outra metia o dedo nas brigas dos casais, vez ou outra arranja um amante para mostrar que aquele enlace não daria certo e antes que terminasse em tragédia impunha um novo amor entre os dois brigões. Mas sempre mantendo distância segura.

O Senhor a tudo observava e sorria feliz.

Mas andava a pensar no que seria a pátria, um conceito inventado pelos humanos. Estava assombrado com aquela divisão e aquele muro invisível engenhosamente definido para separar os semelhantes. Mandou chamar todos os ministros. Haveriam de explicar a Ele o que significava aquilo tudo e como poderiam resolver sem intervir nas decisões e escolhas dos humanos.

Foi quando Exu novamente levantou o que poderia se chamar dedo.

O Senhor pediu que ele falasse. Um planeta muito distante parou em sua própria órbita em homenagem à fala de Deus. Uma estrela mil e seiscentas vezes maior que o nosso sol se desintegrou e se transformou em poeira cósmica de puro gelo. Os coros silenciaram e todos se prostraram. Jesus postou-se com a cabeça no que poderia chamar de chão. Ogum se ajoelhou e Ganesha dobrou os joelhos e fechou os olhos em pura contrição.

Não há jeito, meu Senhor. Fiz de tudo, soprei aqui e ali, rodei para lá e para cá, movimentei meio mundo de gentes e de terras mas eles são por demais empedernidos. Fazem o que querem e como querem e sobre eles recai toda sorte de desgraças e desditas! O próprio Jesus esteve por lá e presenciou a tomada da terra onde nasceu pelos romanos. A sede de poder e a ambição deles os torna vulneráveis. O que podemos fazer é auxiliá-los aqui e ali, aos que tem fé e pedem de coração. Aos que tentam a aproximação com a natureza para atingir a Sua face e o Teu ser.

Laroiê, disse o Senhor. Nesse instante começou a chover por quase todo o continente asiático e o arroz floresceu por toda a Índia. Uma explosão solar ocorreu duas vezes e um planeta muito, muito distante viu surgi em seu entorno uma atmosfera.

Que assim seja, que eles busquem a mim e a nós de seu jeito, pois caminho há a sempre haverá. Criem arte e invencionices, ajudem-nos com isso. Enviem o teatro, a música, a dança, as musas, as inspirações. Soprem em seus ouvidos, falem em seus sonhos. Por sinais, por coisas pequenas. Não interfiram, não mudem o curso de suas histórias. Essa será minha última palavra.

Então o Senhor encerrou-se em seu trono e as hostes celestiais se puseram a adorá-Lo. Jesus foi cuidar de ouvir as preces humanas, os orixás desceram à terra para auxiliar seus filhos e filhas, Ganesha desenrolou sua tromba de paquiderme e desceu junto com Yansan em um raio azul que clareou a noite indiana.

Deus para sempre sempre seria Deus, família seria uma incógnita e a pátria uma invenção humana das piores que se poderia imaginar.

O monge sentou-se em posição de lótus e eu corri para tentar alcançar a turba de turistas que fotografavam sem parar.

Peguei minha câmera e mirei uma estátua.

 

 

foto: detalhe de obra de Joan Miró.

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DEUS, PÁTRIA, FAMÍLIA

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Depois da farra, do desbunde, das bebedeiras e excessos tão necessários à festa momesca, a realidade: O trabalho, as dívidas, as pequenas delícias da vida, a mediocridade, Deus, a Pátria estuprada e a família.

Oh, que delícia!

Essa última me causa espanto. Lembro de uma história que um velho monge me contou num retiro pseudo espiritual e totalmente turístico que fiz anos atrás. As pessoas não paravam de fotografar. Todos os cantos da mesquita eram violentados por luzes dos flashes e pelas perguntas mais infantis possíveis dos presentes. Eu também vez ou outra era seduzido por isso tudo, que não sou de ferro! Quando os outros se adiantaram, decidi me atrasar e fazer uma pergunta a um velho monge que meditava. Ele havia se espreguiçado e levantou-se. Foi quando eu ataquei com meu inglês parvo.

Perguntei-lhe sobre uma imagem que aparentemente retratava uma família numerosa. O monge respondera que sim, era a representação de Deus, de uma possível pátria e de uma família. E me contou uma história milenar (segundo ele):

Deus, ou Deusa, nunca saberemos se é homem ou mulher, em nossa necessidade de antropomorfizar tudo e todos, não precisava reinventar-se, Ele era a invenção e a reinvenção de Si mesma, sem mais. Então decidiu criar o conceito de pátria. Mas antes criou todos os seres, inclusive nós humanos. (Eu olhava para o monge muito atentamente, vez em quando esboçava um leve “unrrum” fazendo cara de coerência) A partir daí, o ser supremo quis ter a opinião de seus ministros, espíritos infinitamente menores que o Criador. Chamou Oxalá, Buda, Jesus e todos os coros de querubins, serafins e potestades. Fiquei assombrado com aquilo tudo. Uma entidade celeste daquelas poderia acabar com tudo o que entendemos como mundo e humanidade. Imagina o coro todo reunido! Outro unrrum. O monge continuou:

O Ser Supremo decidiu criar um local amplo onde pessoas com as mesmas afinidades pudessem morar.  Um querubim perguntou a Ele se não seria melhor criar pequenas “células” e em seguida um ajuntamento delas, que, numerosas, dariam origem ao que Ele queria: a tal pátria. Foi aí que tiveram a ideia de criar a família. As pessoas criadas poderiam unir-se num matrimônio e procriar, dando origem a um lanço eterno de ascendentes e descendentes. As pessoas de amanhã descenderia de uma pessoa de hoje, que seria seu antepassado. As criaturas poderiam também reinventar a ideia original a seu modo, criando novas possibilidades, imitando o Senhor, disse um serafim.

Deus ficou animado com a ideia e bateu o martelo. Sua animação fez nascer cerca de dois trilhões de estrelas e milhões de cometas mudaram suas órbitas para marcar aquele acontecimento! Estava criada a ideia original de família e futuramente uma pátria!

Mas quem administraria tanta gente lá embaixo?, perguntou Deus franzindo o que poderia ser uma testa.

Todos fizeram a mesma pergunta.

Estava instalada a confusão: eles não poderiam se intervir, não poderiam governar as criaturas.

E agora? Quem teria a solução?

O monge parou para beber água em uma cuia de barro e me ofereceu um pouco. Eu aguardava ansiosamente pela solução divina, enquanto espiava meus pares turistas indo longe em meio a flashes e autorretratos em cada canto, em cada coisa.

 

(Continua…)

 

Foto: detalhe de obra de Joan Miró.

 

 

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MUDANÇA DO GARCIA

Precisava escolher a fantasia, algo assim improvisado.

Pensava que não seria difícil. Eu sairia com os colegas do grupo de teatro, iríamos usar os figurinos do recital de poemas pornográficos Cabaré dos marginais e pararíamos em alguns momentos para recitar um ou outro verso, além de algumas das músicas do recital.

Aí começou a confusão: fora pego pelo politicamente correto. O colega fizera um personagem travestido, com peruca, saiote e batom. Vira uma reportagem com ares de politicamente correta que beirava – no meu entender – o fascismo em que ditava ser errado usar fantasias de índios ou mulheres no carnaval; que isso ofenderia a figura feminina e do que chamamos de índios e índias. Uma colega sugeriu que usasse então a fantasia de militar, alegando que condiz com o carnaval ridicularizar aquele estilo quadrado e de vocação para ditaduras e imposições as mais radicais.

o colega alegou que não poderia ofender os militares, porque tem pai militar.

E ele permitiu que você seguisse a profissão de ator?, eu perguntei assombrado com a revelação.

Saí de casa e ele me tomou o carro velho que dera de presente quando me formei no segundo grau, disse meu colega torcendo a boca.

Ah, então use a fantasia de militar. Com saiote por cima da calça, eu disse.

Tem a fantasia de palhaço, lembrou uma amiga do grupo. Ela sempre acompanha nossas apresentações e está sempre presente em nossos momentos de boemia.

Mas não posso usar roupa de palhaço! Todo mundo usa!

Precisávamos de figurinos que as pessoas identificassem o signo de imediato.

Vá de puta do século XVII, tem um vestido enorme aí no acervo, eu disse.

Com esse calor? Eu vou passar mal!

Sentamos para tomar uma cerveja. Mudança do Garcia faz referência – assim me contaram – a uma moradora do bairro do Garcia que era muito malquista por todos da região. Talvez fosse uma mulher “de vida fácil”, não lembro com certeza a história toda. Sei que insistiram para que ela fosse embora do bairro. E ela foi. Com móveis, panelas, fogão, geladeira e tudo mais exposto, aquela típica mudança de pobre. No caso da infeliz mulher, sobre uma carroça.  Então permanece a tradição de satirizar aquele evento: carroças, pequenos caminhões, carros, bandinhas, batucada, muito protesto político, muita irreverência, todas as tribos, adultos, crianças e idosos em paz na folia.

Estava ficando tarde. Decidimos ir sem figurino, apenas de bermuda, tênis e camiseta. Mal subimos a enorme ladeira que dá acesso ao bairro do Garcia, uma chuva forte começou a cair. E foi assim até anoitecer: muita folia.

Encharcados.

 

 

 

Fotos: Chayenne Guerreiro e Francis Juliano, respectivamente

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POESIA

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É preciso ler poesia com olhos de não encontrar coisa alguma. Com a iminência da surpresa e do vazio. Digo vazio porque aquele espaço é onde se cria. É poder sentir o gosto do azedo, do amargo ou até mesmo a doçura e o encanto. É preciso ler poesia divagar, entre suspiros e acordar de sonhos, sentindo sua punhalada firme e sutil, que sangra a alma e transforma o barro em tijolo e o açúcar em bala embrulhada em fino papel. Com os olhos e boca assustados lemos poesia e nos sentimos diamantes: brutos ainda. Joia eternamente inacabada em sua incontida preciosidade. É preciso o impreciso de um simples verso para que eu cruze um deserto de vazios e encontre em mim mesmo a música, o horror, a surpresa, o grito, o passinho da dança, o cisco no olho e essa graça.

 

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PASTELZINHO

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Encontrei um amigo no centro da cidade.

Salvador está sempre em estado de ebulição nos dias que antecedem o carnaval. A festa parece que nunca começa de fato: vai começando aos poucos. Uma rua que é fechada, o trânsito que é modificado aqui e ali, balaustradas que pouco a pouco são escondidas atrás daqueles horrorosos banheiros químicos, fachadas de prédios são interditadas por tapumes, policiais militares com aquele eterno ar de opressão reunidos nas esquinas, uma lavagem, outra lavagem, uma festa inventada pela prefeitura, outra festa inventada prefeitura e assim a festa deixa de ser popular para virar propaganda de governos e governantes cujo cinismo supera o ego dos deuses do Olimpo.

Então, em meio a essas observações, encontrei meu amigo.

Vamos almoçar?, falei de supetão.

