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DEUS, PÁTRIA, FAMÍLIA

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Depois da farra, do desbunde, das bebedeiras e excessos tão necessários à festa momesca, a realidade: O trabalho, as dívidas, as pequenas delícias da vida, a mediocridade, Deus, a Pátria estuprada e a família.

Oh, que delícia!

Essa última me causa espanto. Lembro de uma história que um velho monge me contou num retiro pseudo espiritual e totalmente turístico que fiz anos atrás. As pessoas não paravam de fotografar. Todos os cantos da mesquita eram violentados por luzes dos flashes e pelas perguntas mais infantis possíveis dos presentes. Eu também vez ou outra era seduzido por isso tudo, que não sou de ferro! Quando os outros se adiantaram, decidi me atrasar e fazer uma pergunta a um velho monge que meditava. Ele havia se espreguiçado e levantou-se. Foi quando eu ataquei com meu inglês parvo.

Perguntei-lhe sobre uma imagem que aparentemente retratava uma família numerosa. O monge respondera que sim, era a representação de Deus, de uma possível pátria e de uma família. E me contou uma história milenar (segundo ele):

Deus, ou Deusa, nunca saberemos se é homem ou mulher, em nossa necessidade de antropomorfizar tudo e todos, não precisava reinventar-se, Ele era a invenção e a reinvenção de Si mesma, sem mais. Então decidiu criar o conceito de pátria. Mas antes criou todos os seres, inclusive nós humanos. (Eu olhava para o monge muito atentamente, vez em quando esboçava um leve “unrrum” fazendo cara de coerência) A partir daí, o ser supremo quis ter a opinião de seus ministros, espíritos infinitamente menores que o Criador. Chamou Oxalá, Buda, Jesus e todos os coros de querubins, serafins e potestades. Fiquei assombrado com aquilo tudo. Uma entidade celeste daquelas poderia acabar com tudo o que entendemos como mundo e humanidade. Imagina o coro todo reunido! Outro unrrum. O monge continuou:

O Ser Supremo decidiu criar um local amplo onde pessoas com as mesmas afinidades pudessem morar.  Um querubim perguntou a Ele se não seria melhor criar pequenas “células” e em seguida um ajuntamento delas, que, numerosas, dariam origem ao que Ele queria: a tal pátria. Foi aí que tiveram a ideia de criar a família. As pessoas criadas poderiam unir-se num matrimônio e procriar, dando origem a um lanço eterno de ascendentes e descendentes. As pessoas de amanhã descenderia de uma pessoa de hoje, que seria seu antepassado. As criaturas poderiam também reinventar a ideia original a seu modo, criando novas possibilidades, imitando o Senhor, disse um serafim.

Deus ficou animado com a ideia e bateu o martelo. Sua animação fez nascer cerca de dois trilhões de estrelas e milhões de cometas mudaram suas órbitas para marcar aquele acontecimento! Estava criada a ideia original de família e futuramente uma pátria!

Mas quem administraria tanta gente lá embaixo?, perguntou Deus franzindo o que poderia ser uma testa.

Todos fizeram a mesma pergunta.

Estava instalada a confusão: eles não poderiam se intervir, não poderiam governar as criaturas.

E agora? Quem teria a solução?

O monge parou para beber água em uma cuia de barro e me ofereceu um pouco. Eu aguardava ansiosamente pela solução divina, enquanto espiava meus pares turistas indo longe em meio a flashes e autorretratos em cada canto, em cada coisa.

 

(Continua…)

 

Foto: detalhe de obra de Joan Miró.

 

 

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MUDANÇA DO GARCIA

Precisava escolher a fantasia, algo assim improvisado.

Pensava que não seria difícil. Eu sairia com os colegas do grupo de teatro, iríamos usar os figurinos do recital de poemas pornográficos Cabaré dos marginais e pararíamos em alguns momentos para recitar um ou outro verso, além de algumas das músicas do recital.

Aí começou a confusão: fora pego pelo politicamente correto. O colega fizera um personagem travestido, com peruca, saiote e batom. Vira uma reportagem com ares de politicamente correta que beirava – no meu entender – o fascismo em que ditava ser errado usar fantasias de índios ou mulheres no carnaval; que isso ofenderia a figura feminina e do que chamamos de índios e índias. Uma colega sugeriu que usasse então a fantasia de militar, alegando que condiz com o carnaval ridicularizar aquele estilo quadrado e de vocação para ditaduras e imposições as mais radicais.

o colega alegou que não poderia ofender os militares, porque tem pai militar.

E ele permitiu que você seguisse a profissão de ator?, eu perguntei assombrado com a revelação.

Saí de casa e ele me tomou o carro velho que dera de presente quando me formei no segundo grau, disse meu colega torcendo a boca.

Ah, então use a fantasia de militar. Com saiote por cima da calça, eu disse.

Tem a fantasia de palhaço, lembrou uma amiga do grupo. Ela sempre acompanha nossas apresentações e está sempre presente em nossos momentos de boemia.

Mas não posso usar roupa de palhaço! Todo mundo usa!

Precisávamos de figurinos que as pessoas identificassem o signo de imediato.

Vá de puta do século XVII, tem um vestido enorme aí no acervo, eu disse.

Com esse calor? Eu vou passar mal!

Sentamos para tomar uma cerveja. Mudança do Garcia faz referência – assim me contaram – a uma moradora do bairro do Garcia que era muito malquista por todos da região. Talvez fosse uma mulher “de vida fácil”, não lembro com certeza a história toda. Sei que insistiram para que ela fosse embora do bairro. E ela foi. Com móveis, panelas, fogão, geladeira e tudo mais exposto, aquela típica mudança de pobre. No caso da infeliz mulher, sobre uma carroça.  Então permanece a tradição de satirizar aquele evento: carroças, pequenos caminhões, carros, bandinhas, batucada, muito protesto político, muita irreverência, todas as tribos, adultos, crianças e idosos em paz na folia.

Estava ficando tarde. Decidimos ir sem figurino, apenas de bermuda, tênis e camiseta. Mal subimos a enorme ladeira que dá acesso ao bairro do Garcia, uma chuva forte começou a cair. E foi assim até anoitecer: muita folia.

Encharcados.

 

 

 

Fotos: Chayenne Guerreiro e Francis Juliano, respectivamente

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POESIA

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É preciso ler poesia com olhos de não encontrar coisa alguma. Com a iminência da surpresa e do vazio. Digo vazio porque aquele espaço é onde se cria. É poder sentir o gosto do azedo, do amargo ou até mesmo a doçura e o encanto. É preciso ler poesia divagar, entre suspiros e acordar de sonhos, sentindo sua punhalada firme e sutil, que sangra a alma e transforma o barro em tijolo e o açúcar em bala embrulhada em fino papel. Com os olhos e boca assustados lemos poesia e nos sentimos diamantes: brutos ainda. Joia eternamente inacabada em sua incontida preciosidade. É preciso o impreciso de um simples verso para que eu cruze um deserto de vazios e encontre em mim mesmo a música, o horror, a surpresa, o grito, o passinho da dança, o cisco no olho e essa graça.

 

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PASTELZINHO

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Encontrei um amigo no centro da cidade.

Salvador está sempre em estado de ebulição nos dias que antecedem o carnaval. A festa parece que nunca começa de fato: vai começando aos poucos. Uma rua que é fechada, o trânsito que é modificado aqui e ali, balaustradas que pouco a pouco são escondidas atrás daqueles horrorosos banheiros químicos, fachadas de prédios são interditadas por tapumes, policiais militares com aquele eterno ar de opressão reunidos nas esquinas, uma lavagem, outra lavagem, uma festa inventada pela prefeitura, outra festa inventada prefeitura e assim a festa deixa de ser popular para virar propaganda de governos e governantes cujo cinismo supera o ego dos deuses do Olimpo.

Então, em meio a essas observações, encontrei meu amigo.

Vamos almoçar?, falei de supetão.

Vamos, tem um restaurante de uns chineses que tem uma comida deliciosa ali no Largo dois de julho.

Chineses ou japoneses?, indaguei.

Tanto faz.

Mas será que a comida ainda está boa numa hora dessas?

Você tem razão. São quase duas e meia. A essa hora só tem cuspe e cabelo.

Como assim?

É comida a quilo. Os alimentos ficam expostos, todo mundo chega conversando, rindo, as mulheres com cabelões soltos, os homens também…

Ah, entendi, disse coçando a barba. Vamos naquele restaurante ao lado do shopping Piedade.

Vamos, disse meu amigo.

Eu estava azedo de fome, não conseguia pensar em rir, quanto mais rir de alguma coisa, a fome me deixa abatido em questão de minutos.

O restaurante a que você se refere é aquele com a fachada imitando madeira, todo marrom?, perguntou ele limpando o suor da testa com as costas das mãos.

Sim, aquele mesmo.

Aquele é muito caro. Estou com pouca grana, ainda não recebi meu salário, sabe como é a vida de professor.

Não faço ideia, nunca trabalhei em sala de aula.

Mas sabe como é.

Aliás, vocês são culpados pela desgraça do ensino brasileiro. Não são os programas de governo, nada. São vocês que apenas se limitam a repassar a “grade” aos alunos.

Sei, ele disse pouco ligando para meus questionamentos.

E digo mais: são praticamente analfabetos. Quantos livros um professor lê por ano? Um livro, meio livro? E os clássicos? Quantos professores leem os clássicos para os alunos? Será professores sabem que são Eurípedes, Sófocles, Aristóteles, Homero?

Você não sabe o que é uma sala de aula. Pior: não sabe o que são os pais dos alunos! São verdadeiros demônios da ignorância e da estupidez!

Calei-me.

Sugeri almoçarmos no restaurante do Teatro Castro Alves.

Mas lá não estava em reforma?, perguntou meu amigo.

Não terminou?, falei em dúvida.

E se não tiver terminado, iremos perder tempo, andando a essa hora nesse sol escaldante.

É verdade, confirmei.

Entramos num “pé sujo” na Avenida Joana Angélica. Olhamos os preços. Caros. Comida feia.

Mas não se acha uma comida de boteco boa a essa hora em Salvador?

Acha, mas nos bairros, aqui no Centro é assim mesmo, essa correria.

Paramos em frente ao convento. Miríades de ambulantes e pessoas distribuindo panfletos, anúncios de xeros, impressão, vendedores de frutas  e compra-se ouro.

Você parece libriano, eu disse.

E eu sou, sou de 2 de outubro, disse meu amigo.

Ah, eu também! Sou de 27 de setembro.

Ah, então está explicado, disse ele pondo as mãos na cintura.

Comemos um pastelzinho com refresco de maracujá no chinês (ou japonês, ou coreano, ou vietnamita) da esquina, o Brian.

Combinamos de no outro dia jantar por lá a famosa isca de “flango” com “flitas” que Brian serve ali e que é uma delícia.

Com refrigerante ou cerveja?, perguntamos ao mesmo tempo.

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PROPRIETÁRIO DE FATO

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Eu olhava a toda hora para o maldito painel eletrônico. Minha senha demoraria a ser chamada. A multidão de prioridades se avolumava cada vez mais. O país envelhecera. Idosos ajeitavam seus óculos sobre a face desolada, outros acessavam a internet; outros reclamavam do país. Os funcionários muito bem vestidos em seus figurinos de bem sucedidos, ostentavam ares de fastio. Era a perfeita normalidade, tudo estava sob controle. Nada poderia ser feito para mudar. Cada minuto que passava atirava o tempo sobre o sonho da aposentaria e que tudo fosse à puta que os pariu. De repente veio o susto: um velhinho começou a bater com a bengala sobre uma mesa com um grampeador e uma caneta amarrada a uma corrente.

Quem manda aqui sou eu!, berrou o velhinho. Eu sou o dono dessa porra!

Uma funcionária apenas olhou sobre a armação dos óculos e voltou a correr a vista sobre a tela do computador. O cliente que ela atendia olhou para trás. Todos nós olhamos.

Eu mando nesse banco, ele é meu, me pertence! Eu serei atendido já, o meus clientes que esperem!, tornou a gritar o velho dessa vez desabotoando a camisa e mostrando o peito magrelo com pelos brancos. Antes que ele tirasse as calças, uma segurança negra com cabelos presos em coque surgiu para contê-lo. Ela o segurou por trás e o imobilizou. Um homem muito branco ergueu-se e ao perceber que o velho espumava, disse que era médico e correu para examinar o pobre homem caído ao chão, imobilizado, tentando em vão livrar-se das mãos da musculosa segurança.

Ele está com a síndrome da propriedade de fato, disse o médico após examinar o idoso.

Todos nós ficamos espantados. Lembrei de como era pobre o Brasil: o único país acometido de monstruosa síndrome. A propriedade de fato. O velhinho, por ter frequentado a agência bancária havia dois meses se considerava proprietário de fato da mesma. Exigia ser atendido imediatamente, como convém a um dono de banco.

O fato ocorrera diante de meus olhos, leitoras e leitores. O idoso sofria ataques da síndrome da propriedade de fato! Juro pelo cometa de Halley que isso aconteceu! Logo dentro de um banco, o sacrossanto templo do capitalismo! Saí de lá aterrorizado. Me bati com uma mulher agredindo um taxista, gritando que o automóvel era seu, porque fizera quarenta corridas com ele e portanto o carro era seu. Ela dava chutes na canela do pobre motorista que tentava a todo custo fugir dos golpes e não agredi-la. Um seu colega dizia para não tocar na mulher, pois ele poderia ser preso. Mas como eu vou me defender e defender meu ganha pão?, perguntava ele. Use a cabeça, dizia o seu colega.

Na esquina uma multidão gritava arrancando os cabelos. Um grupo disputava a propriedade da padaria. Todos compravam pão e manteiga havia anos e se achavam donos do negócio dos outros. O proprietário berrava que ele era o dono real do imóvel, e mostrava cópia d escritura.

Salvador estava tomada pela horda de insanos. Tentei me abrigar sob uma marquise. Pensei em correr para o teatro Castro Alves ou o Teatro Vila Velha. Talvez ali, no reino da fantasia e da mentira quase perfeita, a realidade fosse menos cruel. Mas foi em vão. Homens armados e babando tentavam quebrar as grades do complexo cultural dizendo que eram proprietários de fato daquele palco. Que viram ali um show da Elis Regina nos anos 80 e de lá pra cá não deixaram de frequentar o lugar e portanto eram proprietários de fato.

A síndrome não poupava ninguém. Tive medo de também ser acometido por ela. Um ônibus que ia para o Barbalho parou no meio da rua. O cobrador tentava arrancar a caixa de dinheiro e levar para casa. O motorista espumava diante do volante, os olhos vidrados.

A síndrome pegou primeiro um juiz, disse uma moça me tomando pelos braços. Corremos até banheiro público e ficamos ali. Pelo buraco da fechadura eu olha a correria do lado de fora. Um juiz foi a primeira vítima da síndrome. Ele disse em sentença um réu era proprietário de fato de um imóvel, porque estivera nele duas vezes, disse a moça se abanando com uma revista das Testemunhas de Jeová.

Mas que loucura é essa? Eu não estou acreditando, pensei que essa coisa fosse invenção.

Era uma invenção, uma fantasia de péssimo gosto, mas virou realidade. Vi na TV que o país inteiro está assim.

Por conveniência?

Era. mas agora por epidemia e cinismo mesmo, disse ela. Tome, faça uma boa leitura, concluiu me dando uma das suas revistas que mostravam na capa um lugar ajardinado com pessoas sorrindo e comendo frutas. Agradeci e comecei a me abanar. Foi quando o banheiro químico tombou. Começamos a gritar. A moça por Jeová; eu pela polícia.

Um homem muito forte carregara o nosso esconderijo dizendo que era dele, ele havia defecado ali seis vezes e portanto era proprietário de fato do negócio. Consegui abrir a porta. A moça pulou e saiu correndo em direção ao Viaduto de São Raimundo. Corri para a ladeira de São Bento. Olhei para o mosteiro na tentativa de me abrir ali, mas uma baiana de acarajé segurava o tacho de azeite fervente e ameaçava jogar em quem tentasse entrar ali, pois ela era a dona no prédio inteiro, com seus mortos enterrados aos pés da nave da igreja e suas relíquias escondidas do público. O ojá dela se desprendera e estava sobre seus ombros; parecia uma estola. Um homem tatuado corria com uma orelha nas mãos e atrás dele um outro todo ensanguentado. O da frente dizia que a orelha era dele, que ele colocara dois piercings nela, e portanto ela era dele.

Eu me sentia em uma pintura de Hieronymus Bochs.

Comecei a chorar desesperado. Na entrada do elevador Lacerda um grupo de capoeiristas reivindicavam o equipamento público. A síndrome da propriedade de fato tomava proporções alarmantes. Até o prefeito se achava dono do prédio da prefeitura e da cidade inteira. Seus assessores tentavam a todo custo passar para a imprensa a imagem de que estava tudo sob controle; que o prefeito estava sereno e aquilo não passava de intriga da oposição. De repente o cinegrafista virou a câmera para mim.

Ela é minha!, gritou com os olhos esbugalhados. Por um momento achei que ele vestia uma toga. Ao ver a câmera apontada para mim e a opinião pública (se é que o público tem alguma opinião formada!) inteira olhando para minha cara apavorada através de suas televisões, eu acordei.

Graças à deusa aquilo foi um pesadelo. Tudo voltaria ao normal. Olhei pela janela: a cidade seguia seu ritmo tranquilamente. O Brasil também. As instituições funcionavam em plena normalidade e paz. A TV da vizinha estava ligada.

Uma apresentadora ensinava a fazer coq au vin.

O Mercado não estava nervoso.

A bolsa estava calminha.

O país era real: familiar, cristão, palco de uma grande democracia, igualitário, repleto de avanços sociais, altos índices de recuperação econômica.

A síndrome da propriedade de fato era um pesadelo.

Sentei-me novamente na cama. Pensei: moro em uma casa que não é minha.

Serei proprietário de fato?

Arregalei os olhos.

 

 

 

 

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AOS AMIGOS BÊBADOS

Amo meus amigos. Quando eles estão bêbados um tanto mais. A verdade frui como uma torrente, uma água brusca e tão forte que me encanta. Tão amáveis e deleitáveis, tão doces, ternos, de corações puros e língua ferina. Dados, despojados dos pudores e das máscaras do teatro trágico e cotidiano. A rudeza desses dias os deixa com aquele silêncio mortal, as palavras calculadas, o frio cinismo que queima os ossos, a perfídia transparece. O contrário não: as mãos são tão leves que o simples tocar de dedos une as almas e aquece a noite. Pode um coração parecer tão simples, tão transparente?

Ainda ontem me vi cercado de gentes as mais diversas. Era um coquetel para promover a candidatura de um político. Não senti nojo, estava alegre demais para ser mentira. Encostei levemente na parede de vidro fumê quando ela apareceu e me ofereceu algo para beber. Eu queria sair dali imediatamente, conhecia poucas pessoas e todas eram detestáveis. Inclusive eu. Um organizador de eventos que se autoproclamava promoter ostentava uma barriga tão grande quanto seu ego e as vantagens que contava. Em uma conversa não havia interlocutores, transcorria apenas um monólogo irritante sobre as viagens que fizera, as mulheres que levara para a cama, as celebridades que conhecera.

Uma dona fizera uma viagem à Índia e de lá voltou convertida a uma religião hindu, com aquela mancha vermelha na testa, usando lenços coloridos de seda, os olhos fortemente pintados e só. O apelo estético. Dizia ter encontrado a iluminação profunda, só não sabia nos explicar o que mudara em sua vida e como. Um colega ganhou o prêmio de melhor ator por uma peça infantil. Era sobre um menino sonhador que tentava alcançar as estrelas. Todos diziam que era impossível, até que alguém disse que ele precisava de fé e força de vontade, então ele conseguiu alcançar as tais estrelas. Com força de vontade e fé, claro. O colega ganhou o prêmio havia quatro anos, mas não parava de se gabar disso. Em todas as conversas lá vinha dizer “quando ganhei aquele prêmio…” ou “Nem eu, que já ganhei um prêmio tal faria uma peça daquelas”! ’.

“Aceita?”, ela perguntou com aquele ar de quem acabara de fumar um baseado.

“Obrigado”, falei segurando a taça de champanhe. Nunca fui muito fã de champanhe, ainda mais daqueles servidos em festas e bufês. Nunca pensei que ela fosse se interessar por mim. Uma atriz realmente instigante. Atriz e dançarina. Premiada, claro, premiadíssima, mas não tocou sequer no assunto, a sua latência egóica não era maior que sua humildade. E olha que odeio falsos humildes, mas ela tinha brilho próprio, não precisa de ostentações de currículo.

“Não se importa em conversar com uma mulher mais velha?”.

“Não. Até prefiro.”, falei com meu sorriso cínico.

Ela disse que estava preparando um novo espetáculo de teatro-dança, inspirado nas canções de Brahms.

“Dança-teatro então”, falei me referindo à música como ponto de partida.

Ela começou a rir e eu me excitei de verdade. Poderia ter sido a champanhe vagabunda, sabe lá Deus! Ela tocou no assunto dos patrocínios, que poderia surgir mais mecenas etc. No que concordei, afinal de contas eu mesmo adoraria ser mantido por alguém para trabalhar, produzir minha arte a vontade e com tranquilidade, sem o inferno corriqueiro das oscilações financeiras. Ano passado sofri maus bocados com a falta de dinheiro, tive de me rebaixar a fazer campanhas publicitárias para políticos na TV. Foi a primeira – e espero que a última – vez que trabalhei numa produção daquelas. O diretor chegou atrasado, teve um ataque de nervos e de pseudo estrelismo. Depois me perguntou onde eu achava que devia colocar a câmera. Ele queria colocar no alto, na tentativa, segundo ele, de enquadrar o povo de baixo para cima. Um assistente disse que ninguém veria o slogan do candidato impresso na camisa. Que pegaria mal. Ele bufou, mas acabou aceitando. Eu fiquei calado o tempo inteiro, esperando passar o tempo. Em um momento o cara falou que era formado na faculdade tal, que conhecia muito bem o riscado. Continuei calado. Fiz meu trabalho, recebi o dinheiro e sai cumprimentando apenas o assistente.

Ela estava cheia de planos, tinha contatos em outros países como Argentina, Espanha, Canadá e Alemanha. Tinha estado naqueles lugares em teatros os mais diversos. Conhecia artistas de lá, gente de dança, teatro e cinema, além de artistas plásticos e escritores. Um conhecido acenou de longe, era um cenógrafo recém formado. Dormimos juntos uma vez e desde então ele não parava de me cantar. Ela me convidou para participar do projeto, disse que havia um papel para mim. Trocamos cartões, disse que ela poderia copiar meu currículo que estava online em meu blog. Ela disse que já havia copiado. Só precisava de meu aval e de minha assinatura no projeto. Fomos para o apartamento dela para eu assinar firmando a minha participação. Não tínhamos a intenção de transar. Na saída, César, um colega mais velho e totalmente desiludido com a profissão, despencou sobre nós seu vocabulário intelectual perfeito, sua retórica e sua mágoa com a carreira. Com direito a perdigotos, apertos de mão e choro em meu ombro.

E elogios.

E revelações que não me assombraram. Tive vontade de chorar, pois sabia que o amigo falava aquilo tudo de coração. Do coração, que só berrava pelo efeito etílico. Naquelas lágrimas de bêbado pude sentir o gosto do ódio, da decepção e do brilho um pouco esmaecido, mas ainda assim brilho, de seu talento. Havia algo – como sempre – de intenso e trágico naquilo tudo, além de patético, evidentemente. Um bêbado chorando é sempre patético, mas em segundos os arroubos eram trágicos e verdades ligadas às palavras saltavam a olhos vistos. Berros do coração, gemidos de uma alma. Coloquei-o dentro de um táxi e fomos para o apartamento dela. Assinei o projeto. Abrimos uma garrafa de um bom cabernet. Conversamos amenidades. Dormi no sofá, ela na cama. Era por volta de onze e meia quando ela me acordou. Estava nua. Deitou-se sobre mim e transamos. Eu atônito, ainda sonolento, fedendo a álcool e cigarro. Ela com um cheiro incrível. Disse que gostava de foder sóbria. Terminamos no chão. Na hora eu tirei e gozei no tapete. Depois botei de novo. É uma paranoia que tenho agora, medo de engravidar. Depois ela me disse que não engravida mais. Que nunca engravidou, sempre fora estéril. Ficamos deitados um tempo. Olhando para o teto. Me perdi afagando meus testículos, e a vagina dela, sempre faço isso depois do sexo. Uma mão em cada coisa. Lembrei do César bêbado falando impropérios e verdades.

Dos berros de seu coração.

Em chamas.

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A INFÂNCIA NUA

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Era o ano de 1987, Rosana estava no auge com O amor e o poder (“como uma deusa…”).

Namorávamos o que chamávamos de “as nossas paixões da vida toda”, aquele frisson. Todos tínhamos 10 anos, quase onze.

O cometa de Halley ficou de passar no ano anterior mas deu bolo, passou raspando. Quase ninguém viu, foi uma decepção astronômica! Numa festinha de aniversário, onde apagávamos as luzes e dançávamos ao som de Rosana e alguma lambada, meu relógio digital com a estampa do famoso cometa tinha pifado – alguém derramara refrigerante nele. Eu e minha namorada estávamos agarradinhos, eu de pinto duro, ela muito excitada, dando inúmeras “coladas” – como chamávamos os beijos de língua imitando os casais das telenovelas. Até que chegou alguém e quebrou o clima dizendo que “dançar agarrados só de luz acesa!”