Vamos, tem um restaurante de uns chineses que tem uma comida deliciosa ali no Largo dois de julho.

Chineses ou japoneses?, indaguei.

Tanto faz.

Mas será que a comida ainda está boa numa hora dessas?

Você tem razão. São quase duas e meia. A essa hora só tem cuspe e cabelo.

Como assim?

É comida a quilo. Os alimentos ficam expostos, todo mundo chega conversando, rindo, as mulheres com cabelões soltos, os homens também…

Ah, entendi, disse coçando a barba. Vamos naquele restaurante ao lado do shopping Piedade.

Vamos, disse meu amigo.

Eu estava azedo de fome, não conseguia pensar em rir, quanto mais rir de alguma coisa, a fome me deixa abatido em questão de minutos.

O restaurante a que você se refere é aquele com a fachada imitando madeira, todo marrom?, perguntou ele limpando o suor da testa com as costas das mãos.

Sim, aquele mesmo.

Aquele é muito caro. Estou com pouca grana, ainda não recebi meu salário, sabe como é a vida de professor.

Não faço ideia, nunca trabalhei em sala de aula.

Mas sabe como é.

Aliás, vocês são culpados pela desgraça do ensino brasileiro. Não são os programas de governo, nada. São vocês que apenas se limitam a repassar a “grade” aos alunos.

Sei, ele disse pouco ligando para meus questionamentos.

E digo mais: são praticamente analfabetos. Quantos livros um professor lê por ano? Um livro, meio livro? E os clássicos? Quantos professores leem os clássicos para os alunos? Será professores sabem que são Eurípedes, Sófocles, Aristóteles, Homero?

Você não sabe o que é uma sala de aula. Pior: não sabe o que são os pais dos alunos! São verdadeiros demônios da ignorância e da estupidez!

Calei-me.

Sugeri almoçarmos no restaurante do Teatro Castro Alves.

Mas lá não estava em reforma?, perguntou meu amigo.

Não terminou?, falei em dúvida.

E se não tiver terminado, iremos perder tempo, andando a essa hora nesse sol escaldante.

É verdade, confirmei.

Entramos num “pé sujo” na Avenida Joana Angélica. Olhamos os preços. Caros. Comida feia.

Mas não se acha uma comida de boteco boa a essa hora em Salvador?

Acha, mas nos bairros, aqui no Centro é assim mesmo, essa correria.

Paramos em frente ao convento. Miríades de ambulantes e pessoas distribuindo panfletos, anúncios de xeros, impressão, vendedores de frutas  e compra-se ouro.

Você parece libriano, eu disse.

E eu sou, sou de 2 de outubro, disse meu amigo.

Ah, eu também! Sou de 27 de setembro.

Ah, então está explicado, disse ele pondo as mãos na cintura.

Comemos um pastelzinho com refresco de maracujá no chinês (ou japonês, ou coreano, ou vietnamita) da esquina, o Brian.

Combinamos de no outro dia jantar por lá a famosa isca de “flango” com “flitas” que Brian serve ali e que é uma delícia.

Com refrigerante ou cerveja?, perguntamos ao mesmo tempo.

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PROPRIETÁRIO DE FATO

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Eu olhava a toda hora para o maldito painel eletrônico. Minha senha demoraria a ser chamada. A multidão de prioridades se avolumava cada vez mais. O país envelhecera. Idosos ajeitavam seus óculos sobre a face desolada, outros acessavam a internet; outros reclamavam do país. Os funcionários muito bem vestidos em seus figurinos de bem sucedidos, ostentavam ares de fastio. Era a perfeita normalidade, tudo estava sob controle. Nada poderia ser feito para mudar. Cada minuto que passava atirava o tempo sobre o sonho da aposentaria e que tudo fosse à puta que os pariu. De repente veio o susto: um velhinho começou a bater com a bengala sobre uma mesa com um grampeador e uma caneta amarrada a uma corrente.

Quem manda aqui sou eu!, berrou o velhinho. Eu sou o dono dessa porra!

Uma funcionária apenas olhou sobre a armação dos óculos e voltou a correr a vista sobre a tela do computador. O cliente que ela atendia olhou para trás. Todos nós olhamos.

Eu mando nesse banco, ele é meu, me pertence! Eu serei atendido já, o meus clientes que esperem!, tornou a gritar o velho dessa vez desabotoando a camisa e mostrando o peito magrelo com pelos brancos. Antes que ele tirasse as calças, uma segurança negra com cabelos presos em coque surgiu para contê-lo. Ela o segurou por trás e o imobilizou. Um homem muito branco ergueu-se e ao perceber que o velho espumava, disse que era médico e correu para examinar o pobre homem caído ao chão, imobilizado, tentando em vão livrar-se das mãos da musculosa segurança.

Ele está com a síndrome da propriedade de fato, disse o médico após examinar o idoso.

Todos nós ficamos espantados. Lembrei de como era pobre o Brasil: o único país acometido de monstruosa síndrome. A propriedade de fato. O velhinho, por ter frequentado a agência bancária havia dois meses se considerava proprietário de fato da mesma. Exigia ser atendido imediatamente, como convém a um dono de banco.

O fato ocorrera diante de meus olhos, leitoras e leitores. O idoso sofria ataques da síndrome da propriedade de fato! Juro pelo cometa de Halley que isso aconteceu! Logo dentro de um banco, o sacrossanto templo do capitalismo! Saí de lá aterrorizado. Me bati com uma mulher agredindo um taxista, gritando que o automóvel era seu, porque fizera quarenta corridas com ele e portanto o carro era seu. Ela dava chutes na canela do pobre motorista que tentava a todo custo fugir dos golpes e não agredi-la. Um seu colega dizia para não tocar na mulher, pois ele poderia ser preso. Mas como eu vou me defender e defender meu ganha pão?, perguntava ele. Use a cabeça, dizia o seu colega.

Na esquina uma multidão gritava arrancando os cabelos. Um grupo disputava a propriedade da padaria. Todos compravam pão e manteiga havia anos e se achavam donos do negócio dos outros. O proprietário berrava que ele era o dono real do imóvel, e mostrava cópia d escritura.

Salvador estava tomada pela horda de insanos. Tentei me abrigar sob uma marquise. Pensei em correr para o teatro Castro Alves ou o Teatro Vila Velha. Talvez ali, no reino da fantasia e da mentira quase perfeita, a realidade fosse menos cruel. Mas foi em vão. Homens armados e babando tentavam quebrar as grades do complexo cultural dizendo que eram proprietários de fato daquele palco. Que viram ali um show da Elis Regina nos anos 80 e de lá pra cá não deixaram de frequentar o lugar e portanto eram proprietários de fato.

A síndrome não poupava ninguém. Tive medo de também ser acometido por ela. Um ônibus que ia para o Barbalho parou no meio da rua. O cobrador tentava arrancar a caixa de dinheiro e levar para casa. O motorista espumava diante do volante, os olhos vidrados.

A síndrome pegou primeiro um juiz, disse uma moça me tomando pelos braços. Corremos até banheiro público e ficamos ali. Pelo buraco da fechadura eu olha a correria do lado de fora. Um juiz foi a primeira vítima da síndrome. Ele disse em sentença um réu era proprietário de fato de um imóvel, porque estivera nele duas vezes, disse a moça se abanando com uma revista das Testemunhas de Jeová.

Mas que loucura é essa? Eu não estou acreditando, pensei que essa coisa fosse invenção.

Era uma invenção, uma fantasia de péssimo gosto, mas virou realidade. Vi na TV que o país inteiro está assim.

Por conveniência?

Era. mas agora por epidemia e cinismo mesmo, disse ela. Tome, faça uma boa leitura, concluiu me dando uma das suas revistas que mostravam na capa um lugar ajardinado com pessoas sorrindo e comendo frutas. Agradeci e comecei a me abanar. Foi quando o banheiro químico tombou. Começamos a gritar. A moça por Jeová; eu pela polícia.

Um homem muito forte carregara o nosso esconderijo dizendo que era dele, ele havia defecado ali seis vezes e portanto era proprietário de fato do negócio. Consegui abrir a porta. A moça pulou e saiu correndo em direção ao Viaduto de São Raimundo. Corri para a ladeira de São Bento. Olhei para o mosteiro na tentativa de me abrir ali, mas uma baiana de acarajé segurava o tacho de azeite fervente e ameaçava jogar em quem tentasse entrar ali, pois ela era a dona no prédio inteiro, com seus mortos enterrados aos pés da nave da igreja e suas relíquias escondidas do público. O ojá dela se desprendera e estava sobre seus ombros; parecia uma estola. Um homem tatuado corria com uma orelha nas mãos e atrás dele um outro todo ensanguentado. O da frente dizia que a orelha era dele, que ele colocara dois piercings nela, e portanto ela era dele.

Eu me sentia em uma pintura de Hieronymus Bochs.

Comecei a chorar desesperado. Na entrada do elevador Lacerda um grupo de capoeiristas reivindicavam o equipamento público. A síndrome da propriedade de fato tomava proporções alarmantes. Até o prefeito se achava dono do prédio da prefeitura e da cidade inteira. Seus assessores tentavam a todo custo passar para a imprensa a imagem de que estava tudo sob controle; que o prefeito estava sereno e aquilo não passava de intriga da oposição. De repente o cinegrafista virou a câmera para mim.

Ela é minha!, gritou com os olhos esbugalhados. Por um momento achei que ele vestia uma toga. Ao ver a câmera apontada para mim e a opinião pública (se é que o público tem alguma opinião formada!) inteira olhando para minha cara apavorada através de suas televisões, eu acordei.

Graças à deusa aquilo foi um pesadelo. Tudo voltaria ao normal. Olhei pela janela: a cidade seguia seu ritmo tranquilamente. O Brasil também. As instituições funcionavam em plena normalidade e paz. A TV da vizinha estava ligada.

Uma apresentadora ensinava a fazer coq au vin.

O Mercado não estava nervoso.

A bolsa estava calminha.

O país era real: familiar, cristão, palco de uma grande democracia, igualitário, repleto de avanços sociais, altos índices de recuperação econômica.

A síndrome da propriedade de fato era um pesadelo.

Sentei-me novamente na cama. Pensei: moro em uma casa que não é minha.

Serei proprietário de fato?

Arregalei os olhos.

 

 

 

 

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AOS AMIGOS BÊBADOS

Amo meus amigos. Quando eles estão bêbados um tanto mais. A verdade frui como uma torrente, uma água brusca e tão forte que me encanta. Tão amáveis e deleitáveis, tão doces, ternos, de corações puros e língua ferina. Dados, despojados dos pudores e das máscaras do teatro trágico e cotidiano. A rudeza desses dias os deixa com aquele silêncio mortal, as palavras calculadas, o frio cinismo que queima os ossos, a perfídia transparece. O contrário não: as mãos são tão leves que o simples tocar de dedos une as almas e aquece a noite. Pode um coração parecer tão simples, tão transparente?

Ainda ontem me vi cercado de gentes as mais diversas. Era um coquetel para promover a candidatura de um político. Não senti nojo, estava alegre demais para ser mentira. Encostei levemente na parede de vidro fumê quando ela apareceu e me ofereceu algo para beber. Eu queria sair dali imediatamente, conhecia poucas pessoas e todas eram detestáveis. Inclusive eu. Um organizador de eventos que se autoproclamava promoter ostentava uma barriga tão grande quanto seu ego e as vantagens que contava. Em uma conversa não havia interlocutores, transcorria apenas um monólogo irritante sobre as viagens que fizera, as mulheres que levara para a cama, as celebridades que conhecera.

Uma dona fizera uma viagem à Índia e de lá voltou convertida a uma religião hindu, com aquela mancha vermelha na testa, usando lenços coloridos de seda, os olhos fortemente pintados e só. O apelo estético. Dizia ter encontrado a iluminação profunda, só não sabia nos explicar o que mudara em sua vida e como. Um colega ganhou o prêmio de melhor ator por uma peça infantil. Era sobre um menino sonhador que tentava alcançar as estrelas. Todos diziam que era impossível, até que alguém disse que ele precisava de fé e força de vontade, então ele conseguiu alcançar as tais estrelas. Com força de vontade e fé, claro. O colega ganhou o prêmio havia quatro anos, mas não parava de se gabar disso. Em todas as conversas lá vinha dizer “quando ganhei aquele prêmio…” ou “Nem eu, que já ganhei um prêmio tal faria uma peça daquelas”! ’.

“Aceita?”, ela perguntou com aquele ar de quem acabara de fumar um baseado.

“Obrigado”, falei segurando a taça de champanhe. Nunca fui muito fã de champanhe, ainda mais daqueles servidos em festas e bufês. Nunca pensei que ela fosse se interessar por mim. Uma atriz realmente instigante. Atriz e dançarina. Premiada, claro, premiadíssima, mas não tocou sequer no assunto, a sua latência egóica não era maior que sua humildade. E olha que odeio falsos humildes, mas ela tinha brilho próprio, não precisa de ostentações de currículo.

“Não se importa em conversar com uma mulher mais velha?”.

“Não. Até prefiro.”, falei com meu sorriso cínico.

Ela disse que estava preparando um novo espetáculo de teatro-dança, inspirado nas canções de Brahms.

“Dança-teatro então”, falei me referindo à música como ponto de partida.

Ela começou a rir e eu me excitei de verdade. Poderia ter sido a champanhe vagabunda, sabe lá Deus! Ela tocou no assunto dos patrocínios, que poderia surgir mais mecenas etc. No que concordei, afinal de contas eu mesmo adoraria ser mantido por alguém para trabalhar, produzir minha arte a vontade e com tranquilidade, sem o inferno corriqueiro das oscilações financeiras. Ano passado sofri maus bocados com a falta de dinheiro, tive de me rebaixar a fazer campanhas publicitárias para políticos na TV. Foi a primeira – e espero que a última – vez que trabalhei numa produção daquelas. O diretor chegou atrasado, teve um ataque de nervos e de pseudo estrelismo. Depois me perguntou onde eu achava que devia colocar a câmera. Ele queria colocar no alto, na tentativa, segundo ele, de enquadrar o povo de baixo para cima. Um assistente disse que ninguém veria o slogan do candidato impresso na camisa. Que pegaria mal. Ele bufou, mas acabou aceitando. Eu fiquei calado o tempo inteiro, esperando passar o tempo. Em um momento o cara falou que era formado na faculdade tal, que conhecia muito bem o riscado. Continuei calado. Fiz meu trabalho, recebi o dinheiro e sai cumprimentando apenas o assistente.

Ela estava cheia de planos, tinha contatos em outros países como Argentina, Espanha, Canadá e Alemanha. Tinha estado naqueles lugares em teatros os mais diversos. Conhecia artistas de lá, gente de dança, teatro e cinema, além de artistas plásticos e escritores. Um conhecido acenou de longe, era um cenógrafo recém formado. Dormimos juntos uma vez e desde então ele não parava de me cantar. Ela me convidou para participar do projeto, disse que havia um papel para mim. Trocamos cartões, disse que ela poderia copiar meu currículo que estava online em meu blog. Ela disse que já havia copiado. Só precisava de meu aval e de minha assinatura no projeto. Fomos para o apartamento dela para eu assinar firmando a minha participação. Não tínhamos a intenção de transar. Na saída, César, um colega mais velho e totalmente desiludido com a profissão, despencou sobre nós seu vocabulário intelectual perfeito, sua retórica e sua mágoa com a carreira. Com direito a perdigotos, apertos de mão e choro em meu ombro.

E elogios.

E revelações que não me assombraram. Tive vontade de chorar, pois sabia que o amigo falava aquilo tudo de coração. Do coração, que só berrava pelo efeito etílico. Naquelas lágrimas de bêbado pude sentir o gosto do ódio, da decepção e do brilho um pouco esmaecido, mas ainda assim brilho, de seu talento. Havia algo – como sempre – de intenso e trágico naquilo tudo, além de patético, evidentemente. Um bêbado chorando é sempre patético, mas em segundos os arroubos eram trágicos e verdades ligadas às palavras saltavam a olhos vistos. Berros do coração, gemidos de uma alma. Coloquei-o dentro de um táxi e fomos para o apartamento dela. Assinei o projeto. Abrimos uma garrafa de um bom cabernet. Conversamos amenidades. Dormi no sofá, ela na cama. Era por volta de onze e meia quando ela me acordou. Estava nua. Deitou-se sobre mim e transamos. Eu atônito, ainda sonolento, fedendo a álcool e cigarro. Ela com um cheiro incrível. Disse que gostava de foder sóbria. Terminamos no chão. Na hora eu tirei e gozei no tapete. Depois botei de novo. É uma paranoia que tenho agora, medo de engravidar. Depois ela me disse que não engravida mais. Que nunca engravidou, sempre fora estéril. Ficamos deitados um tempo. Olhando para o teto. Me perdi afagando meus testículos, e a vagina dela, sempre faço isso depois do sexo. Uma mão em cada coisa. Lembrei do César bêbado falando impropérios e verdades.

Dos berros de seu coração.

Em chamas.

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A INFÂNCIA NUA

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Era o ano de 1987, Rosana estava no auge com O amor e o poder (“como uma deusa…”).

Namorávamos o que chamávamos de “as nossas paixões da vida toda”, aquele frisson. Todos tínhamos 10 anos, quase onze.

O cometa de Halley ficou de passar no ano anterior mas deu bolo, passou raspando. Quase ninguém viu, foi uma decepção astronômica! Numa festinha de aniversário, onde apagávamos as luzes e dançávamos ao som de Rosana e alguma lambada, meu relógio digital com a estampa do famoso cometa tinha pifado – alguém derramara refrigerante nele. Eu e minha namorada estávamos agarradinhos, eu de pinto duro, ela muito excitada, dando inúmeras “coladas” – como chamávamos os beijos de língua imitando os casais das telenovelas. Até que chegou alguém e quebrou o clima dizendo que “dançar agarrados só de luz acesa!”

Éramos felizes.

Éramos inocentes e felizes. nossa malícia não passava daquele estado de torpor ao ver uma foto da revista Playboy, ou saber que fulano era “viado” ou que fulana “não era mais virgem”, tinha dado pra tantos e quantos homens do bairro, em sua maioria casados e “direitos”. Bom da vida era a praia, os filmes que passavam na TV, os refrigerantes, geladinhos, cocadas, brincadeiras nas ruas do bairro, os trabalhos escolares feitos em cartolina.

Porque não tínhamos ainda a claríssima certeza que teimamos em não querer ter, das agruras da vida real e adulta, que causam tristeza, desespero, desilusão, medo e que portanto nos aproximam daquilo que chamamos de morte.

 

 

 

*Foto da internet.

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ANO NOVO OU DIAS A MAIS EM FEVEREIRO

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Não se preocupe que tudo dará errado novamente.

Eu precisava finalizar o ano com uma crônica versando sobre as superstições, a fé genuína e a crença exacerbada e vã de muita gente que pensa que fé é o compartilhamento dela em redes sociais através de correntes e frases de efeito. A fé não abrange nada e tudo abarca. Espera sem ver; seu objetivo é coisa certa que chegará de supetão. Não adianta um desejo vazio, oco, sem ecos de credulidade.  Que ano, meu Deus, que ano! Que governo somos obrigados a engolir, que julgo somos obrigados e sofrer por causa de nossa ignorância e passividade!

Sem muita expectativa, fui trocar os óculos escuros. Um dos aros simplesmente rachou. Estava na garantia. Ganharei outro novinho em folha, pensei. Depois da troca irei à praia. Antes, vou tentar um empréstimo no banco. Mostrei os óculos, a moça olhou o certificado da garantia, sacou um bloco de papel de dentro de uma gaveta, preencheu e disse que eu ligasse após 15 dias.

Quinze dias?, perguntei espantado. Mas eu preciso de óculos escuros agora, porque estou indo à praia e a claridade acaba comigo.

Mas esse é o padrão da empresa, senhor Uálan.

Uarlen, consertei.

Desculpe. Uarlen.

Olha, deixa pra lá, vou usar quebrado assim mesmo, paciência, depois venho trocar.

Ela nem me deu um “tchau” ou “como preferir”.

Fui ao banco, a esperança é a última que morre. Os caixas estavam vazios, que milagre, resmunguei. Devia ter agradecido. Não rolou o empréstimo. Só daqui um mês. Que tolo fui eu pensando que sairia do banco com um dinheirinho extra para o final do ano…

Paguei uma conta na casa lotérica através do meu CPF. No balcão do atendente tinha um livro. Estiquei o pescoço para ver o título. Pensei que fosse O alienista, do Machado de Assim, mas era Viva uma vida com esperança, de não sei quem.

Fui para a praia. Estava um pouco vazia. Agradeci. Água fria e sol quente. Tomei duas cervejas bem geladas, dessas com menos malte e muito, muito mais milho transgênico. Arrotei. Como é bom ainda poder arrotar, pensei observando aquela luz fria e dura do sol se tornar aos poucos cálida, amarela, âmbar e deixar nossa pele macia, aveludada e tudo ao redor se assemelhar a um filme de Fellini ou qualquer outra atmosfera onírica a nos salvar das agruras do cotidiano injusto. Uma menina de laçarote vermelho pediu que eu a ajudasse comprando um pouco de amendoim.

Comprei.

Amo comer amendoim torrado.

Olhei mais atentamente: aqueles olhos de piedade da vendedora ambulante. Seria uma Cabíria negra numa praia de Salvador?

A lente, cujo aro estava rachado, caiu na areia. Por um segundo achei que a menina fosse rir, diante da cena atabalhoada e patética. Mas não, ela pegou a lente, me entregou e foi embora. Sumiu no pequeno nevoeiro de água e sal.