Éramos felizes.

Éramos inocentes e felizes. nossa malícia não passava daquele estado de torpor ao ver uma foto da revista Playboy, ou saber que fulano era “viado” ou que fulana “não era mais virgem”, tinha dado pra tantos e quantos homens do bairro, em sua maioria casados e “direitos”. Bom da vida era a praia, os filmes que passavam na TV, os refrigerantes, geladinhos, cocadas, brincadeiras nas ruas do bairro, os trabalhos escolares feitos em cartolina.

Porque não tínhamos ainda a claríssima certeza que teimamos em não querer ter, das agruras da vida real e adulta, que causam tristeza, desespero, desilusão, medo e que portanto nos aproximam daquilo que chamamos de morte.

 

 

 

*Foto da internet.

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ANO NOVO OU DIAS A MAIS EM FEVEREIRO

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Não se preocupe que tudo dará errado novamente.

Eu precisava finalizar o ano com uma crônica versando sobre as superstições, a fé genuína e a crença exacerbada e vã de muita gente que pensa que fé é o compartilhamento dela em redes sociais através de correntes e frases de efeito. A fé não abrange nada e tudo abarca. Espera sem ver; seu objetivo é coisa certa que chegará de supetão. Não adianta um desejo vazio, oco, sem ecos de credulidade.  Que ano, meu Deus, que ano! Que governo somos obrigados a engolir, que julgo somos obrigados e sofrer por causa de nossa ignorância e passividade!

Sem muita expectativa, fui trocar os óculos escuros. Um dos aros simplesmente rachou. Estava na garantia. Ganharei outro novinho em folha, pensei. Depois da troca irei à praia. Antes, vou tentar um empréstimo no banco. Mostrei os óculos, a moça olhou o certificado da garantia, sacou um bloco de papel de dentro de uma gaveta, preencheu e disse que eu ligasse após 15 dias.

Quinze dias?, perguntei espantado. Mas eu preciso de óculos escuros agora, porque estou indo à praia e a claridade acaba comigo.

Mas esse é o padrão da empresa, senhor Uálan.

Uarlen, consertei.

Desculpe. Uarlen.

Olha, deixa pra lá, vou usar quebrado assim mesmo, paciência, depois venho trocar.

Ela nem me deu um “tchau” ou “como preferir”.

Fui ao banco, a esperança é a última que morre. Os caixas estavam vazios, que milagre, resmunguei. Devia ter agradecido. Não rolou o empréstimo. Só daqui um mês. Que tolo fui eu pensando que sairia do banco com um dinheirinho extra para o final do ano…

Paguei uma conta na casa lotérica através do meu CPF. No balcão do atendente tinha um livro. Estiquei o pescoço para ver o título. Pensei que fosse O alienista, do Machado de Assim, mas era Viva uma vida com esperança, de não sei quem.

Fui para a praia. Estava um pouco vazia. Agradeci. Água fria e sol quente. Tomei duas cervejas bem geladas, dessas com menos malte e muito, muito mais milho transgênico. Arrotei. Como é bom ainda poder arrotar, pensei observando aquela luz fria e dura do sol se tornar aos poucos cálida, amarela, âmbar e deixar nossa pele macia, aveludada e tudo ao redor se assemelhar a um filme de Fellini ou qualquer outra atmosfera onírica a nos salvar das agruras do cotidiano injusto. Uma menina de laçarote vermelho pediu que eu a ajudasse comprando um pouco de amendoim.

Comprei.

Amo comer amendoim torrado.

Olhei mais atentamente: aqueles olhos de piedade da vendedora ambulante. Seria uma Cabíria negra numa praia de Salvador?

A lente, cujo aro estava rachado, caiu na areia. Por um segundo achei que a menina fosse rir, diante da cena atabalhoada e patética. Mas não, ela pegou a lente, me entregou e foi embora. Sumiu no pequeno nevoeiro de água e sal.

Lá se foi o sol.

Ninguém aplaudiu.

Graças à Deusa.

Lembrei: a moça que me atendeu na loja de óculos escuros me disse que eu poderia retornar lá até 30 de fevereiro, quando expira a garantia. Tive ímpetos de dizer que 30 de fevereiro só na cabecinha doidinha dela. Mas me calei.

Pois que seja assim o ano novo. Com as decepções que vierem, com os empréstimos que não devem ser feitos, com os óculos que nos servem, mesmo rachados, com olhares lindos de quem vende amendoim, com as dívidas bem pagas, e com o eterno por do sol de luz mágica. Esse sim haverá. E quem sabe dias a mais em fevereiro para nos trazer fé, esperança, realidade e alegria.

 

 

 

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ZAP

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Olhei para a esquerda e vi o anúncio de uma cuidadora de idosos procurando serviço. O contato era um número de telefone residencial e um número de telefone móvel escrito entre parêntesis (zap). Por onde se olha tem zap, contração ou cacofonia (a bem dizer da verdade, uma recriação) de whatsApp, que seria aplicativo do olá, do diga aí, do oi, da comunicação rápida. Como é que nós, brasileiros, não roçaríamos a expressão em nosso idioma belíssimo criando uma rica expressão?

É a antropofagia cultural completa e absoluta, nosso destino é deglutir o que é nosso e o que é dos outros e transformar em outra coisa, em coisa genuinamente brasileira: uót sáp (pronúncia de meu inglês mais que tosco); pegamos o som entre uma palavra e outra e criamos uma palavra tão nossa que falar “me passe seu zap” ou “me chame no zap zap” se tornou tão comum e autêntico como pular carnaval, comer feijoada ou ser mestiço.

Eu dizia isso para uma professora universitária que achou um absurdo, que deveríamos usar cotidianamente o léxico correto, forçando a população a se educar.

Mas o idioma é dinâmico, a língua falada nas ruas evolui, se não fosse assim estaríamos falando como nos século XVI! eu argumentei.

Não interessa, o certo é o certo. Eu duvido que a coisa evolua para trás! ela disse limpando os óculos.

Meu uber chegou, falei.

Boa viagem, vamos falar mais desse assunto depois.

Vamos sim, inclusive muita gente fala úbi, porque dizer úberrrr é muito complicado. Úbi é mais suave, escorre como manteiga amulecida, eu disse provocando.

Me passe seu contato, ela disse torcendo a boca.

O fixo ou o zap?, perguntei.

 

 

 

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RELATO DA CASA GRANDE

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Era uma casa bem grande,

Uma casa bem grande e rica,

Muito bem adornada, com capricho

E rigor.

Suas paredes e chão e teto eram deslumbrantes,

Não havia gente que chegasse e não se

Assombrasse com tamanha beleza.

Sua água era pura e as plantas que a adornavam

Tinham um quê de divino.

Os seus bichos domésticos eram

Esplêndidos e diversos.

Ali reinava a diversidade por todos os cantos

E todos os cômodos.

Em cada cômodo parece que habitava

Uma casa nova, cada recanto

Tinha o tamanho da imensidão

E cada imensidão tinha o cheiro

De sua própria gente

E seus próprios sabores.

 

Mas seu dono gostava de dormir

Contando as estrelas.

Deixara um gato de sobreaviso:

– Olha, vigia diuturnamente, vigia pela manhã

Tarde e noite contra os ratos

Que vem de fora e contra os ratos de dentro,

Para que não roubem a dispensa

E destampem as panelas do fogão

Em busca de comida.

 

E foi dormir.

Estava crente que o gato iria cumprir

Seu papel de felino

E comeria os ratos que ali entrassem.

Estava enganado.

O gato fazia vista grossa e os ratos faziam a festa:

Comiam da comida, furavam as caixas,

Bebiam do leite,

Comiam a farofa e a pizza,

Se banqueteavam no pirão

E na feijoada completa,

Experimentavam os vinhos e se deliciavam

Na cachaça.

Saíam gordos para as suas casas e o dono da casa,

O dono da casa deitado,

Sonhando em berço esplêndido.

Apenas reclamava que alguém deveria fazer algo,

Quando alguma coisa não parecia certa.

Então acordou e viu a baderna dos ratos

E gritou com o gato incompetente:

Que aquilo estava errado.

Que não poderia mais acontecer.

Conseguiu outro gato e deu-lhe a mesma ordem:

Que vigiasse e devorasse os ratos que ali

Entrassem para comer de sua comida.

E voltou a dormir.

O novo gato viu atento quando os ratos entraram

Pela janela, pela fresta da porta e por um buraco

No assoalho.

Novamente beberam da cachaça, provaram do vinho, comeram

O queijo coalho, o feijão tropeiro

E o arroz escorrido, além da salada de azeitonas e bacalhau.

Na saída o gato devorou um e dois ratos, lambendo em seguida os lábios delicados.

Quando o dono acordou, o parabenizou ao ver apenas as cabeças

Dos intrusos no tapete da sala.

(É que o novo gato não gosta da cabeça dos ratos)

A casa estava em harmonia, tudo funcionava perfeitamente

sob a gerência

Do novo gato empossado pelo dono da casa.

Mas um dia os ratos apareceram em bando, protestando.

Que o gato não agia em conformidade com as leis da natureza,

Que havia algo de podre naquela gestão.

Comeram de um tudo e beberam do vinho, do uísque e do licor.

O dono estava feliz porque sua casa estava protegida, suas riquezas salvas

E suas belezas naturais em boas mãos.

Dormia tranquilo sem perceber que ainda era lesado.

Acontece que os ratos fizeram pacto com o novo gato:

(Em uma sala secreta, é claro, durante os protestos)

De tudo lhes dariam um percentual se engodasse o dono a acreditar

Que todos observavam a lei e que estava tudo sob controle.

Assim fizeram aliança: os ratos e suas ratarias duvidosas e o novo gato

Levando vantagem para parecer um felino voraz.

Qualquer voz dissonante era imediatamente

Execrada pelos meios mais eficazes que atingiam

Sem pudor as massas da fauna.

Apertaram as mãos e posaram para os fotógrafos.

Estava tudo sob controle.

A honestidade e o perfeito funcionamento

Das engrenagens era o imperativo daqueles dias.

Posaram com um V de vitória com um bebê rato e um bebê gato no colo.

Falaram até em futebol, para agradar às massas aturdidas!

E sem perceber, na mesma noite, pensando que nada daquilo lhe convinha,

Na mesma noite o dono da casa, que tinha a cara dos negros açoitados e calados ferro e fogo, que tinha a cara das donas de casa cagadas pelas telenovelas,

Que tinha a cara dos jovens que nem sabem que existem,

Que tinha a cara do indígena dizimado pelos tiros dos grileiros

E decretos dois governos,

Que tinha a cara da mulher espancada, calada e morta,

Que tinha a cara dos que se calam diante do sofrimento do injustiçado,

Que tinha a cara do prisioneiro que dorme no chão entre as baratas

E a cara do cristão que nunca leu as palavras de Cristo,

A cara da família que come ratos e bebe o caldo de seu suor vão,

Além da cara da criança que estuda faminta

E do roceiro que é feliz porque tem uma televisão,

Que tinha a cara da dondoca que esquece que a morte baterá

À sua porta,

Sem perceber que nada daquilo lhe convinha, o dono começou a ser devorado.

Destaque

FEZINHA

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Entramos no táxi.

Como sempre eu já estava atrasado.

A consulta estava marcada para exatamente aquele horário.

O motorista estava radiante, cheio de gentilezas. O trânsito parecia lento, um calor sufocante. Ele ligou o ar condicionado e eu o afastei de mim. Ele me perguntou se eu tinha alguma rota preferencial e eu disse que não, que apenas seguisse pelo caminho mais curto pois estava muito atrasado.

Falamos mal do governo, do golpe parlamentar que estamos vivendo, “com ajuda do Supremo, com tudo“, da falta de investimento público, dos altíssimos salários de políticos e juízes, da relação entre direito e privilégio que é uma coisa de contrastes abissais em nosso país.

Por isso que jogo no bicho; sempre ganho. Isso me ajuda com as despesas, ele disse todo sorridente.

Bom saber. Eu joguei poucas vezes. Foi mais pela curiosidade em saber como se joga…

Eu sempre aposto os mesmos números.

Minha companheira começou a rir:

O senhor é que nem um tio meu, sempre joga e ganha. Esse tio quando esteve aqui em Salvador, ele é de São Paulo, jogou quatro números que eu havia sonhado e não é que ganhou?

Ah, é verdade, eu disse deliciado com a lembrança.

Sortudo ele!, completou o motorista

Ganhou um bom dinheiro, deu pra pagar as despesas da viagem e ainda sobrou! Imagine aí!

Quais os números?

Olhei para minha companheira. Ela lembraria?

Foram… 1888!