Lá se foi o sol.

Ninguém aplaudiu.

Graças à Deusa.

Lembrei: a moça que me atendeu na loja de óculos escuros me disse que eu poderia retornar lá até 30 de fevereiro, quando expira a garantia. Tive ímpetos de dizer que 30 de fevereiro só na cabecinha doidinha dela. Mas me calei.

Pois que seja assim o ano novo. Com as decepções que vierem, com os empréstimos que não devem ser feitos, com os óculos que nos servem, mesmo rachados, com olhares lindos de quem vende amendoim, com as dívidas bem pagas, e com o eterno por do sol de luz mágica. Esse sim haverá. E quem sabe dias a mais em fevereiro para nos trazer fé, esperança, realidade e alegria.

 

 

 

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ZAP

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Olhei para a esquerda e vi o anúncio de uma cuidadora de idosos procurando serviço. O contato era um número de telefone residencial e um número de telefone móvel escrito entre parêntesis (zap). Por onde se olha tem zap, contração ou cacofonia (a bem dizer da verdade, uma recriação) de whatsApp, que seria aplicativo do olá, do diga aí, do oi, da comunicação rápida. Como é que nós, brasileiros, não roçaríamos a expressão em nosso idioma belíssimo criando uma rica expressão?

É a antropofagia cultural completa e absoluta, nosso destino é deglutir o que é nosso e o que é dos outros e transformar em outra coisa, em coisa genuinamente brasileira: uót sáp (pronúncia de meu inglês mais que tosco); pegamos o som entre uma palavra e outra e criamos uma palavra tão nossa que falar “me passe seu zap” ou “me chame no zap zap” se tornou tão comum e autêntico como pular carnaval, comer feijoada ou ser mestiço.

Eu dizia isso para uma professora universitária que achou um absurdo, que deveríamos usar cotidianamente o léxico correto, forçando a população a se educar.

Mas o idioma é dinâmico, a língua falada nas ruas evolui, se não fosse assim estaríamos falando como nos século XVI! eu argumentei.

Não interessa, o certo é o certo. Eu duvido que a coisa evolua para trás! ela disse limpando os óculos.

Meu uber chegou, falei.

Boa viagem, vamos falar mais desse assunto depois.

Vamos sim, inclusive muita gente fala úbi, porque dizer úberrrr é muito complicado. Úbi é mais suave, escorre como manteiga amulecida, eu disse provocando.

Me passe seu contato, ela disse torcendo a boca.

O fixo ou o zap?, perguntei.

 

 

 

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RELATO DA CASA GRANDE

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Era uma casa bem grande,

Uma casa bem grande e rica,

Muito bem adornada, com capricho

E rigor.

Suas paredes e chão e teto eram deslumbrantes,

Não havia gente que chegasse e não se

Assombrasse com tamanha beleza.

Sua água era pura e as plantas que a adornavam

Tinham um quê de divino.

Os seus bichos domésticos eram

Esplêndidos e diversos.

Ali reinava a diversidade por todos os cantos

E todos os cômodos.

Em cada cômodo parece que habitava

Uma casa nova, cada recanto

Tinha o tamanho da imensidão

E cada imensidão tinha o cheiro

De sua própria gente

E seus próprios sabores.

 

Mas seu dono gostava de dormir

Contando as estrelas.

Deixara um gato de sobreaviso:

– Olha, vigia diuturnamente, vigia pela manhã

Tarde e noite contra os ratos

Que vem de fora e contra os ratos de dentro,

Para que não roubem a dispensa

E destampem as panelas do fogão

Em busca de comida.

 

E foi dormir.

Estava crente que o gato iria cumprir

Seu papel de felino

E comeria os ratos que ali entrassem.

Estava enganado.

O gato fazia vista grossa e os ratos faziam a festa:

Comiam da comida, furavam as caixas,

Bebiam do leite,

Comiam a farofa e a pizza,

Se banqueteavam no pirão

E na feijoada completa,

Experimentavam os vinhos e se deliciavam

Na cachaça.

Saíam gordos para as suas casas e o dono da casa,

O dono da casa deitado,

Sonhando em berço esplêndido.

Apenas reclamava que alguém deveria fazer algo,

Quando alguma coisa não parecia certa.

Então acordou e viu a baderna dos ratos

E gritou com o gato incompetente:

Que aquilo estava errado.

Que não poderia mais acontecer.

Conseguiu outro gato e deu-lhe a mesma ordem:

Que vigiasse e devorasse os ratos que ali

Entrassem para comer de sua comida.

E voltou a dormir.

O novo gato viu atento quando os ratos entraram

Pela janela, pela fresta da porta e por um buraco

No assoalho.

Novamente beberam da cachaça, provaram do vinho, comeram

O queijo coalho, o feijão tropeiro

E o arroz escorrido, além da salada de azeitonas e bacalhau.

Na saída o gato devorou um e dois ratos, lambendo em seguida os lábios delicados.

Quando o dono acordou, o parabenizou ao ver apenas as cabeças

Dos intrusos no tapete da sala.

(É que o novo gato não gosta da cabeça dos ratos)

A casa estava em harmonia, tudo funcionava perfeitamente

sob a gerência

Do novo gato empossado pelo dono da casa.

Mas um dia os ratos apareceram em bando, protestando.

Que o gato não agia em conformidade com as leis da natureza,

Que havia algo de podre naquela gestão.

Comeram de um tudo e beberam do vinho, do uísque e do licor.

O dono estava feliz porque sua casa estava protegida, suas riquezas salvas

E suas belezas naturais em boas mãos.

Dormia tranquilo sem perceber que ainda era lesado.

Acontece que os ratos fizeram pacto com o novo gato:

(Em uma sala secreta, é claro, durante os protestos)

De tudo lhes dariam um percentual se engodasse o dono a acreditar

Que todos observavam a lei e que estava tudo sob controle.

Assim fizeram aliança: os ratos e suas ratarias duvidosas e o novo gato

Levando vantagem para parecer um felino voraz.

Qualquer voz dissonante era imediatamente

Execrada pelos meios mais eficazes que atingiam

Sem pudor as massas da fauna.

Apertaram as mãos e posaram para os fotógrafos.

Estava tudo sob controle.

A honestidade e o perfeito funcionamento

Das engrenagens era o imperativo daqueles dias.

Posaram com um V de vitória com um bebê rato e um bebê gato no colo.

Falaram até em futebol, para agradar às massas aturdidas!

E sem perceber, na mesma noite, pensando que nada daquilo lhe convinha,

Na mesma noite o dono da casa, que tinha a cara dos negros açoitados e calados ferro e fogo, que tinha a cara das donas de casa cagadas pelas telenovelas,

Que tinha a cara dos jovens que nem sabem que existem,

Que tinha a cara do indígena dizimado pelos tiros dos grileiros

E decretos dois governos,

Que tinha a cara da mulher espancada, calada e morta,

Que tinha a cara dos que se calam diante do sofrimento do injustiçado,

Que tinha a cara do prisioneiro que dorme no chão entre as baratas

E a cara do cristão que nunca leu as palavras de Cristo,

A cara da família que come ratos e bebe o caldo de seu suor vão,

Além da cara da criança que estuda faminta

E do roceiro que é feliz porque tem uma televisão,

Que tinha a cara da dondoca que esquece que a morte baterá

À sua porta,

Sem perceber que nada daquilo lhe convinha, o dono começou a ser devorado.

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FEZINHA

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Entramos no táxi.

Como sempre eu já estava atrasado.

A consulta estava marcada para exatamente aquele horário.

O motorista estava radiante, cheio de gentilezas. O trânsito parecia lento, um calor sufocante. Ele ligou o ar condicionado e eu o afastei de mim. Ele me perguntou se eu tinha alguma rota preferencial e eu disse que não, que apenas seguisse pelo caminho mais curto pois estava muito atrasado.

Falamos mal do governo, do golpe parlamentar que estamos vivendo, “com ajuda do Supremo, com tudo“, da falta de investimento público, dos altíssimos salários de políticos e juízes, da relação entre direito e privilégio que é uma coisa de contrastes abissais em nosso país.

Por isso que jogo no bicho; sempre ganho. Isso me ajuda com as despesas, ele disse todo sorridente.

Bom saber. Eu joguei poucas vezes. Foi mais pela curiosidade em saber como se joga…

Eu sempre aposto os mesmos números.

Minha companheira começou a rir:

O senhor é que nem um tio meu, sempre joga e ganha. Esse tio quando esteve aqui em Salvador, ele é de São Paulo, jogou quatro números que eu havia sonhado e não é que ganhou?

Ah, é verdade, eu disse deliciado com a lembrança.

Sortudo ele!, completou o motorista

Ganhou um bom dinheiro, deu pra pagar as despesas da viagem e ainda sobrou! Imagine aí!

Quais os números?

Olhei para minha companheira. Ela lembraria?

Foram… 1888!

O ano da abolição da escravidão! eu disse fazendo uma relação fora de hora como é de meu feitio.

E agora o resultado é online!

É mesmo? indaguei olhando pra ele, que estava todo empolgado.

Sim. Você confere tudo pela internet. É contravenção online!

Balancei a cabeça, surpreso. Lembrei da antiga Agência Galo e de uma tia que fazia a fezinha dela três vezes ao dia, era viciada. Pedia que eu e meus primos anotássemos os resultados, que eram caprichosamente colocados num pequeno quadro negro na porta da agência. E aqueles montes de caderninhos e papéis com apostas e resultados, tudo escrito à mão com letras belíssimas! Vez ou outra ela ganhava. Chegamos e eu fui logo descendo. Paguei a corrida deixando o troco para o motorista.

Qual foi o número que sei tio jogou?

Foi 1880!

Na porta do edifício onde eu faria a consulta tinha uma banca com um funcionário da agência de jogo do bicho. Memorizei a placa do táxi.

Moça, bom dia, bota esse dinheiro nesse número aqui, eu disse olhando para o relógio e prevendo reclamação da médica.

Centena, dezena ou milhar? ela perguntou.

Centena.

Ela pegou a máquina.

Não, não, bota tudo no milhar!

 

 

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SUPERÉTERO

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Não precisa de noite escura e calada. É nas horas de sol a pino que ele atua. Seu uniforme desenha os músculos e o contorno do saco. Ali reside a fonte de seu poder. Luta incansavelmente contra os “males” da sociedade: as feministas, os gays, a dominação progressista e o comportamento refinado.  Foi na hora do almoço que esbofeteou a esposa: que mulher minha me deve obediência, porque o marido é o cabeça da mulher disse batendo com o dedo indicador sobre a mesa. A mulher disse que sim com a cabeça. Logo mais à noite passou-lhe a mão esquerda na perna: era sinal de que queria transar. Gozou bruscamente gemendo baixo e ai dela se lhe acariciasse a bunda! Virou-se e foi dormir.

Seu senso de herói vinha desde a adolescência, quando dormia de valete com os primos ou algum colega que fosse acampar com ele. Banho apenas sozinho; não que houvesse alguma insegurança com a própria sexualidade, jamais, mas é que não poderia ser visto tomando banho com outro macho.

O auge do heroísmo fora na idade adulta, por volta dos vinte e cinco anos, quando decidiu empunhar sua espada em forma de pênis duro na cara de quem o desafiasse. Decidiu fazer uma capa e sair por aí berrando macheza.

Vez ou outra admitia um viado “plantado”, que fosse viado mas que fosse homem. E que praticasse suas viadagens longe das vistas das famílias decentes, que aquilo não era coisa pra ser mostrada à luz do dia. E cuspia no corredor do metrô como se ali estivesse sozinho. Não admitia mulher trabalhando fora, criticava os poucos amigos que restaram, pouquíssimos diga-se de passagem. Mulher minha trabalha em casa e me espera chegar do trabalho. A mulher já lutava por um internamento, que aquilo não era normal e tinha passado dos limites. A vizinhança não se metia. Todos assustados com aquela espada em formato de rola dura que ele empunhava e brandia na cara dos mais desavisados. Um dia vira dois homens se beijando na calçada, um beijo rápido de despedida. Pronto, foi praticamente o Armagedom. Sacou a espada e gritou pelos poderes da pica! Eu sou o Superétero! O casal parou assustadíssimo, pois não tinha visto a patética figura. E brandiu a peniana espada na cara dos dois; a espada jorrou esperma (não perguntem como) que atingiu os olhos das duas criaturas, que caíram no chão sem conseguir enxergar. Foram atingidos por socos e pontapés, com o Superétero gritando palavras de ordem e de virilidade  e que ali não era lugar para pederastia.

Só tivera uma filha, que beirava os sete anos e seguia violentamente a cartilha do pai superétero. Casaria virgem, pois filha minha não seria papada por marmanjo nenhum antes do tempo, pra ser comida é a filha dos outros, comida por ele e pelos amigos, e depois ser chamada de puta vagabunda, que mulher que preste não se presta a dar para pessoas do bairro. A filha faria exames mensais com um ginecologista escolhido a dedo (!) por ele, para que se verificasse o hímen da pobre, se estava intacto. A mãe, assombrada, assistia a tudo passiva. Passivo é um nome que não poderia entrar no ambiente familiar, aliás diversas palavras e terminologias estavam proibidas. Um dia chegou em casa e Ney Matogrosso rebolava numa aparição em um programa de TV dominical. Pronto, canais bloqueados em nome da moral e dos costumes antigos e bons. Nada de debates sobre aborto ou casamento entre pessoas do mesmo sexo, a não ser duas mulheres, porque ele se excitava vendo duas fêmeas se beijando.

Chegava o final de semana, era hora de agir: pegava a espada pela base das bolas e saía pelas ruas e avenidas à caça de qualquer traço de pederastia abominável ou abominável pederastia, feminismos absurdos, comportamentos vis ou algo que atentasse contra a masculinidade. Seu sonho era ser militar, mas não conseguiu ingressar porque tinha o peso abaixo do normal. Seus olhos se enchiam de lágrimas quando chegava o dia em que supostamente a república brasileira fora proclamada e ele via o desfile dos carros militares, a bandeira sendo hasteada, o presidente em seu traje cafona acenando com sua esposa recatada e o hino sendo cantado à risca por militares fardados. Afinal de contas a república conseguiu tirar o país do atoleiro da monarquia.

Queria também matar com requintes de crueldade os médicos que incentivavam a vasectomia. Afirmava que causava impotência. Mesmo sem ter visto algum pau mole por causa da pequena intervenção cirúrgica. Mas causava sim impotência ao membro viril afirmava categoricamente. O saco para ele era algo sagrado, imexível!

Torcia para seu time preferido: um internacional cujo nome não sei escrever e nem quero. Não durou muito tempo: sumiu pelas ruas e becos da cidade grande. Virou lenda o Superétero com seu pequeno falo contornado pela roupa apertada, as pernas finas, os olhos acesos feito duas brasas e a espada-pica que jorrava sêmen na cara dos criminosos desavisados.

Afirmava categoricamente: morreria de câncer porque em seu cu ninguém meteria o dedo!

E brandia a espada-rola-dura-ejaculante.

 

 

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O REINO ENCANTADO

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A cortina se abre e o público vê uma imagem projetada de uma princesa medieval da Disney, loira, olhos azuis, sendo tomada por um príncipe de cabelos pretos, lisos, vestindo uma roupa que se parece com um uniforme daqueles carregadores de bagagens dos hotéis antigos de filmes antigos. Só não tem o chapeuzinho.

Os pais e as mães começam a gritar; flashes espoucam.

A cortina se fecha novamente. Uma mulher fala bem alto ao microfone.

Sejam todos bem vindos. Hoje vamos nos encantar com o maravilhoso universo dos contos de fadas.

E a cortina se abre novamente com a mesma imagem anterior projetada no telão. As crianças entram acompanhadas de uma professora. A música começa: uma versão dos anos 40/50 naquele estilo bolerão pré bossa nova.  Fala de um amor etéreo, irreal, infindo. Os meninos vestidos de camisa de manga comprida, espada de plástico e capa. As meninas de vestido rodado, babados, luvas e tiara presa em seus cabelos crespos. Estão assombradas. os pais estão encantados. A coreografia é sofrível e desengonçada, claro, crianças em um palco imenso, dezenas de refletores apontados para elas, a escuridão ameaçadora da plateia à sua frente e uma professora a seu lado tentando emplacar ali, ao vivo, o que fora arduamente ensaiado em sala de aula. A música termina.

A cortina se fecha.

A narradora grita novamente ao microfone, pede mais aplausos, diz que está emocionada. Alguns pais aplaudem, outros riem. Outros dormem já no início do espetáculo.

Todas as cenas se sucedem dessa maneira. Uma imagem de príncipes e princesas medievais, castelos, sedas, tiaras, coroas, bela e fera, encantamentos, feitiços, duendes e reinos encantados. o curioso é que ali pareciam ser todos protestantes, evangélicos. O que os fazia não perceber que em várias cenas existia a menção a feitiços, poções mágicas, maldições, enteais, trapaças, vinganças e tudo o mais que eles tanto odeiam e criticam no cotidiano real? Eu assistia embasbacado aquele duplo espetáculo: no palco e na platéia.

No palco,  as crianças mestiças e negras com professoras pretas e belíssimas representando as histórias europeias de princesas brancas. Na platéia, os pais que pagaram para produzir aquilo tudo e pagaram também a entrada no teatro, fotografavam e filmavam tudo com uma afã que só Deus pra entender. Ah, no começo pediram que todos se levantassem porque entoariam o hino nacional. Quatro professoras entraram no palco segurando a bandeira… Da escola Não a nacional! Eu realmente não entendi. Primeiros acordes do hino: tudo normal. Tudo normal não fosse pelo fato de que era uma versão em samba reggae, com a letra cantada como se estivessem em cima de um trio elétrico. Houve uma inversão: aquela música estilosa, aquela marcha orquestrada converteu-se numa música negra vibrante. os pais cantavam e dançavam; alguns faziam coreografias de carnaval! No palco as quatro professoram segurando a bandeira da escola tinha a mão direita sobre o peito.

Ao cabo de uma hora de cenas diáfanas, encantadoras e surreais, me dei conta de uma coisa: a escola brasileira está ainda nos anos 40 do século XX.

Ou não, porque até mesmo lá o Brasil padecia de racismo, pobreza, desigualdade social, opressão, exploração do trabalho infantil, trabalho análogo à escravidão, machismo, patriarcalismo, homofobia, violência doméstica… Talvez não desse ao luxo de ter um projeto monstruoso que tenta impor uma mordaça àquelas professorinhas, de modo que elas não possam expressar quaisquer opinião sobre algum tema diverso do currículo, correndo risco de serem demitidas e presas. não, no mundo encantado delas isso não é um problema. Nem o salário mísero. Tudo é encanto.

Saí desencantado.

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BEIRU E BEIRA

FîRUNS POR QUE DAN‚A?

Beirou a beira da estrada

Pelejou no estreito do abismo

Calejado, aleijado,

Vige, minha nossa senhora!

Senhora é dos engenhos!

Engenhosa que só para viver

Na correria de dia

E de noite um suspiro quente de prazer.

Que tempo doido que sempre foi doido,

O ódio escondido embaixo do tapete

Da sala da madame

E do pobre analfabetizado politicamente

Na sua própria novela.

Leva, leva, leve que vale a pena

Sentir de novo, na pele negra,

Na mestiça tez, no couro do cabrito que berra.

Ah, o que Temer, se já temia desde sempre?

É um medo medroso de se espantar,

É um reboco de pouca leitura,

É o fruto inocente do meu e de teu estupro,

É o corpo que já não te pertence,

É a cara velha, de pau, de sempre, cínica,

Cínico, cínicos, de cinismos bailantes sobre o acarajé

E o suor de dendê na cara enraizada no espanto.

Já não caminha pela calçada.

Marcha sem medo pelo meio da rua.

No meio.

Na beira.

Beiru.

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O OLHO DE DEUS

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Então ao final do bate papo sobre meu livro de contos e sobre questões relacionadas ao candomblé e o que herdamos do continente africano; e após uma matéria jornalística louvando o mês da consciência negra; e após tudo ter sido tão corrido como a passagem de um cometa, a apresentadora muito branca e muito sorridente pediu que eu fizesse algumas considerações finais olhando para a câmera.

Senti, sem me dar conta de que sentia, do quanto é fascinante o nosso cérebro.

Pois em frações de frações de frações de segundo eu senti ou pensei, ou senti que pensei, ou pensei que senti da vontade de dizer que gostaria que tudo fosse diferente. Que realmente amássemos uns aos outros que de fato nos importássemos com isso; que fôssemos amáveis e não fôssemos discretos nessa forma de amar e amar. Que cada pessoa pudesse ter ao menos três refeições completas por dia e que para consegui-las não fosse preciso ser escrava de ninguém.

Que toda criança brincasse e estudasse e decidisse de fato ser quem ela pudesse e quisesse ser sem entraves, barreiras ou ditames sociais.

Que as mulheres pudessem ser como os homens; e os animais como homens e mulheres; e todos os seres da mesma forma, iguais.

Que a arte, a filosofia, a política e o bom pensamento questionador fosse a ordem do dia e o sexo não passasse de mera banalidade.

Que não houvesse culpa nem medo, apesar da doença e da morte.

Que deixássemos de ser tão primários e ignorantes como nossos antepassados mais remotos.

Que não houvesse de fato mais a censura a nós artistas, como estamos vendo em nosso triste país tropical golpeado por bandidos que tomaram o poder.

Que pudéssemos dar um salto maior em nossa evolução, atestando que fomos criados para isso, para sermos grandes e belos.