O ano da abolição da escravidão! eu disse fazendo uma relação fora de hora como é de meu feitio.

E agora o resultado é online!

É mesmo? indaguei olhando pra ele, que estava todo empolgado.

Sim. Você confere tudo pela internet. É contravenção online!

Balancei a cabeça, surpreso. Lembrei da antiga Agência Galo e de uma tia que fazia a fezinha dela três vezes ao dia, era viciada. Pedia que eu e meus primos anotássemos os resultados, que eram caprichosamente colocados num pequeno quadro negro na porta da agência. E aqueles montes de caderninhos e papéis com apostas e resultados, tudo escrito à mão com letras belíssimas! Vez ou outra ela ganhava. Chegamos e eu fui logo descendo. Paguei a corrida deixando o troco para o motorista.

Qual foi o número que sei tio jogou?

Foi 1880!

Na porta do edifício onde eu faria a consulta tinha uma banca com um funcionário da agência de jogo do bicho. Memorizei a placa do táxi.

Moça, bom dia, bota esse dinheiro nesse número aqui, eu disse olhando para o relógio e prevendo reclamação da médica.

Centena, dezena ou milhar? ela perguntou.

Centena.

Ela pegou a máquina.

Não, não, bota tudo no milhar!

 

 

Destaque

SUPERÉTERO

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Não precisa de noite escura e calada. É nas horas de sol a pino que ele atua. Seu uniforme desenha os músculos e o contorno do saco. Ali reside a fonte de seu poder. Luta incansavelmente contra os “males” da sociedade: as feministas, os gays, a dominação progressista e o comportamento refinado.  Foi na hora do almoço que esbofeteou a esposa: que mulher minha me deve obediência, porque o marido é o cabeça da mulher disse batendo com o dedo indicador sobre a mesa. A mulher disse que sim com a cabeça. Logo mais à noite passou-lhe a mão esquerda na perna: era sinal de que queria transar. Gozou bruscamente gemendo baixo e ai dela se lhe acariciasse a bunda! Virou-se e foi dormir.

Seu senso de herói vinha desde a adolescência, quando dormia de valete com os primos ou algum colega que fosse acampar com ele. Banho apenas sozinho; não que houvesse alguma insegurança com a própria sexualidade, jamais, mas é que não poderia ser visto tomando banho com outro macho.

O auge do heroísmo fora na idade adulta, por volta dos vinte e cinco anos, quando decidiu empunhar sua espada em forma de pênis duro na cara de quem o desafiasse. Decidiu fazer uma capa e sair por aí berrando macheza.

Vez ou outra admitia um viado “plantado”, que fosse viado mas que fosse homem. E que praticasse suas viadagens longe das vistas das famílias decentes, que aquilo não era coisa pra ser mostrada à luz do dia. E cuspia no corredor do metrô como se ali estivesse sozinho. Não admitia mulher trabalhando fora, criticava os poucos amigos que restaram, pouquíssimos diga-se de passagem. Mulher minha trabalha em casa e me espera chegar do trabalho. A mulher já lutava por um internamento, que aquilo não era normal e tinha passado dos limites. A vizinhança não se metia. Todos assustados com aquela espada em formato de rola dura que ele empunhava e brandia na cara dos mais desavisados. Um dia vira dois homens se beijando na calçada, um beijo rápido de despedida. Pronto, foi praticamente o Armagedom. Sacou a espada e gritou pelos poderes da pica! Eu sou o Superétero! O casal parou assustadíssimo, pois não tinha visto a patética figura. E brandiu a peniana espada na cara dos dois; a espada jorrou esperma (não perguntem como) que atingiu os olhos das duas criaturas, que caíram no chão sem conseguir enxergar. Foram atingidos por socos e pontapés, com o Superétero gritando palavras de ordem e de virilidade  e que ali não era lugar para pederastia.

Só tivera uma filha, que beirava os sete anos e seguia violentamente a cartilha do pai superétero. Casaria virgem, pois filha minha não seria papada por marmanjo nenhum antes do tempo, pra ser comida é a filha dos outros, comida por ele e pelos amigos, e depois ser chamada de puta vagabunda, que mulher que preste não se presta a dar para pessoas do bairro. A filha faria exames mensais com um ginecologista escolhido a dedo (!) por ele, para que se verificasse o hímen da pobre, se estava intacto. A mãe, assombrada, assistia a tudo passiva. Passivo é um nome que não poderia entrar no ambiente familiar, aliás diversas palavras e terminologias estavam proibidas. Um dia chegou em casa e Ney Matogrosso rebolava numa aparição em um programa de TV dominical. Pronto, canais bloqueados em nome da moral e dos costumes antigos e bons. Nada de debates sobre aborto ou casamento entre pessoas do mesmo sexo, a não ser duas mulheres, porque ele se excitava vendo duas fêmeas se beijando.

Chegava o final de semana, era hora de agir: pegava a espada pela base das bolas e saía pelas ruas e avenidas à caça de qualquer traço de pederastia abominável ou abominável pederastia, feminismos absurdos, comportamentos vis ou algo que atentasse contra a masculinidade. Seu sonho era ser militar, mas não conseguiu ingressar porque tinha o peso abaixo do normal. Seus olhos se enchiam de lágrimas quando chegava o dia em que supostamente a república brasileira fora proclamada e ele via o desfile dos carros militares, a bandeira sendo hasteada, o presidente em seu traje cafona acenando com sua esposa recatada e o hino sendo cantado à risca por militares fardados. Afinal de contas a república conseguiu tirar o país do atoleiro da monarquia.

Queria também matar com requintes de crueldade os médicos que incentivavam a vasectomia. Afirmava que causava impotência. Mesmo sem ter visto algum pau mole por causa da pequena intervenção cirúrgica. Mas causava sim impotência ao membro viril afirmava categoricamente. O saco para ele era algo sagrado, imexível!

Torcia para seu time preferido: um internacional cujo nome não sei escrever e nem quero. Não durou muito tempo: sumiu pelas ruas e becos da cidade grande. Virou lenda o Superétero com seu pequeno falo contornado pela roupa apertada, as pernas finas, os olhos acesos feito duas brasas e a espada-pica que jorrava sêmen na cara dos criminosos desavisados.

Afirmava categoricamente: morreria de câncer porque em seu cu ninguém meteria o dedo!

E brandia a espada-rola-dura-ejaculante.

 

 

Destaque

O REINO ENCANTADO

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A cortina se abre e o público vê uma imagem projetada de uma princesa medieval da Disney, loira, olhos azuis, sendo tomada por um príncipe de cabelos pretos, lisos, vestindo uma roupa que se parece com um uniforme daqueles carregadores de bagagens dos hotéis antigos de filmes antigos. Só não tem o chapeuzinho.

Os pais e as mães começam a gritar; flashes espoucam.

A cortina se fecha novamente. Uma mulher fala bem alto ao microfone.

Sejam todos bem vindos. Hoje vamos nos encantar com o maravilhoso universo dos contos de fadas.

E a cortina se abre novamente com a mesma imagem anterior projetada no telão. As crianças entram acompanhadas de uma professora. A música começa: uma versão dos anos 40/50 naquele estilo bolerão pré bossa nova.  Fala de um amor etéreo, irreal, infindo. Os meninos vestidos de camisa de manga comprida, espada de plástico e capa. As meninas de vestido rodado, babados, luvas e tiara presa em seus cabelos crespos. Estão assombradas. os pais estão encantados. A coreografia é sofrível e desengonçada, claro, crianças em um palco imenso, dezenas de refletores apontados para elas, a escuridão ameaçadora da plateia à sua frente e uma professora a seu lado tentando emplacar ali, ao vivo, o que fora arduamente ensaiado em sala de aula. A música termina.

A cortina se fecha.

A narradora grita novamente ao microfone, pede mais aplausos, diz que está emocionada. Alguns pais aplaudem, outros riem. Outros dormem já no início do espetáculo.

Todas as cenas se sucedem dessa maneira. Uma imagem de príncipes e princesas medievais, castelos, sedas, tiaras, coroas, bela e fera, encantamentos, feitiços, duendes e reinos encantados. o curioso é que ali pareciam ser todos protestantes, evangélicos. O que os fazia não perceber que em várias cenas existia a menção a feitiços, poções mágicas, maldições, enteais, trapaças, vinganças e tudo o mais que eles tanto odeiam e criticam no cotidiano real? Eu assistia embasbacado aquele duplo espetáculo: no palco e na platéia.

No palco,  as crianças mestiças e negras com professoras pretas e belíssimas representando as histórias europeias de princesas brancas. Na platéia, os pais que pagaram para produzir aquilo tudo e pagaram também a entrada no teatro, fotografavam e filmavam tudo com uma afã que só Deus pra entender. Ah, no começo pediram que todos se levantassem porque entoariam o hino nacional. Quatro professoras entraram no palco segurando a bandeira… Da escola Não a nacional! Eu realmente não entendi. Primeiros acordes do hino: tudo normal. Tudo normal não fosse pelo fato de que era uma versão em samba reggae, com a letra cantada como se estivessem em cima de um trio elétrico. Houve uma inversão: aquela música estilosa, aquela marcha orquestrada converteu-se numa música negra vibrante. os pais cantavam e dançavam; alguns faziam coreografias de carnaval! No palco as quatro professoram segurando a bandeira da escola tinha a mão direita sobre o peito.

Ao cabo de uma hora de cenas diáfanas, encantadoras e surreais, me dei conta de uma coisa: a escola brasileira está ainda nos anos 40 do século XX.

Ou não, porque até mesmo lá o Brasil padecia de racismo, pobreza, desigualdade social, opressão, exploração do trabalho infantil, trabalho análogo à escravidão, machismo, patriarcalismo, homofobia, violência doméstica… Talvez não desse ao luxo de ter um projeto monstruoso que tenta impor uma mordaça àquelas professorinhas, de modo que elas não possam expressar quaisquer opinião sobre algum tema diverso do currículo, correndo risco de serem demitidas e presas. não, no mundo encantado delas isso não é um problema. Nem o salário mísero. Tudo é encanto.

Saí desencantado.

Destaque

BEIRU E BEIRA

FîRUNS POR QUE DAN‚A?

Beirou a beira da estrada

Pelejou no estreito do abismo

Calejado, aleijado,

Vige, minha nossa senhora!

Senhora é dos engenhos!

Engenhosa que só para viver

Na correria de dia

E de noite um suspiro quente de prazer.

Que tempo doido que sempre foi doido,

O ódio escondido embaixo do tapete

Da sala da madame

E do pobre analfabetizado politicamente

Na sua própria novela.

Leva, leva, leve que vale a pena

Sentir de novo, na pele negra,

Na mestiça tez, no couro do cabrito que berra.

Ah, o que Temer, se já temia desde sempre?

É um medo medroso de se espantar,

É um reboco de pouca leitura,

É o fruto inocente do meu e de teu estupro,

É o corpo que já não te pertence,

É a cara velha, de pau, de sempre, cínica,

Cínico, cínicos, de cinismos bailantes sobre o acarajé

E o suor de dendê na cara enraizada no espanto.

Já não caminha pela calçada.

Marcha sem medo pelo meio da rua.

No meio.

Na beira.

Beiru.

Destaque

O OLHO DE DEUS

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Então ao final do bate papo sobre meu livro de contos e sobre questões relacionadas ao candomblé e o que herdamos do continente africano; e após uma matéria jornalística louvando o mês da consciência negra; e após tudo ter sido tão corrido como a passagem de um cometa, a apresentadora muito branca e muito sorridente pediu que eu fizesse algumas considerações finais olhando para a câmera.

Senti, sem me dar conta de que sentia, do quanto é fascinante o nosso cérebro.

Pois em frações de frações de frações de segundo eu senti ou pensei, ou senti que pensei, ou pensei que senti da vontade de dizer que gostaria que tudo fosse diferente. Que realmente amássemos uns aos outros que de fato nos importássemos com isso; que fôssemos amáveis e não fôssemos discretos nessa forma de amar e amar. Que cada pessoa pudesse ter ao menos três refeições completas por dia e que para consegui-las não fosse preciso ser escrava de ninguém.

Que toda criança brincasse e estudasse e decidisse de fato ser quem ela pudesse e quisesse ser sem entraves, barreiras ou ditames sociais.

Que as mulheres pudessem ser como os homens; e os animais como homens e mulheres; e todos os seres da mesma forma, iguais.

Que a arte, a filosofia, a política e o bom pensamento questionador fosse a ordem do dia e o sexo não passasse de mera banalidade.

Que não houvesse culpa nem medo, apesar da doença e da morte.

Que deixássemos de ser tão primários e ignorantes como nossos antepassados mais remotos.

Que não houvesse de fato mais a censura a nós artistas, como estamos vendo em nosso triste país tropical golpeado por bandidos que tomaram o poder.