Mas ao ver a correria da produção, o tempo que fugia por entre os dedos, a necessidade das propagandas, as luzes ao meu redor, um funcionário que olhava para o relógio e o olho da câmera me fitando como um deus inquisidor, eu abri a boca e falei que tudo fora dito; desejei bom dia e saí de lá pior do que entrei.

 

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P.S:

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Ah, que nojo.

Que nojo,

Que nojo,

Ah que nojo dessa gente que se conforma

Ou que só grita.

O grito servil é mudo,

é em dúvidas de chacotas

que reside teu grito inválido.

É inválido teu grito

e teu desespero.

É inválida tua horda de paz e caminhantes felizes em fotos

em preto e branco para parecer cult.

Que nojo dessa gente que apenas senta e escreve,

seu ativismo apaixonado de teclado e til,

seu ativismo ortográfico de LER de mouse.

Que nojo dessa gente muda e calada engolfada em apatia

e mornidão.

Que os deuses te cuspam para fora da boca do universo.

Que as plantas te envenenem aos poucos dentro de casa.

Que nojo dessa gente que faz o jogo dos sujos, garantindo o seu quinhão

mínimo na porta da boa esperança.

Que nojo dessa gente que defende o patrão por sua boa causa.

Ah, que nojo dessa gente, diz a senhora tomando café

e lixando as unhas vermelhas.

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ORAÇÃO

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E eu?

E eu?

E eu que me olho no espelho e me vejo em tudo e nada?

Branco que não sou e sendo;

Negro que não sendo e sou;

Índio que me  que não conheço e me tem!

Quem sou eu?

Quem sou?

Quem sou eu?

O espelho me diz agora: sou uma representação de mim mesmo: uma vitamina num gigante liquidificador. Sem segredos, com segredos secretos. Sou aquele indignado e passivo, não quero ser a mulherzinha nem o macho alfa que tudo governa. Sou favela, periferia, subúrbio e sentinela. Posso ver e antever os jogos, as moedas de troca e a sociedade que sempre foi doente e injusta.

O espelho me diz: Agora eu sou uma invenção, me disseram para ser assim, bem comportado senão iria para o tronco; para ser correto e justo como os demais, que sofresse calado mesmo comendo o pão que o diabo amassou.

Não existe esse diabo de medo e morte. Existe o espelho e nele me vejo e descubro quem sou e quem quero ser.

Sou verme destemido e sereia encantada; desencantos mil nessa página que não vira. que virá quando olho ao redor e digo: sou preto, sou branco, sou índio, sou mestiço, pardo de certidão, destinado ao fracasso de um país racista. Sou um ínfimo da Amazônia, um grão de areia do pantanal, um sopro do vento do sertão. Sou a boca seca do sertanejo, que grita ainda por justiça e justiça! Sou Nastácia e dona Benta, sou Saci e boneca Emília, sou Deus e Diabo sendo Deusa. Sou Oxóssi e sou Messias. E de que me serve? Serve quando vejo e grito, grito na medida certa. Bom cabrito é aquele que berra.

Que erra.

Sem medo de acertar.

Acerto é coisa inventada, para que tudo seja como dantes no quartel de abrantes; aquartelados nas prisões e pensamentos dos outros, que me querem assim: assado!

Assado como leitão cuja boca ostenta a maçã de Eva, que ensinaram ter saído de Adão. Sou agora mulherzinha, ao marido pedindo perdão?

Por isso de pé faço essa oração.

Sou mendigo e retirante, sou tem seto e sou sem terra. Que as tomem do rico, dos latifúndios improdutivos e inválidos. Que eu seja a água que brota em terra seca.

Não quero o herói, fora o herói bonzinho e com caráter. Quero o justo, que é amargo e que dói, que fere e fura e será como leite e mel na boca do preto e pobre. E que a Deusa acorde e nos toque com seu sopro divino novamente e nos dê força para lutar. A Deusa está em nós.

A Deusa sou eu.

Que seja assim.

P.S.:

 

 

 

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O MORIBUNDO

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É o teatro.

É a velha e boa arte teatral.

A eterna moribunda.

O cadáver sempre novo e redivivo.

Lidar com as palavras não é fácil, é labuta extenuante. Mas ainda assim a produção acontece em um banco de praça, em casa, no trabalho, no metrô, no ônibus, em meio ao barulho ensandecido de um shopping center. Até mesmo no banheiro sentado no vaso, como faço muitas vezes.

Mas o teatro não: é artesania que precisa de requinte e simplicidade; e precisa sobretudo de outras pessoas. E de alguém assistindo. É o lugar onde se vê, o teatro. E pena – é uma pena – pena todos os dias por gente que possa vê-lo. Atrizes e atores empenhados na perfeição de seu artesanato.

O velho e bom teatro que é feito por grandes profissionais artistas e técnicos e por grupos amadores em diversos bairros nas grandes cidades. Nunca perco a paixão e a esperança de rever esse velho amigo, o teatro.

Sentei-me sem grandes expectativas no centro cultural onde presto serviço. Era um grupo escolar muito bem organizado, eu e os demais colegas estávamos despreocupados. mas sempre alertas: evento ao vivo pode acontecer de tudo. As artes cênicas caminham por um fio entre o aplauso e o abismo. Talvez seja esse o motivo da paixão: o prazer sombrio pelo medo, por vivenciar sensações desconhecidas, mesmo durante as repetições diárias; o encontro com o público é sempre único e aterrorizante. Talvez seja isso.

Então me acomodei na poltrona.

As cortinas estavam abertas. os jovens sucederam cenas as mais diversas, com trocas de cenários, coreografias e música ao vivo, agindo como deve ser o bom teatro. O portal para a magia entre palco e platéia estava ali, aberto mais uma vez, fazendo brilhar a luz dos refletores em nossas retinas fatigadas pelo terror do cotidiano de corrupção e cinismo do Brasil. Essa gente maligna que censura a arte e a liberdade, essa gente suja que vê crime em paus e xoxotas e bundas e usam a faca para cortar o que é dos outros para si diariamente em suas negociatas espúrias.

Os familiares e amigos e público diverso estava presente rindo e se emocionando vendo aqueles corpos tímidos, seguros na corda bamba, sensuais, cheios de autoestima esbanjando talento no tablado. Como não sentir os olhos cheios de lágrimas ao se distanciar e perceber que a magia – sem medo do clichê – que a magia se fazia presente mais uma vez através da velha imitação de ações e sentimentos? Os grupos espalhados por todos os bairros da cidade – escolas, igrejas, centros comunitários, centros culturais, teatros particulares, escolas e bibliotecas comunitárias mantém essa arte de mais de 2.400 anos ainda de pé, sem botox, mas com as velhas e eternas máscaras da dor e do riso – podemos dizer que rimos na dor.

E vamos nessa luta diária contra a opressão e a favor das liberdades individuais, pela igualdade, mostrando que sem os deuses somos apenas o nada.

E com a paixão e o amor podemos ser muito.

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MAIS FORTE SÃO OS PODERES DO POVO

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Estive em um evento organizado por bibliotecas comunitárias de Salvador. Foi o Seminário Ler: direito de todos, onde se debate a importância de se fomentar o hábito pelo livro e pela leitura e onde se traçam planos para conseguir que um decreto vire lei com fontes de recursos: o plano municipal o livro, leitura e bibliotecas – PMLLB.

O evento é organizado anualmente pela Rede de Bibliotecas Comunitárias de Salvador – RBCS, composta por 14 bibliotecas comunitárias que faz parte de uma rede nacional e que presta um trabalho valoroso em toda a cidade de Salvador.

Aconteceu de tudo naqueles dois turnos.

Sentei-me ao lado de uma senhora muito da empertigada, muito bem maquiada e cheia de balangandãs. Cumprimentei-a e ela respondeu com um sorriso.

O que elas estão discutindo?, perguntei constrangido pelo meu atraso.

Ah, o motivo é importante, mas a mesa diz muita balela, cada qual vem aqui dizer o que está fazendo, quando na verdade ninguém está fazendo nada a não ser defender sua bunda!, ela disse se ajeitando na cadeira com ares de insatisfação.

Fiquei surpreso e chocado.

Mas gostei dela de cara, despudoradamente revoltada com aquele descaso e com as desculpas por um estado liberal e que pouco se importa com o fomento da leitura. Aliás: se importa e muito, afinal de contas fomentar a leitura é algo deletério, perigoso demais para a manutenção e perpetuação do poder de certas famílias quatrocentonas. Então se importam em manter tudo como sempre foi.

Parece que o pessoal das bibliotecas está implorando por uma coisa que deveria ser obrigação, que é dever deles!, disse a velhinha aos pés de meu ouvido.

Uma das mesas era composta por representantes de uma fundação municipal; por uma representante do SESC – Serviço social do comércio e uma representante de uma fundação estadual; Havia também uma representante da Secretaria municipal de educação. Eu tentava prestar atenção ao que diziam, todos expunham seus projetos e metas alcançadas, especialmente no que tange à produção e distribuição de livros. O SESC com seu importante concurso nacional onde premia um autor anualmente com a publicação de uma obra e contempla outros dois com distinção. A estadual com formação de bibliotecários e não lembro mais o quê, porque a toda hora a senhora me cutucava com um comentário ácido e malicioso.

Eles todos sorriem amarelo, parecem constrangidos, se pudessem sairiam correndo dali, disse me beliscando com uma mão e com a outra sacudindo as pulseiras de metal.

Uma pessoa de uma das bibliotecas comunitárias mediava a mesa, tentando dar ares de democracia em um país que vive uma ditadura imposta com bons modos e gestos à institucionais população. Ainda estamos em um Estado Democrático de Direito!, disse uma mediadora de leitura, após ser interpelada ironicamente por uma das convivas da mesa.

A estupefação era geral: pessoas em sua maioria despreparadas, sem o menor preparo intelectual ou técnico gerenciando pastas e departamentos de suma importância para o desenvolvimento da sociedade. Ou postas em lugares sem a menor possibilidade de trabalho. Digo do ponto de vista financeiro. Verbas mínimas para se desenvolver qualquer tipo de trabalho decente para fazer cumprir a lei.

Aliás, prefeituras se isentam em cumprir a Lei 12.224 sancionada pelo ex presidente Lula que diz que toda escola de ensino básico deve ter uma biblioteca com pelo menos um livro para cada aluno até 2020! Mais de 70% não possuem o equipamento. Segundo o Censo escolar de 2011 foram construídas 7.284 escolas em 2008, sendo que dessas apenas 19% foram construídas com bibliotecas. Ou seja: não é interessante para os governantes e parlamentares o fomento à leitura.

Eles gostam de imprimir e distribuir livros pra fingir que estão trabalhando, disse a senhora me cutucando.

Eles quem?, perguntei.

Os prefeitos, vereadores, deputados, governadores! Eles sabem que a mediação de leitura é importante, que as bibliotecas comunitárias fazem o papel que é dever do Estado, por isso eles sufocam o movimento com projetos paliativos, disse ela pegando um batom na bolsa e passando nos lábios finos e enrugados. Os prefeitos tratam o orçamento público como se fosse seu, eles fazem o que querem sem ouvir o povo, que parece que está dormindo!

Respirei fundo, estava angustiado com aquilo tudo.

Quando o microfone fora aberto ao público, para que esse pudesse fazer perguntas e questionamentos, a cobrança e insatisfação foi geral. Parecia dois mundos: a ladainha da mesa, que alega que com parcos recursos produz seus maravilhosos projetos e editais – e aí penso que todos estava em algum reino da fantasia – e o da platéia, em sua maioria composta por mediadores de leitura, bibliotecárias, dirigentes de associações, artistas e militantes políticos – que viviam uma realidade dura de insatisfação de impotência diante de um estado opressor que parece levá-los em banho-maria. Afinal de contas, já fazem anos que a luta prossegue para que a lei seja cumprida e os edis pouco se importam com livro e leitura, ávidos que são – salvo raríssimas e honrosas exceções que deveria ser a regra – por se locupletarem lambendo o saco de prefeitos e governadores.

O seminário terminou com cobranças, dedos em riste e debates acalorados sobre a importância de pôr a Lei em prática. A sensação era de descaso e paliativos para engodar a causa e seus militantes. O que se podia notar era uma mesa composta por gente pouco comprometida com o que representa ou impotente por não poder fazer nada  diante da imposição mesquinha e criminosa de governantes sem o menor compromisso com o povo e sem a menor vergonha na cara.

Vamos continuar na luta!, disse a velhinha se levantando apoiando-se em meu braço.

Com a força de Deus e dos orixás!, eu respondi.

Mais forte são os poderes do povo!, disse ela mostrando as pessoas ao nosso redor.

Saí e fui comer um acarajé quentinho que era servido no saguão.

Com o sentimento de que o amanhã não tarda, uma nova aurora sempre virá.

Com o povo.

 

 

 

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A ÁGUA QUE VAZA

Vassoura

Muito se fala da cordialidade de nós, povo brasileiro.

Eu precisa de material de limpeza. Saí para comprar. Quando retornei  – com mais sacolas e compras do que deveria, encontrei um vazamento no registro da água. imediatamente coloquei as compras dentro de casa e voltei para averiguar o que havia acontecido. Minha preocupação maior era com o gasto de água: poderia triplicar minha conta no final do mês. Por sorte o vazamento era anterior ao relógio que conta os metros cúbicos de consumo da casa.

Me senti aliviado. Mas e aquela água toda jorrando rua abaixo? (Acho engraçadíssimo escrever isso: rua abaixo. A água poderia jorrar rua acima? Ou eu quereria dizer que minha residência fica numa ladeira ou rua um pouco enladeirada?) Bem, a água não poderia ficar jorrando por toda a rua – também não poderia ficar jorrando por uma avenida, beco ou praça. Precisamos cuidado do nosso bem mais precioso, porque no futuro valerá mais que ouro e eu espero não estar mais aqui quando as guerras começarem por um litro do precioso líquido!

Liguei imediatamente para a companhia de abastecimento e protocolei uma queixa. Me deram 48 horas para consertar. Quarenta e oito horas?, disse para a atendente. isso daria para encher duas piscinas olímpicas ou mais! Ela disse, cheia de empáfia:

Senhor, eu disse que EM ATÉ 48 HORAS. EM ATÉ!

Ah, tá, respondi mais aliviado na vã esperança de que poderiam chegar em pelo menos duas horas.

Ledo engano.

Durante aquele dia e parte do seguinte bateram à minha porta 11 pessoas me alertando sobre o vazamento.

A primeira foi uma moradora antiga que ia para o trabalho às 6 da manhã. Eu pensei que ela estava passando mal, levante correndo para acudir. Ou que tinha sido assaltada. mas não:

Meu filho, você já viu esse vazamento? isso conta, você pagar caro.

E emendou, sem me deixar falar nada:

Ligue logo pra EMBASA (empresa baiana de abastecimento)! Quer meu telefone?

Não dona Dulce, muito obrigado, eu já liguei, eles devem estar chegando a qualquer momento.

Ah, ainda bem, porque uma vez aconteceu isso em minha casa, mas eu não estava e ninguém viu. Só um vizinho que eu nem me dava, nem falava com ele. Ele que me alertou. Veja como é a vida né? Por isso que bati pra te alertar, pra você não pagar uma conta muito alta. Esses filhos da puta já cobram pela água e pelo esgoto muito caro, imagine com vazamento?

E eu ali de cueca me escondendo atrás da porta, ouvindo o que ela tinha a dizer pela porta entreaberta.

O outro foi no almoço: Atendi limpando os cantos da boca:

Boa tarde, o senhor já viu esse vazamento?

Minha vontade foi dizer: não, sou cego, por isso não vi. mas recuei e fui gentil.

Vi sim, já liguei pra companhia de abastecimento. Está  a caminho. Por sorte o vazamento aconteceu antes do relógio, não vou pagar nada a mais. Obrigado.

E foi assim por dois dias. Pessoas passando pela rua e se queixando, que aquilo era um absurdo, como é que uma pessoa pode deixar a água jorrar assim?

Que desperdício!, disse uma testemunha de Jeová.

É uma falta de compromisso!, sussurrou um homem carregando um botijão de gás.

É falta de educação doméstica!, disse uma mãe carregando a filha que ia para a escola.

Vou ligar pra avisar do vazamento!, disse uma mulher pegando o telefone e discando.

Ouvi de tudo. A última foi um vendedor de vassouras. nunca mais tinha visto alguém vendendo vassouras de piaçava e de palha de porta em porta:

Boa tarde, não estou vendendo vassouras não; quer dizer, estou vendendo, mas vi primeiro falar do vazamento. Você já viu? Já ligou pra eles virem consertar? Pode ter um prejuízo grande viu! Água vazando assim é um problema. Em minha casa aconteceu na descarga, vazou por dentro do vazo e ninguém percebeu. A conta veio quatro vezes mais cara!

Já avisei, eles devem estar chegando a qualquer momento. Ainda bem que o vazamento ocorre antes do relógio.

Ah, ainda bem, o senhor deu sorte. mas não pode deixar água vazando assim, é um desperdício.

Muito obrigado, falei sorrindo.

Acabei comprando duas vassouras sem precisar.

Me tocou a preocupação genuína das pessoas. Tanto por eu ter um virtual prejuízo quanto com a consciência do uso da água.

O conserto foi efetuado três dias depois. Eu não estava em casa.

Agora olho para as vassouras: darei uma de presente. A outra vou usar para tirar teias de aranha do telhado.

 

 

 

 

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UM TRAÇO DE VIDA

A sculpture is pictured at 'Dismaland', a theme park-styled art installation by British artist Banksy, at Weston-Super-Mare in southwest England

Eu estava sem inspiração.

Precisava escrever essa crônica. Pra completar era feriado. Não sou nem um pouco simpático a feriados, desde que me entendo por gente. Acho depressivo. Gosto do movimento do comércio e do vai e vem das pessoas; gosto de gente em movimento. Nisso tenho Exu bem nítido e ativo dentro de mim.

Eu iria para o metrô, de volta para casa. Tomei um ônibus que me deixaria na estação da Lapa. Olhava entediado pela janela imaginando o que iria escrever, sobre o que iria escrever. Ninguém me acudia: crônica, poesia, conto, mentira bem contada, acontecimento fortuito, nada!

Foi quando o ônibus fez um desvio inesperado: havia jogo de futebol no estádio da Fonte Nova e as ruas de seu entorno estavam interditadas, como é de praxe. Eu havia me esquecido do jogo. Levantei-me imediatamente para descer no próximo ponto. Não pegaria o metrô, iria caminhando para casa. O ônibus parou abruptamente. Descemos eu e uma senhora.

Eu não sabia que tinha jogo, e agora?, murmurou.

Toda vez é isso, falei.

Eu não lembrei.

Nem eu. A senhora iria pra Lapa? Ele vai pra lá, apensar de dar uma volta enorme!, falei ajeitando a mochila nas costas.

Eu iria descer no Dique do Tororó, moro ali perto.

Ah, então a senhora sobe comigo e desce a Ladeira do Pepino, falei tentando confortá-la.

Subimos a grande escadaria ao lado de um viaduto. Eu estava perto de casa. Ela também. Não era velha, poderia ter minha idade, talvez três anos mais velha. Era negra, sóbria, gestos delicados, segurava uma pequena bolsa. O cabelo preso por um coque e uma flor de tecido. Usava um vestido marrom e seu olhar era doce. Me mantive um pouco afastado, ela poderia ter medo de andar com um homem estranho. Mas ela continuava caminhando bem perto de mim. Eu olhava ao redor, me mantinha alerta contra qualquer perigo.

A gente nunca sabe não é moço, o que pode acontecer… Ainda mais feriado!

Sim, cidade grande como a nossa, perigosa… As ruas desertas. Mas vai dar tudo certo. Chegaremos em casa em paz.

Vai dar sim. Eu moro pertinho daqui, não é nada demais. Caminhar um pouco faz bem, sair da rotina também.

Com certeza!, eu disse. Gosto muito de caminhar. Só iria pegar o metrô por causa do feriado, não gosto de feriado. As ruas desertas são tristes.

Mas essa tristeza passa. Amanhã será dia útil, a gente precisa ter fé. Muita gente fica triste, perde a fé, mas viver é um perigo e é muito bom. Seja como for, eu gosto é da vida! ela disse sorrindo e respirando fundo resgatando o fôlego perdido na subida.

Amanhã tudo será movimento, eu disse.

Hoje também! Está sendo! Eu vou descer a ladeira do Pepino, vou atravessar a rua. Ainda bem que Deus colocou você no meu caminho.

E a senhora também, no meu.

Boa noite, tudo de bom!, disse ela atravessando a rua e sumindo na esquina talvez para sempre.

E assim terminou aquele feriado. Com a matéria de que eu precisava. Não me atentara para o fato de que a mudança de itinerário era O movimento. Eles não me deixam só, deveria ter lembrado disso. E de que mesmo um encontro fugaz conserva em si um pequeno traço de vida.

 

 

 

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SER OU NÃO SER

ser ou não ser

Não tinha casa nem dinheiro nem carro nem jóias; nem sequer uma conta bancária.

Não tinha namoradas ou namorados, amantes passados ou futuros.

Tudo o que tinha era a grande dúvida: ser ou não ser.

Queria ser. Mas ser como ele era. Não totalidade plena de existir. Não queria ser como as outras pessoas. Não que as odiasse. Mas queria ser ele. E esse querer o arremessava para a dúvida das incertezas.

Enfrentaria o medo?

Conseguiria se manter de pé?

O que diria aos outros?

Diria o que diz a si mesmo olhando no espelho: eu sou?

Sentou-se no banco da praça e ouviu o canto dos pássaros por todos os cantos, em todas as árvores. Viu que crianças brincavam no parquinho implantado no meio da praça. Olhou para o pipoqueiro e para o casal de namorados abraçados num banco mais distante. Seriam amantes? Amantes no sentido de amar. Ou estariam apenas ficando, como se diz?