Que pudéssemos dar um salto maior em nossa evolução, atestando que fomos criados para isso, para sermos grandes e belos.

Mas ao ver a correria da produção, o tempo que fugia por entre os dedos, a necessidade das propagandas, as luzes ao meu redor, um funcionário que olhava para o relógio e o olho da câmera me fitando como um deus inquisidor, eu abri a boca e falei que tudo fora dito; desejei bom dia e saí de lá pior do que entrei.

 

Destaque

P.S:

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Ah, que nojo.

Que nojo,

Que nojo,

Ah que nojo dessa gente que se conforma

Ou que só grita.

O grito servil é mudo,

é em dúvidas de chacotas

que reside teu grito inválido.

É inválido teu grito

e teu desespero.

É inválida tua horda de paz e caminhantes felizes em fotos

em preto e branco para parecer cult.

Que nojo dessa gente que apenas senta e escreve,

seu ativismo apaixonado de teclado e til,

seu ativismo ortográfico de LER de mouse.

Que nojo dessa gente muda e calada engolfada em apatia

e mornidão.

Que os deuses te cuspam para fora da boca do universo.

Que as plantas te envenenem aos poucos dentro de casa.

Que nojo dessa gente que faz o jogo dos sujos, garantindo o seu quinhão

mínimo na porta da boa esperança.

Que nojo dessa gente que defende o patrão por sua boa causa.

Ah, que nojo dessa gente, diz a senhora tomando café

e lixando as unhas vermelhas.

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ORAÇÃO

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E eu?

E eu?

E eu que me olho no espelho e me vejo em tudo e nada?

Branco que não sou e sendo;

Negro que não sendo e sou;

Índio que me  que não conheço e me tem!

Quem sou eu?

Quem sou?

Quem sou eu?

O espelho me diz agora: sou uma representação de mim mesmo: uma vitamina num gigante liquidificador. Sem segredos, com segredos secretos. Sou aquele indignado e passivo, não quero ser a mulherzinha nem o macho alfa que tudo governa. Sou favela, periferia, subúrbio e sentinela. Posso ver e antever os jogos, as moedas de troca e a sociedade que sempre foi doente e injusta.

O espelho me diz: Agora eu sou uma invenção, me disseram para ser assim, bem comportado senão iria para o tronco; para ser correto e justo como os demais, que sofresse calado mesmo comendo o pão que o diabo amassou.

Não existe esse diabo de medo e morte. Existe o espelho e nele me vejo e descubro quem sou e quem quero ser.

Sou verme destemido e sereia encantada; desencantos mil nessa página que não vira. que virá quando olho ao redor e digo: sou preto, sou branco, sou índio, sou mestiço, pardo de certidão, destinado ao fracasso de um país racista. Sou um ínfimo da Amazônia, um grão de areia do pantanal, um sopro do vento do sertão. Sou a boca seca do sertanejo, que grita ainda por justiça e justiça! Sou Nastácia e dona Benta, sou Saci e boneca Emília, sou Deus e Diabo sendo Deusa. Sou Oxóssi e sou Messias. E de que me serve? Serve quando vejo e grito, grito na medida certa. Bom cabrito é aquele que berra.

Que erra.

Sem medo de acertar.

Acerto é coisa inventada, para que tudo seja como dantes no quartel de abrantes; aquartelados nas prisões e pensamentos dos outros, que me querem assim: assado!

Assado como leitão cuja boca ostenta a maçã de Eva, que ensinaram ter saído de Adão. Sou agora mulherzinha, ao marido pedindo perdão?

Por isso de pé faço essa oração.

Sou mendigo e retirante, sou tem seto e sou sem terra. Que as tomem do rico, dos latifúndios improdutivos e inválidos. Que eu seja a água que brota em terra seca.

Não quero o herói, fora o herói bonzinho e com caráter. Quero o justo, que é amargo e que dói, que fere e fura e será como leite e mel na boca do preto e pobre. E que a Deusa acorde e nos toque com seu sopro divino novamente e nos dê força para lutar. A Deusa está em nós.

A Deusa sou eu.

Que seja assim.

P.S.:

 

 

 

Destaque

O MORIBUNDO

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É o teatro.

É a velha e boa arte teatral.

A eterna moribunda.

O cadáver sempre novo e redivivo.

Lidar com as palavras não é fácil, é labuta extenuante. Mas ainda assim a produção acontece em um banco de praça, em casa, no trabalho, no metrô, no ônibus, em meio ao barulho ensandecido de um shopping center. Até mesmo no banheiro sentado no vaso, como faço muitas vezes.

Mas o teatro não: é artesania que precisa de requinte e simplicidade; e precisa sobretudo de outras pessoas. E de alguém assistindo. É o lugar onde se vê, o teatro. E pena – é uma pena – pena todos os dias por gente que possa vê-lo. Atrizes e atores empenhados na perfeição de seu artesanato.

O velho e bom teatro que é feito por grandes profissionais artistas e técnicos e por grupos amadores em diversos bairros nas grandes cidades. Nunca perco a paixão e a esperança de rever esse velho amigo, o teatro.

Sentei-me sem grandes expectativas no centro cultural onde presto serviço. Era um grupo escolar muito bem organizado, eu e os demais colegas estávamos despreocupados. mas sempre alertas: evento ao vivo pode acontecer de tudo. As artes cênicas caminham por um fio entre o aplauso e o abismo. Talvez seja esse o motivo da paixão: o prazer sombrio pelo medo, por vivenciar sensações desconhecidas, mesmo durante as repetições diárias; o encontro com o público é sempre único e aterrorizante. Talvez seja isso.

Então me acomodei na poltrona.

As cortinas estavam abertas. os jovens sucederam cenas as mais diversas, com trocas de cenários, coreografias e música ao vivo, agindo como deve ser o bom teatro. O portal para a magia entre palco e platéia estava ali, aberto mais uma vez, fazendo brilhar a luz dos refletores em nossas retinas fatigadas pelo terror do cotidiano de corrupção e cinismo do Brasil. Essa gente maligna que censura a arte e a liberdade, essa gente suja que vê crime em paus e xoxotas e bundas e usam a faca para cortar o que é dos outros para si diariamente em suas negociatas espúrias.

Os familiares e amigos e público diverso estava presente rindo e se emocionando vendo aqueles corpos tímidos, seguros na corda bamba, sensuais, cheios de autoestima esbanjando talento no tablado. Como não sentir os olhos cheios de lágrimas ao se distanciar e perceber que a magia – sem medo do clichê – que a magia se fazia presente mais uma vez através da velha imitação de ações e sentimentos? Os grupos espalhados por todos os bairros da cidade – escolas, igrejas, centros comunitários, centros culturais, teatros particulares, escolas e bibliotecas comunitárias mantém essa arte de mais de 2.400 anos ainda de pé, sem botox, mas com as velhas e eternas máscaras da dor e do riso – podemos dizer que rimos na dor.

E vamos nessa luta diária contra a opressão e a favor das liberdades individuais, pela igualdade, mostrando que sem os deuses somos apenas o nada.

E com a paixão e o amor podemos ser muito.

Destaque

MAIS FORTE SÃO OS PODERES DO POVO

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Estive em um evento organizado por bibliotecas comunitárias de Salvador. Foi o Seminário Ler: direito de todos, onde se debate a importância de se fomentar o hábito pelo livro e pela leitura e onde se traçam planos para conseguir que um decreto vire lei com fontes de recursos: o plano municipal o livro, leitura e bibliotecas – PMLLB.

O evento é organizado anualmente pela Rede de Bibliotecas Comunitárias de Salvador – RBCS, composta por 14 bibliotecas comunitárias que faz parte de uma rede nacional e que presta um trabalho valoroso em toda a cidade de Salvador.

Aconteceu de tudo naqueles dois turnos.

Sentei-me ao lado de uma senhora muito da empertigada, muito bem maquiada e cheia de balangandãs. Cumprimentei-a e ela respondeu com um sorriso.

O que elas estão discutindo?, perguntei constrangido pelo meu atraso.

Ah, o motivo é importante, mas a mesa diz muita balela, cada qual vem aqui dizer o que está fazendo, quando na verdade ninguém está fazendo nada a não ser defender sua bunda!, ela disse se ajeitando na cadeira com ares de insatisfação.

Fiquei surpreso e chocado.

Mas gostei dela de cara, despudoradamente revoltada com aquele descaso e com as desculpas por um estado liberal e que pouco se importa com o fomento da leitura. Aliás: se importa e muito, afinal de contas fomentar a leitura é algo deletério, perigoso demais para a manutenção e perpetuação do poder de certas famílias quatrocentonas. Então se importam em manter tudo como sempre foi.

Parece que o pessoal das bibliotecas está implorando por uma coisa que deveria ser obrigação, que é dever deles!, disse a velhinha aos pés de meu ouvido.

Uma das mesas era composta por representantes de uma fundação municipal; por uma representante do SESC – Serviço social do comércio e uma representante de uma fundação estadual; Havia também uma representante da Secretaria municipal de educação. Eu tentava prestar atenção ao que diziam, todos expunham seus projetos e metas alcançadas, especialmente no que tange à produção e distribuição de livros. O SESC com seu importante concurso nacional onde premia um autor anualmente com a publicação de uma obra e contempla outros dois com distinção. A estadual com formação de bibliotecários e não lembro mais o quê, porque a toda hora a senhora me cutucava com um comentário ácido e malicioso.

Eles todos sorriem amarelo, parecem constrangidos, se pudessem sairiam correndo dali, disse me beliscando com uma mão e com a outra sacudindo as pulseiras de metal.

Uma pessoa de uma das bibliotecas comunitárias mediava a mesa, tentando dar ares de democracia em um país que vive uma ditadura imposta com bons modos e gestos à institucionais população. Ainda estamos em um Estado Democrático de Direito!, disse uma mediadora de leitura, após ser interpelada ironicamente por uma das convivas da mesa.

A estupefação era geral: pessoas em sua maioria despreparadas, sem o menor preparo intelectual ou técnico gerenciando pastas e departamentos de suma importância para o desenvolvimento da sociedade. Ou postas em lugares sem a menor possibilidade de trabalho. Digo do ponto de vista financeiro. Verbas mínimas para se desenvolver qualquer tipo de trabalho decente para fazer cumprir a lei.

Aliás, prefeituras se isentam em cumprir a Lei 12.224 sancionada pelo ex presidente Lula que diz que toda escola de ensino básico deve ter uma biblioteca com pelo menos um livro para cada aluno até 2020! Mais de 70% não possuem o equipamento. Segundo o Censo escolar de 2011 foram construídas 7.284 escolas em 2008, sendo que dessas apenas 19% foram construídas com bibliotecas. Ou seja: não é interessante para os governantes e parlamentares o fomento à leitura.

Eles gostam de imprimir e distribuir livros pra fingir que estão trabalhando, disse a senhora me cutucando.

Eles quem?, perguntei.

Os prefeitos, vereadores, deputados, governadores! Eles sabem que a mediação de leitura é importante, que as bibliotecas comunitárias fazem o papel que é dever do Estado, por isso eles sufocam o movimento com projetos paliativos, disse ela pegando um batom na bolsa e passando nos lábios finos e enrugados. Os prefeitos tratam o orçamento público como se fosse seu, eles fazem o que querem sem ouvir o povo, que parece que está dormindo!

Respirei fundo, estava angustiado com aquilo tudo.

Quando o microfone fora aberto ao público, para que esse pudesse fazer perguntas e questionamentos, a cobrança e insatisfação foi geral. Parecia dois mundos: a ladainha da mesa, que alega que com parcos recursos produz seus maravilhosos projetos e editais – e aí penso que todos estava em algum reino da fantasia – e o da platéia, em sua maioria composta por mediadores de leitura, bibliotecárias, dirigentes de associações, artistas e militantes políticos – que viviam uma realidade dura de insatisfação de impotência diante de um estado opressor que parece levá-los em banho-maria. Afinal de contas, já fazem anos que a luta prossegue para que a lei seja cumprida e os edis pouco se importam com livro e leitura, ávidos que são – salvo raríssimas e honrosas exceções que deveria ser a regra – por se locupletarem lambendo o saco de prefeitos e governadores.

O seminário terminou com cobranças, dedos em riste e debates acalorados sobre a importância de pôr a Lei em prática. A sensação era de descaso e paliativos para engodar a causa e seus militantes. O que se podia notar era uma mesa composta por gente pouco comprometida com o que representa ou impotente por não poder fazer nada  diante da imposição mesquinha e criminosa de governantes sem o menor compromisso com o povo e sem a menor vergonha na cara.

Vamos continuar na luta!, disse a velhinha se levantando apoiando-se em meu braço.

Com a força de Deus e dos orixás!, eu respondi.

Mais forte são os poderes do povo!, disse ela mostrando as pessoas ao nosso redor.

Saí e fui comer um acarajé quentinho que era servido no saguão.

Com o sentimento de que o amanhã não tarda, uma nova aurora sempre virá.

Com o povo.

 

 

 

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A ÁGUA QUE VAZA

Vassoura

Muito se fala da cordialidade de nós, povo brasileiro.

Eu precisa de material de limpeza. Saí para comprar. Quando retornei  – com mais sacolas e compras do que deveria, encontrei um vazamento no registro da água. imediatamente coloquei as compras dentro de casa e voltei para averiguar o que havia acontecido. Minha preocupação maior era com o gasto de água: poderia triplicar minha conta no final do mês. Por sorte o vazamento era anterior ao relógio que conta os metros cúbicos de consumo da casa.

Me senti aliviado. Mas e aquela água toda jorrando rua abaixo? (Acho engraçadíssimo escrever isso: rua abaixo. A água poderia jorrar rua acima? Ou eu quereria dizer que minha residência fica numa ladeira ou rua um pouco enladeirada?) Bem, a água não poderia ficar jorrando por toda a rua – também não poderia ficar jorrando por uma avenida, beco ou praça. Precisamos cuidado do nosso bem mais precioso, porque no futuro valerá mais que ouro e eu espero não estar mais aqui quando as guerras começarem por um litro do precioso líquido!

Liguei imediatamente para a companhia de abastecimento e protocolei uma queixa. Me deram 48 horas para consertar. Quarenta e oito horas?, disse para a atendente. isso daria para encher duas piscinas olímpicas ou mais! Ela disse, cheia de empáfia:

Senhor, eu disse que EM ATÉ 48 HORAS. EM ATÉ!

Ah, tá, respondi mais aliviado na vã esperança de que poderiam chegar em pelo menos duas horas.

Ledo engano.

Durante aquele dia e parte do seguinte bateram à minha porta 11 pessoas me alertando sobre o vazamento.

A primeira foi uma moradora antiga que ia para o trabalho às 6 da manhã. Eu pensei que ela estava passando mal, levante correndo para acudir. Ou que tinha sido assaltada. mas não:

Meu filho, você já viu esse vazamento? isso conta, você pagar caro.

E emendou, sem me deixar falar nada:

Ligue logo pra EMBASA (empresa baiana de abastecimento)! Quer meu telefone?

Não dona Dulce, muito obrigado, eu já liguei, eles devem estar chegando a qualquer momento.

Ah, ainda bem, porque uma vez aconteceu isso em minha casa, mas eu não estava e ninguém viu. Só um vizinho que eu nem me dava, nem falava com ele. Ele que me alertou. Veja como é a vida né? Por isso que bati pra te alertar, pra você não pagar uma conta muito alta. Esses filhos da puta já cobram pela água e pelo esgoto muito caro, imagine com vazamento?

E eu ali de cueca me escondendo atrás da porta, ouvindo o que ela tinha a dizer pela porta entreaberta.

O outro foi no almoço: Atendi limpando os cantos da boca:

Boa tarde, o senhor já viu esse vazamento?

Minha vontade foi dizer: não, sou cego, por isso não vi. mas recuei e fui gentil.

Vi sim, já liguei pra companhia de abastecimento. Está  a caminho. Por sorte o vazamento aconteceu antes do relógio, não vou pagar nada a mais. Obrigado.

E foi assim por dois dias. Pessoas passando pela rua e se queixando, que aquilo era um absurdo, como é que uma pessoa pode deixar a água jorrar assim?

Que desperdício!, disse uma testemunha de Jeová.

É uma falta de compromisso!, sussurrou um homem carregando um botijão de gás.

É falta de educação doméstica!, disse uma mãe carregando a filha que ia para a escola.

Vou ligar pra avisar do vazamento!, disse uma mulher pegando o telefone e discando.

Ouvi de tudo. A última foi um vendedor de vassouras. nunca mais tinha visto alguém vendendo vassouras de piaçava e de palha de porta em porta:

Boa tarde, não estou vendendo vassouras não; quer dizer, estou vendendo, mas vi primeiro falar do vazamento. Você já viu? Já ligou pra eles virem consertar? Pode ter um prejuízo grande viu! Água vazando assim é um problema. Em minha casa aconteceu na descarga, vazou por dentro do vazo e ninguém percebeu. A conta veio quatro vezes mais cara!

Já avisei, eles devem estar chegando a qualquer momento. Ainda bem que o vazamento ocorre antes do relógio.

Ah, ainda bem, o senhor deu sorte. mas não pode deixar água vazando assim, é um desperdício.

Muito obrigado, falei sorrindo.

Acabei comprando duas vassouras sem precisar.

Me tocou a preocupação genuína das pessoas. Tanto por eu ter um virtual prejuízo quanto com a consciência do uso da água.

O conserto foi efetuado três dias depois. Eu não estava em casa.

Agora olho para as vassouras: darei uma de presente. A outra vou usar para tirar teias de aranha do telhado.

 

 

 

 

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UM TRAÇO DE VIDA

A sculpture is pictured at 'Dismaland', a theme park-styled art installation by British artist Banksy, at Weston-Super-Mare in southwest England

Eu estava sem inspiração.

Precisava escrever essa crônica. Pra completar era feriado. Não sou nem um pouco simpático a feriados, desde que me entendo por gente. Acho depressivo. Gosto do movimento do comércio e do vai e vem das pessoas; gosto de gente em movimento. Nisso tenho Exu bem nítido e ativo dentro de mim.

Eu iria para o metrô, de volta para casa. Tomei um ônibus que me deixaria na estação da Lapa. Olhava entediado pela janela imaginando o que iria escrever, sobre o que iria escrever. Ninguém me acudia: crônica, poesia, conto, mentira bem contada, acontecimento fortuito, nada!

Foi quando o ônibus fez um desvio inesperado: havia jogo de futebol no estádio da Fonte Nova e as ruas de seu entorno estavam interditadas, como é de praxe. Eu havia me esquecido do jogo. Levantei-me imediatamente para descer no próximo ponto. Não pegaria o metrô, iria caminhando para casa. O ônibus parou abruptamente. Descemos eu e uma senhora.

Eu não sabia que tinha jogo, e agora?, murmurou.

Toda vez é isso, falei.

Eu não lembrei.

Nem eu. A senhora iria pra Lapa? Ele vai pra lá, apensar de dar uma volta enorme!, falei ajeitando a mochila nas costas.

Eu iria descer no Dique do Tororó, moro ali perto.

Ah, então a senhora sobe comigo e desce a Ladeira do Pepino, falei tentando confortá-la.

Subimos a grande escadaria ao lado de um viaduto. Eu estava perto de casa. Ela também. Não era velha, poderia ter minha idade, talvez três anos mais velha. Era negra, sóbria, gestos delicados, segurava uma pequena bolsa. O cabelo preso por um coque e uma flor de tecido. Usava um vestido marrom e seu olhar era doce. Me mantive um pouco afastado, ela poderia ter medo de andar com um homem estranho. Mas ela continuava caminhando bem perto de mim. Eu olhava ao redor, me mantinha alerta contra qualquer perigo.

A gente nunca sabe não é moço, o que pode acontecer… Ainda mais feriado!

Sim, cidade grande como a nossa, perigosa… As ruas desertas. Mas vai dar tudo certo. Chegaremos em casa em paz.

Vai dar sim. Eu moro pertinho daqui, não é nada demais. Caminhar um pouco faz bem, sair da rotina também.

Com certeza!, eu disse. Gosto muito de caminhar. Só iria pegar o metrô por causa do feriado, não gosto de feriado. As ruas desertas são tristes.

Mas essa tristeza passa. Amanhã será dia útil, a gente precisa ter fé. Muita gente fica triste, perde a fé, mas viver é um perigo e é muito bom. Seja como for, eu gosto é da vida! ela disse sorrindo e respirando fundo resgatando o fôlego perdido na subida.

Amanhã tudo será movimento, eu disse.

Hoje também! Está sendo! Eu vou descer a ladeira do Pepino, vou atravessar a rua. Ainda bem que Deus colocou você no meu caminho.

E a senhora também, no meu.

Boa noite, tudo de bom!, disse ela atravessando a rua e sumindo na esquina talvez para sempre.

E assim terminou aquele feriado. Com a matéria de que eu precisava. Não me atentara para o fato de que a mudança de itinerário era O movimento. Eles não me deixam só, deveria ter lembrado disso. E de que mesmo um encontro fugaz conserva em si um pequeno traço de vida.

 

 

 

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SER OU NÃO SER

ser ou não ser

Não tinha casa nem dinheiro nem carro nem jóias; nem sequer uma conta bancária.

Não tinha namoradas ou namorados, amantes passados ou futuros.

Tudo o que tinha era a grande dúvida: ser ou não ser.

Queria ser. Mas ser como ele era. Não totalidade plena de existir. Não queria ser como as outras pessoas. Não que as odiasse. Mas queria ser ele. E esse querer o arremessava para a dúvida das incertezas.

Enfrentaria o medo?

Conseguiria se manter de pé?

O que diria aos outros?

Diria o que diz a si mesmo olhando no espelho: eu sou?

Sentou-se no banco da praça e ouviu o canto dos pássaros por todos os cantos, em todas as árvores. Viu que crianças brincavam no parquinho implantado no meio da praça. Olhou para o pipoqueiro e para o casal de namorados abraçados num banco mais distante. Seriam amantes? Amantes no sentido de amar. Ou estariam apenas ficando, como se diz?

Não.

Aquilo tudo não o interessava. Era rico e sorria por ter a dúvida. E decidiu por certo que seria. Que assumiria seu verdadeiro eu sem medo e sem culpa, correndo todos os riscos e tomando para si a gerência das consequências. Todos em sua família, em seu bairro, em sua cidade gostaram da atitude. Afinal de contas devemos ser o que somos de verdade, sem se importar com os outros.

Ao cabo de uma semana de personalidade própria revertida não em palavras mas em ações, tudo se transformou como o mar outrora calmo, em tempestade violenta.

Não vê que ninguém age assim?, disse seu colega de trabalho.

E ao fim de mais um dia, antes mesmo de o sol se por, ele sofrera as mais violentas retaliações por seus atos originais e personalista. Não. Não poderia ser daquele jeito. Precisa agir em conformidade com os padrões estabelecidos por todos. Deveria ser uma pequena e insignificante parte daquele todo. Não poderia ousar ser ele mesmo um todo.

Precisava não ser.

Como poderia usar aquelas roupas e aquele penteado? Como ousara comer aquele tipo de comida e usar aqueles sapatos? Grande audácia ter opinião própria, visto que a verdadeira opinião é aquela aceita por todos como a mais bonita e elegante? Aquele comportamento alterava o cotidiano das pessoas, Os mais velhos olhavam de cara feia. Os jovens sorriam com ares de zombaria.

Estaria louco?, pensou.

Disseram que sim. Foi medicado e passou por batalhões de doutores que nem sequer perguntaram o seu nome. Agora tudo o que vê é o branco do teto. Deitado na cama estreita, os olhos vidrados olhando para o infinito do teto branco.

Não sendo.

 

 

 

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REI DA GAFE

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Não sou o rei. Sou o príncipe.

O rei era o Fernando Sabino. O grande escritor mineiro escrevera em uma crônica que era dado às gafes mais bizarras.

Eu chego perto.

Noutro dia estava em uma festa e o pessoal estava animado falando de tudo; política, roubalheira, cinema, artes plásticas, teatro, literatura, telenovelas, eleições, golpes, racismo, fome, desigualdade, carnaval, analfabetismo político e funcional… Enfim, falando sobre o Brasil. Aí se aproximou uma conhecida. Fazia uns meses que eu não a via. Notei que estava barriguda. Devia estar com pelo seis meses, pensei.

O povo adora ter filhos, pensei. o país nessa situação e a galera engravidando, pensei novamente já sorrindo para ela.

Quanto tempo, ela disse.

Pois é, você sumiu. Ainda lidando com teatro?

Sim, ensinando em uma instituição.

Falar instituição dá um ar sério e pernóstico ao ato. Mais na frente ela me diria que é uma associação de bairro que passa por sérias dificuldades, atrasa salários, até papel higiênico os professores estão comprando para auxiliar no cotidiano pobre de quem almeja fazer algo nesse país rico e bandalho.

Mas vai dar tudo certo, eu disse como sempre costumo dizer quando nada tenho a dizer frente à minha decepção com essas coisas.

Ela precisou sair logo da festa, não era uma da manhã. Então decidi atacar:

É menino, menina, ou a pessoa vai descobrir futuramente?, perguntei me arrependendo da piadinha besta.

Não estou grávida, é só barriga grande mesmo, ela disse sorrindo sem graça, se desvencilhando de meu abraço.

Ah, me desculpe, bebi demais hoje, misturei vinho com cerveja e vodca. Que loucura, eu disse pondo o copo sobre uma mesinha plástica.