Não.

Aquilo tudo não o interessava. Era rico e sorria por ter a dúvida. E decidiu por certo que seria. Que assumiria seu verdadeiro eu sem medo e sem culpa, correndo todos os riscos e tomando para si a gerência das consequências. Todos em sua família, em seu bairro, em sua cidade gostaram da atitude. Afinal de contas devemos ser o que somos de verdade, sem se importar com os outros.

Ao cabo de uma semana de personalidade própria revertida não em palavras mas em ações, tudo se transformou como o mar outrora calmo, em tempestade violenta.

Não vê que ninguém age assim?, disse seu colega de trabalho.

E ao fim de mais um dia, antes mesmo de o sol se por, ele sofrera as mais violentas retaliações por seus atos originais e personalista. Não. Não poderia ser daquele jeito. Precisa agir em conformidade com os padrões estabelecidos por todos. Deveria ser uma pequena e insignificante parte daquele todo. Não poderia ousar ser ele mesmo um todo.

Precisava não ser.

Como poderia usar aquelas roupas e aquele penteado? Como ousara comer aquele tipo de comida e usar aqueles sapatos? Grande audácia ter opinião própria, visto que a verdadeira opinião é aquela aceita por todos como a mais bonita e elegante? Aquele comportamento alterava o cotidiano das pessoas, Os mais velhos olhavam de cara feia. Os jovens sorriam com ares de zombaria.

Estaria louco?, pensou.

Disseram que sim. Foi medicado e passou por batalhões de doutores que nem sequer perguntaram o seu nome. Agora tudo o que vê é o branco do teto. Deitado na cama estreita, os olhos vidrados olhando para o infinito do teto branco.

Não sendo.

 

 

 

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REI DA GAFE

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Não sou o rei. Sou o príncipe.

O rei era o Fernando Sabino. O grande escritor mineiro escrevera em uma crônica que era dado às gafes mais bizarras.

Eu chego perto.

Noutro dia estava em uma festa e o pessoal estava animado falando de tudo; política, roubalheira, cinema, artes plásticas, teatro, literatura, telenovelas, eleições, golpes, racismo, fome, desigualdade, carnaval, analfabetismo político e funcional… Enfim, falando sobre o Brasil. Aí se aproximou uma conhecida. Fazia uns meses que eu não a via. Notei que estava barriguda. Devia estar com pelo seis meses, pensei.

O povo adora ter filhos, pensei. o país nessa situação e a galera engravidando, pensei novamente já sorrindo para ela.

Quanto tempo, ela disse.

Pois é, você sumiu. Ainda lidando com teatro?

Sim, ensinando em uma instituição.

Falar instituição dá um ar sério e pernóstico ao ato. Mais na frente ela me diria que é uma associação de bairro que passa por sérias dificuldades, atrasa salários, até papel higiênico os professores estão comprando para auxiliar no cotidiano pobre de quem almeja fazer algo nesse país rico e bandalho.

Mas vai dar tudo certo, eu disse como sempre costumo dizer quando nada tenho a dizer frente à minha decepção com essas coisas.

Ela precisou sair logo da festa, não era uma da manhã. Então decidi atacar:

É menino, menina, ou a pessoa vai descobrir futuramente?, perguntei me arrependendo da piadinha besta.

Não estou grávida, é só barriga grande mesmo, ela disse sorrindo sem graça, se desvencilhando de meu abraço.

Ah, me desculpe, bebi demais hoje, misturei vinho com cerveja e vodca. Que loucura, eu disse pondo o copo sobre uma mesinha plástica.

Tem nada não querido, estou acostumada, faz parte da vida, ela disse dando tchauzinho.

Certa feita a gafe foi monumental.

Um irmão do candomblé estava grávido. mas a esposa perdera a criança. O natimorto teve muitas complicações. Não chegou a esse mundo sequer com oito meses. Mas, avoado do jeito que sou, me esqueci daquela tragédia familiar.

E durante alguns afazeres da roça para uma festa do orixá Omolu, o Olubajé, ataquei esquecido, simpático sorridente:

E sua criança meu irmão, como está, crescendo com saúde?

Não Uarlen… Meu filho nasceu morto, ele disse. Senti nas sílabas de meu nome em seus lábios um misto de desprezo e coisas do tipo “que cara sem noção!’.

Ah, meu Deus, me perdoe, sou muito esquecido, que tolo que sou. É verdade, eu disse pondo uma mão em seu (no dele, claro) ombro. Que Deus o tenha em um bom lugar, emendei de maneira bem atabalhoada, porque quem me conhece sabe que muito raramente eu tento conjecturar sobre o que Ele fez, faz ou fará.

A outra gafe memorável se deu quando eu esperava passar algum táxi. Quando a gente precisa nunca aparecem. Surgiu assim do nada um amigo de minha família. Na verdade um primo de segundo ou terceiro grau, muito simpático, brincalhão, sempre sorridente. Estava acompanhado de uma moça jovem.

Quanto tempo, ele disse.

Oh, é mesmo, por onde anda?

Me mudei tem uns nove meses.

Rebati com minhas associações que não tem nada a ver:

O tempo de uma gestação!

Silêncio.

Como vai Zoroastra, sua esposa?

Estamos divorciados, tem mais de dois anos!, ele disse sempre sorridente.

Ah, mas vocês se amavam tanto… Aposto que ficam vez em quando, aqueles flash back…

Não, não, sou casado com ela aqui, disse ele abraçando a moça.

Deus me acudiu: apareceu um táxi.

Táxi, táxi!, gritei acenando. Bom te ver!, emendei.

Entrei no carro e olhei pela janela.

Ele sorria e balançava a cabeça negativamente.

A moça, cujo nome sequer perguntei,  estava séria.

 

 

 

 

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PETRALHA

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Fui convidado por uma escola particular para dar uma palestra sobre literatura e produção independente. Sempre sou convidado a falar de coisas que não entendo completamente. A criação artística é e sempre será um mistério. Por isso que é coisa boa, penso. E sobre independência… Bem, todos nós artistas brasileiros somos independentes, sob certo ponto de vista…

A escola não gosta de ser chamada de escola, prefere “instituição de ensino”.

Então eu fui convidado por uma instituição de ensino particular ou instituição particular de ensino para proferir uma palestra – que chamei de bate papo – sobre produção artística e independente. Era uma sala enorme, púlpito sobre um pequeno tablado, iluminação geral com um foco em destaque para a minha pessoa. Devia ter pelo menos 100 adolescentes, além de professores e alguns funcionários entediados.

Senhor, me ajude, pensei ajeitando a gola da camisa e adquirindo um falso ar de segurança e seriedade. Eu queria mesmo era correr dali. Fui ao tablado, peguei uma pequena caderneta com alguns apontamentos; aproveitei para olhar nos olhos das pessoas mais próximas. Quando eu era Testemunha de Jeová, nos discursos que proferia, me disseram para olhar logo nos olhos dos assistentes, assim o nervosismo se dissiparia. Nunca funcionou.

Alguns adolescentes começaram a rir e outros começaram a gritar: começa, começa!

Boa tarde a todas!, falei entusiasmado, sorridente.

Só tem mulher aqui é?, indagou um rapaz.

Um professor olhou curioso para minha cara.

Gosto de cumprimentar assim, porque em todos os tempos utilizamos o masculino e as mulheres se sentiram representadas. Por que não falar no feminino e nós homens…

Você é de esquerda?, gritou alguém lá do fundo.

Sou. Mas o que isso tem a ver pessoal?, perguntei antevendo confusão. A esc, a instituição me convidou para falar sobre produção literária. Apesar de não ser um autor muito conhecido, tenho uma grande produção dramatúrgica que é admirada por muitos artistas, lancei quatro livros e estou prestes a lançar outro de poesia e…

Nesse momento uma moça de óculos interrompeu:

O senhor acha que esse governo faz alguma coisa pela arte e pelos artistas?

Acho que não. Acho esse governo um equívoco; não estamos mais em uma democracia, mas numa ditadura escancarada. Educação e Cultura foram lançadas no esgoto, falei com convicção.

Mas tenho em mim todos os sonhos do mundo, emendei tentando fechar com chave de ouro a discussão e partir logo para a dita palestra e partir o mais rápido possível dali. Amo debates e discussões que se aprofundam sobre os mais variados temas, mas aquela posição de destaque sobre um tablado e debruçado em um púlpito me incomodou por demais. pedi um copo com água a uma professora que estava logo á minha frente.

Uarlen, disse um rapaz negro levantando a mão. O senhor acha que Jorge Amado era mesmo comunista?

Além de ser chamado de senhor a todo momento, me incomodou o nível das perguntas, todas sem nexo, parecia que foram sorteadas ao acaso no universo. Ao nível dos achismos.

Sim, ele era comunista, ele afirmava isso, inclusive foi membro do partido comunista!

A professora me trouxe a água, tropeçou no tablado e derramou em minha calça, pedindo mil desculpas, botando a mão no rosto morta de vergonha. Correu e puxou um lenço da própria bolsa. Passou na minha perna, mas não resolveu quase nada. A maioria dos alunos dando gargalhadas. Uma minoria pedindo silêncio, uma parte teclando nos iPhones e quase todos fotografando e filmando.

Ah, meu pai, devo estar ao vivo para todos os continentes!, pensei sorrindo amarelo para a professora que retornava com outro copo com água.

Bebi.

Então, continuando, a produção independente no Brasil é muito ampla e variada. Escritores que lançam suas produções em blogs e sites, outros editam literatura em formato de folhetos de cordel, editoras online que imprimem livros sob demanda e…

Fui interrompido por uma professora:

Em seu recente livro de contos o senhor aborda um pouco a negritude e os temas das religiões afro brasileiras. num país cristão, isso é mesmo relevante?

Respirei fundo.

Sim, é relevante, o Brasil é um país plural. É necessário abordar essa pluralidade, a beleza que há nisso.

O senhor acha que o Lula fez um bom governo?, indagou um professor de casaco amarelo.

Acho, disse fechando a cadernetinha com apontamentos.

O senhor não acha que foi um governo assistencialista?

Não, foi um governo que priorizou distribuir renda. Apesar de muitos defeitos, erros e equívocos, é preciso admitir. Mas foi um bom governo. É uma opinião pessoal, mas voltando…

Uarlen, gritou uma menina encostada à porta. Já te chamaram de petralha?

Todos riram. Uns aplaudiram.

Não.

Então você é petralha?

Respirei fundo, pus a cadernetinha no bolso, bebi o resto da água gelada que estava no copo de vidro.

Olha gente, foi ótimo estar aqui. Sou artista, sou de esquerda e se quiserem sou petralha também! O tema da palestra é; como ser artista e petralha no Brasil!

Silêncio total. Respirei fundo. Me aproximei do microfone.

E quem estiver incomodado pode se retirar!

Ou se quiser vai pra Cuba!