Tem nada não querido, estou acostumada, faz parte da vida, ela disse dando tchauzinho.

Certa feita a gafe foi monumental.

Um irmão do candomblé estava grávido. mas a esposa perdera a criança. O natimorto teve muitas complicações. Não chegou a esse mundo sequer com oito meses. Mas, avoado do jeito que sou, me esqueci daquela tragédia familiar.

E durante alguns afazeres da roça para uma festa do orixá Omolu, o Olubajé, ataquei esquecido, simpático sorridente:

E sua criança meu irmão, como está, crescendo com saúde?

Não Uarlen… Meu filho nasceu morto, ele disse. Senti nas sílabas de meu nome em seus lábios um misto de desprezo e coisas do tipo “que cara sem noção!’.

Ah, meu Deus, me perdoe, sou muito esquecido, que tolo que sou. É verdade, eu disse pondo uma mão em seu (no dele, claro) ombro. Que Deus o tenha em um bom lugar, emendei de maneira bem atabalhoada, porque quem me conhece sabe que muito raramente eu tento conjecturar sobre o que Ele fez, faz ou fará.

A outra gafe memorável se deu quando eu esperava passar algum táxi. Quando a gente precisa nunca aparecem. Surgiu assim do nada um amigo de minha família. Na verdade um primo de segundo ou terceiro grau, muito simpático, brincalhão, sempre sorridente. Estava acompanhado de uma moça jovem.

Quanto tempo, ele disse.

Oh, é mesmo, por onde anda?

Me mudei tem uns nove meses.

Rebati com minhas associações que não tem nada a ver:

O tempo de uma gestação!

Silêncio.

Como vai Zoroastra, sua esposa?

Estamos divorciados, tem mais de dois anos!, ele disse sempre sorridente.

Ah, mas vocês se amavam tanto… Aposto que ficam vez em quando, aqueles flash back…

Não, não, sou casado com ela aqui, disse ele abraçando a moça.

Deus me acudiu: apareceu um táxi.

Táxi, táxi!, gritei acenando. Bom te ver!, emendei.

Entrei no carro e olhei pela janela.

Ele sorria e balançava a cabeça negativamente.

A moça, cujo nome sequer perguntei,  estava séria.

 

 

 

 

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PETRALHA

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Fui convidado por uma escola particular para dar uma palestra sobre literatura e produção independente. Sempre sou convidado a falar de coisas que não entendo completamente. A criação artística é e sempre será um mistério. Por isso que é coisa boa, penso. E sobre independência… Bem, todos nós artistas brasileiros somos independentes, sob certo ponto de vista…

A escola não gosta de ser chamada de escola, prefere “instituição de ensino”.

Então eu fui convidado por uma instituição de ensino particular ou instituição particular de ensino para proferir uma palestra – que chamei de bate papo – sobre produção artística e independente. Era uma sala enorme, púlpito sobre um pequeno tablado, iluminação geral com um foco em destaque para a minha pessoa. Devia ter pelo menos 100 adolescentes, além de professores e alguns funcionários entediados.

Senhor, me ajude, pensei ajeitando a gola da camisa e adquirindo um falso ar de segurança e seriedade. Eu queria mesmo era correr dali. Fui ao tablado, peguei uma pequena caderneta com alguns apontamentos; aproveitei para olhar nos olhos das pessoas mais próximas. Quando eu era Testemunha de Jeová, nos discursos que proferia, me disseram para olhar logo nos olhos dos assistentes, assim o nervosismo se dissiparia. Nunca funcionou.

Alguns adolescentes começaram a rir e outros começaram a gritar: começa, começa!

Boa tarde a todas!, falei entusiasmado, sorridente.

Só tem mulher aqui é?, indagou um rapaz.

Um professor olhou curioso para minha cara.

Gosto de cumprimentar assim, porque em todos os tempos utilizamos o masculino e as mulheres se sentiram representadas. Por que não falar no feminino e nós homens…

Você é de esquerda?, gritou alguém lá do fundo.

Sou. Mas o que isso tem a ver pessoal?, perguntei antevendo confusão. A esc, a instituição me convidou para falar sobre produção literária. Apesar de não ser um autor muito conhecido, tenho uma grande produção dramatúrgica que é admirada por muitos artistas, lancei quatro livros e estou prestes a lançar outro de poesia e…

Nesse momento uma moça de óculos interrompeu:

O senhor acha que esse governo faz alguma coisa pela arte e pelos artistas?

Acho que não. Acho esse governo um equívoco; não estamos mais em uma democracia, mas numa ditadura escancarada. Educação e Cultura foram lançadas no esgoto, falei com convicção.

Mas tenho em mim todos os sonhos do mundo, emendei tentando fechar com chave de ouro a discussão e partir logo para a dita palestra e partir o mais rápido possível dali. Amo debates e discussões que se aprofundam sobre os mais variados temas, mas aquela posição de destaque sobre um tablado e debruçado em um púlpito me incomodou por demais. pedi um copo com água a uma professora que estava logo á minha frente.

Uarlen, disse um rapaz negro levantando a mão. O senhor acha que Jorge Amado era mesmo comunista?

Além de ser chamado de senhor a todo momento, me incomodou o nível das perguntas, todas sem nexo, parecia que foram sorteadas ao acaso no universo. Ao nível dos achismos.

Sim, ele era comunista, ele afirmava isso, inclusive foi membro do partido comunista!

A professora me trouxe a água, tropeçou no tablado e derramou em minha calça, pedindo mil desculpas, botando a mão no rosto morta de vergonha. Correu e puxou um lenço da própria bolsa. Passou na minha perna, mas não resolveu quase nada. A maioria dos alunos dando gargalhadas. Uma minoria pedindo silêncio, uma parte teclando nos iPhones e quase todos fotografando e filmando.

Ah, meu pai, devo estar ao vivo para todos os continentes!, pensei sorrindo amarelo para a professora que retornava com outro copo com água.

Bebi.

Então, continuando, a produção independente no Brasil é muito ampla e variada. Escritores que lançam suas produções em blogs e sites, outros editam literatura em formato de folhetos de cordel, editoras online que imprimem livros sob demanda e…

Fui interrompido por uma professora:

Em seu recente livro de contos o senhor aborda um pouco a negritude e os temas das religiões afro brasileiras. num país cristão, isso é mesmo relevante?

Respirei fundo.

Sim, é relevante, o Brasil é um país plural. É necessário abordar essa pluralidade, a beleza que há nisso.

O senhor acha que o Lula fez um bom governo?, indagou um professor de casaco amarelo.

Acho, disse fechando a cadernetinha com apontamentos.

O senhor não acha que foi um governo assistencialista?

Não, foi um governo que priorizou distribuir renda. Apesar de muitos defeitos, erros e equívocos, é preciso admitir. Mas foi um bom governo. É uma opinião pessoal, mas voltando…

Uarlen, gritou uma menina encostada à porta. Já te chamaram de petralha?

Todos riram. Uns aplaudiram.

Não.

Então você é petralha?

Respirei fundo, pus a cadernetinha no bolso, bebi o resto da água gelada que estava no copo de vidro.

Olha gente, foi ótimo estar aqui. Sou artista, sou de esquerda e se quiserem sou petralha também! O tema da palestra é; como ser artista e petralha no Brasil!

Silêncio total. Respirei fundo. Me aproximei do microfone.

E quem estiver incomodado pode se retirar!

Ou se quiser vai pra Cuba!

 

 

 

 

 

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A ROCHA

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Estava desolado.

Sentou-se no degrau da escada e olhou as árvores que balançavam. Que tédio, murmurou limpando o suor da testa. Se achava o mais injustiçado de todos.

Não passava ninguém àquela hora. Percebeu passos. Virou-se para a direita. Ele chegou pela esquerda.

Tudo bem? Quanto tempo!, disse sentando-se a seu lado.,

Oi, quanto tempo… que faz por aqui?

O outro começou a chorar. Fazia tempo que não chorava. Que fazia ali? nem ele sabia. Estaria à espera de algo. Sentia-se como areia. Não como areia, mas como pó à mercê das tempestades de vento. Seria levado embora a qualquer instante. perdera a graça e com ela a fé.

Nas pessoas?

Em tudo, diria, mas preferiu emudecer.

O outro entendeu e torceu os lábios respirando fundo.

Que poderia fazer sentindo-se pó? Esperar por um milagre? Fingir, e fingindo enganar a si mesmo e nunca aos outros? Como escapar daquilo que está atado á própria existência? Seria de fato a vida um rosários de sofrimentos? Por que Deus, em sua infinita sabedoria, não reservara as piores desilusões e desconfortos aos iníquos e desleais?

O outro olhou mais uma vez as árvores: estavam quietas. E em sua quietude revelavam o segredo da vida: mortal. Por isso aprender e viver era urgente. Essa coisa de amar era possível. Mas sem dor. Sem dissabores. Tudo acontece ao mesmo tempo. Agora. Tudo vem de vez como uma onda gigantesca onde a única saída é mergulhar para dentro dela. Como quem retorna para um útero frio e salgado. Era isso: ao mesmo tempo. As ondas que se avolumam, o deserto que espalha areia, as folhas que caem, a torneira que goteja, a menina que chora a falta da boneca, o relacionamento que se foi partido, o começo de outro ciclo astrológico lá no cosmo interminável. Tudo acontece ao mesmo tempo como numa grande orquestra. Onde não podemos regê-la. Apenas conformar-se. E sendo conformistas gozar ao máximo esse destino.

Era falta de ânimo para continuar a corrida, disse o amigo recém chegado.

Olhou para o relógio de ponteiros dourados. Percebeu de súbito que aquilo era muito cafona. Não se usa mais relógios de pulso de ponteiros dourados. Nem ponteiros! Que egoísta ele era! O amigo ali desolado, partido em milhões de pedaços e ele pensando na cafonice de seu relógio. Sentiu-se humano. Pensava que o outro que era forte, um rochedo.

Mas até os rochedos se fendem ao crepitar de uma broca potente ou ao compasso incansável de gotas de água. A vida é maligna de tão bela, não pensou, mas sentiu. E sentiu que deveria dizer ao amigo que o tempo. Só o tempo criaria aquele cascão da ferida. E depois viria aquela coceira gostosa ao redor da chaga, pois é possível sentir prazer na chaga. Que após um tempo estaria desfeita. Feita novamente a pele pronta para um novo corte.

É o que se chama vida.

Tudo ao mesmo tempo.

Olhou as árvores: imóveis.

 

 

 

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HORÓSCOPO

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Se não me engano a lua estava em libra.

Prenúncio de boas novas. Abri o vídeo que a própria internet me indicava: uma moça com ares de intimidades falava das projeções para as próximas semanas.  Fiquei curioso. Não dou tanta importância para a astrologia. Ao mesmo tempo não desqualifico. Fiquei apreensivo. Termino ou não o vídeo?

Estava atrasado.

Sentei-me rapidamente: se não der tempo eu dou uma pausa e vejo na volta.

Previsões assombrosas: novos amores, possibilidades de trabalho surgiriam de pessoas distantes. Um telefonema? Um e-mail? Uma carta? Um fax?

Mas eu não tenho fax, disse para mim mesmo. E agora?

Era preciso ter cuidado com decisões precipitadas, é preciso priorizar o que é prioridade, disse a moça do vídeo, brandindo o dedo indicador e arregalando os olhos. Elas podem causar problemas maior que uma grande bola de neve. Mas aqui não cai neve, eu pensei. Será que ela se refere ao sul do país? Me desesperei.

E agora?

Preciso policiar minhas decisões, pensei dando um soco não mão esquerda.

Olhei a hora no relógio do cantinho da tela. Santo Deus, estava muito atrasado.

Fique atento às necessidades dos amigos próximos e familiares distantes. Mas família é sempre família, elucubrei. Se meter nos problemas familiares é pior que enfiar a cabeça num vespeiro. Pensei: se acontecer algo, é melhor esperar que a parentada venha a mim pedindo ajuda. Eu estarei sempre à disposição. Me senti aliviado, sem peso na consciência.

As decisões e escolhas precipitadas poderiam causar danos terríveis. Me preocupei novamente. Como ponderar sobre as escolhas? Merda!, disse baixinho. A moça terminou o vídeo com um sorriso escancarado, um bordão adocicado e desejando uma ótima semana cheia de boas notícias para todas e todos. Como se a vida fosse assim, repleta de boas notícias. Levantei decidido a encarar as coisas de frente: nada de decisões precipitadas; estar atento às oportunidades; priorizar o que deve ser priorizado. Claro, o trabalho é a prioridade nossa de todos os dias. Eu preferiria estar agora na beira de uma praia sentindo nos pés o vai e vem das ondas, bebericando uma deliciosa caipirinha e fazendo fotos para o Instagram.

Mas estava muito atrasado.

 Desliguei o computador.

Abri a porta.

Começara a chover.

Lembrei: não tenho guarda chuva. Chuva torrencial. O céu estava desabando. Vou ligar para o chefe dizendo que irei me atrasar. E em seguida ouvir desaforos.

Devia ter tomado a decisão certa: não ver o vídeo e correr para o trabalho.

Lua em libra.

Oh, céus!

 

 

 

 

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FLORES DO ENGENHO

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Diariamente acordo cedo para passear com minha cachorra. Na verdade Liuba me acorda para passear com ela;  é ótimo alongar-se, caminhar sob o sol da manhã e suar um pouco. Então observo mais atentamente o cotidiano das ruas e transversais do bairro. As pessoas que caminham em direção ao trabalho, a sujeira, crianças indo para a escola, carros por todo lado, comerciantes reabrindo seus negócios, pessoas “despachando” a porta e outros cães passeando com seus donos.

O casal está ali à minha frente: dois garis. Ele, de óculos escuros; ela de boné e sempre sorridente. Todos os dias é a mesma coisa: cumprimentam todo mundo que passa com um bom dia caloroso e sincero. Ela com um sorriso grande, gente que sorri com os olhos. Ele um pouco menos sorridente, mas não menos cordial. lembre do caso do apresentador de TV que humilhou um gari por causa de sua profissão. Que tolice. Que estupidez vinda de gente que pensamos ponderar as coisas, tratar a tudo e todos com temperança e sabedoria. Ledo engano. Gente é gente, somos o que somos sempre com nossas motivações boas e perversas.

Todos os dias acenam e dão bom dia, sorridentes. Cato o cocô de Liuba. Algumas pessoas elogiam. Eu digo que muita gente faz o mesmo. Ninguém merece pisar em bosta. O casal de trabalhadores sorri. O que os motiva a trabalhar varrendo as ruas sorrindo, de bem com a vida? Será que ganham um ótimo salário? Ou apenas gostam do que fazem? Agradecem por não estarem desempregados em meio a uma crise moral e institucional por que passa o Brasil?, penso enquanto espero Liuba cheirar os pneus dos carros farejando a urina dos outros cachorros.

Não sei.

Coisas da vida.

Mais adiante reside um poste. Tempos atrás era ponto de descarga de lixo doméstico. Montanhas de sacos de lixo atrapalhando os transeuntes, os automóveis. Um fedor insuportável. Um grupo de jovens decidiu remover o lixo e colocar um canteiro de flores no lugar. As plantas cresceram e hoje é um canteiro enorme com várias plantas e flores belíssimas. Uma exuberância de encher a alma de inspiração. Uma verdadeira bênção matinal aos olhos mais atentos.

Uma mulher cujo nome não sei todos os dias limpa o canteiro, retira folhas secas e flores murchas, rega e cuida com sua mão fértil. As plantas parecem gostar dela. Sorriem!

Bom dia, perguntei e ela respondeu me olhando de soslaio, compenetrada. Parabéns viu. A senhora cuida das plantas com tanto amor…

Ah, eu gosto delas, mas ninguém cuida, só eu. Todo santo dia!

Que bom. Elas estão felizes com a senhora, Deus te abençoe, falei atabalhoado segurando Liuba que queria correr para brigar com um cachorro do outro lado da rua.

Obrigada, Deus te abençoe também, ela respondeu sorrindo muito rapidamente enquanto salpicava água sobre as flores.

Continuei meu passeio.

Parei num vão da calçada para receber a nesga de sol que brilhava entre os galhos de uma árvore. Eu e Liuba. Aquele dia, como tantos outros, valeria a pena por causa daquelas flores: o casal de garis e a senhora que cuida do canteiro. Sem qualquer motivo.

Ou por todos eles.

 

 

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PEREGUN

 

Esse itan foi adaptado por mim para uma oficina onde contei algumas histórias sobre mitologia de orixás.

Peregun queria ter sorte, mas não conseguia. Então ele foi consultar Ifá.

Ifá, quando Pèrègún o procurava pela sorte, disse: “Pèrègún, se você quiser ter sorte, deverá ajudar a humanidade, fazendo um pacto com Ajé (Yiámi Osorongá, orixá mãe, respeitosa, da prosperidade e da sorte), para poder sempre ter e poder emanar sorte, para quem lhe procurar por sua ajuda.

Foi então, que Pèrègún tinha feito pacto com Ajé antes de vir ao mundo, mas não tinha quem o pudesse levar para Àiyé (Mundo terreno, a Terra).

Novamente foi a Ifá, e este dissera: “Pèrègún se você quiser realizar o seu trabalho em Àiyé procure por “Ògún”, pois ele sempre está indo para Àiyé.

Pèrègún procurou por “Ògún”, mas ele só levaria Pèrègún, se ele dividisse a sua sorte com ele.

Foi então que Pèrègún tinha aceitado, e por essa razão “Ògún” lhe dissera: “Vou dizer a toda humanidade, que Pèrègún emana a sorte, e quem com ele ficar será agraciado com a mesma”.

Desde então Pèrègún então foi conhecido, e muito procurado por todos em Àiyé.

Com Peregun, a sorte de nossos opositores fica a nosso favor. Mas para ter sorte, precisamos agir como Pèrègún: ter fé e trabalhar!

Peregun aqui é também conhecido como Nativo.

 

Ifá – Orixá da adivinhação e do destino. É o porta voz de Olorun.

Olorun – O Deus Criador, O Todo Poderoso, criador de tudo, inclusive dos orixás.

Ajé – Senhora da morada da sorte e das realizações dos humanos.

Aiyé – Palavra de origem iorubá que significa Terra, mundo terreno; paralelo ao Orun, mundo espiritual.

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PUNHADO DE NUS E AS SENHORAS OFENDIDAS

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Fui buscar o resultado de alguns exames de rotina. A recepção com aquele punhado de revistas antigas; a maioria Caras com páginas arrancadas. Quadros abstratos com fortes pinceladas e arranjos de flores artificiais.

Então adentrou a primeira senhora, de calça jeans e saltos altos; nariz em pé e cabelos muito bem pintados de loiro para disfarçar os fios brancos. A raiz entregava, não teve jeito. Sentou-se ao meu lado após entregar os documentos para a atendente que, muito da prestativa pediu que aguardasse um instante. Não sei se a primeira senhora tinha ido buscar um resultado ou se iria fazer algum exame ou algo do tipo.

Logo em seguida entrou a segunda senhora, negra, cabelo black, colar enorme em tom terra, brincos de madeira representando o contorno do continente africano. Deu bom dia e sentou-se de frente para nós (nós que eu quero dizer era eu e a primeira senhora, a de cabelos pintados de loiro, que a essa altura já estava folheando o jornal amarfanhado que estava sobre o balcão).

Mas é muita pouca vergonha, o mundo perdeu o pudor mesmo, começou a atacar olhando para a negra à nossa frente, buscando apoio; Imediatamente peguei uma revista de fofocas de pseudo celebridades da TV e comecei a fingir que estava lendo, evitando ler, é claro. Vai começar, pensei cruzando as pernas.

Como é que pode expor quadros com pessoas nuas tendo relações íntimas com animais e crianças?, continuou a loira. Ela se referia a uma exposição que fora censurada por uma instituição bancária que patrocinava a mostra de alguns artistas sobre o tema Diversidade. Eu soube, disse a outra. Fiquei horrorizada! Minha neta defendeu, ficou até sem falar comigo, me chamando de fascista e outras coisas mais.

A minha disse que eu sou nazi fascista, eu nem sei o que é isso, respondeu a loira. Mas continuo achando o fim do mundo.

A arte virou um farrapo, uma merda qualquer, arrematou a senhora negra de voz grave e potente. Desde quando o desenho de um pênis é arte?

Nem duro nem mole, é tudo maluquice, disse a loira.

Claro que se me contassem eu não acreditaria naquela cena, salvo pelo fato de que eu estava presenciando! O Smartphone iria me salvar, ele sempre salva, eu poderia fingir que estava navegando na internet ou ouvindo mensagens de áudio do whatsApp, uma atrás da outra. Mas quando fui puxar do bolso, a loira me cutucou.

Você não acha, meu filho?

Tem a estátua de Davi, ele está nu, quero dizer, a estátua está nua.

Mas aquilo é uma obra de arte famosa!

Mas também é uma vergonha!, disse a senhora negra.

Deveriam quebrar ou pelo menos esconder longe da vista de crianças e pessoas de respeito.

Aquilo praticamente nem é um pênis, eu disse e elas me olharam espantadas.

Não?, perguntaram.

É um pintinho, praticamente, todo fofuxo… Aqueles cabelos nem são pentelhos, são tufos angelicais, eu disse já arrependido por ter dito.

Fofuxo?, repetiu a loira.

Realmente, disse a negra. No meu tempo a arte era pra ser sublime. Não esse monte de maluquices que inventaram.

Depois dessa defesa esdrúxula daquela estátua pornográfica e dessas pinturas grotescas, só falta agora você querer defender essas cantoras que pensam que cantam, mas só sabem mostrar a xereca no palco!, disse a loira visivelmente irritada.

Nesse momento a atendente começou a rir e retirou-se correndo. Eu fiquei ali entre as duas, encurralado. As duas resmungavam. E agora? O que eu poderia fazer? Foi quando a atendente gritou lá de dentro: Uárlam! (Estou acostumado com a pronúncia equivocada de meu nome; alguns chamam de Eduardo, Halley, Wally, Uorlando, Wesley e por aí vai!) Levantei correndo.

Boa tarde, disse para as duas.

Peguei o resultado de meus exames e saí sem olhar para elas. No elevador me lembrei das imagens ditar pornográficas. Então me dei conta de que estava com uma revista Caras embaixo do braço.  Deixei com a recepcionista da portaria principal do prédio.

A atende da clínica tal pediu para entregar para a senhora, falei.

Ela mandou me dar essa revista?, perguntou a moça atônita.

Foi. Tenha um bom dia, eu disse saindo correndo.

Jamais seria capaz de retornar e enfrentar aquelas duas.

Deus me livre.

 

 

 

 

 

 

 

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OS VELHINHOS DO MATATU

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Decidi pegar um ônibus.

Que como sempre demorou muito a chegar. Choveu, fez sol, choveu novamente e eu ali à espera do coletivo que mais parece uma lenda.

Chegou um velhinho de boné e camiseta branca, deu boa tarde a todos, que Deus abençoasse a todos. Tinha um bigodinho bem fininho rente ao risco do lábio. Por que será que alguns idosos deixar aquele filete de bigode? Por que não raspam logo tudo de uma vez?, me perguntei. Estava absorto nessas elucubrações quando veio o ônibus. Corri para pedir que parasse com medo do motorista levar adiante fingindo que não viu, como é costume de muitos deles. Eu estava atrasado para um almoço importante. Precisava correr. O sol abriu com toda força e esplendor. Eu estava banhado em suor. Todos do ponto correram para pegar o ônibus para Luis Anselmo, um bairro da região aqui de Brotas que carece de uma atenção maior com o transporte público (quero dizer privado). Havia dois vendedores mercando: um amendoim torrado e outro água mineral. Estratégia de venda casada?, me perguntei.

Comprei as duas mercadorias. Bebi a metade da garrafinha d’água e comecei a comer o amendoim com as mãos sujas mesmo. O que não mata engorda, diziam meus amigos sábios da infância. Pedi o ponto, uma senhora com várias sacolas pediu para o motorista parar antes, porque ela estava com muito peso etc. Não adiantou: ele parou muito mais adiante, no ponto certo. Mas era inviável que ele parasse onde ela pediu. O coletivo estava no meio da pista, se descesse ali poderia ser atropelada. Ela desceu se lamentando. O velhinho que dera boa tarde a todos nós anteriormente no ponto decidiu ajudá-la com as sacolas. Eu também.

Nunca mais faço isso, disse a velhinha apertando o lenço em sua cabeça. Percebi que ela tinha uma flor presa na orelha; daquelas amarelinhas, cujo nome esqueci mas encontra-se em tudo quanto é terreno baldio aqui em Salvador. Bela, belas.

A senhora está com muito peso, devia ter chamado alguém para ajudar, alguém de sua família, disse o velhinho do boa tarde a todos. Ele todo empertigado, ágil, cheio de si, com os documentos e uma caneta visíveis no bolso da camisa.

Se a senhora descesse ali poderia ter sido atropelada, eu disse segurando as sacolas muito pesadas lembrando que aquele atraso passaria para a história. Com que cara eu olharia para as pessoas? Devia estar que nem eu: morrendo de fome.

Onde a senhora mora?, perguntou o velhinho do boa tarde.

Moro ali depois da curca, disse a velhinha do nunca mais faço isso.

E eu no meio, morrendo de fome, banhado em suor e querendo adiantar logo aquela caridade. Meu Deus, por quê decidi ser caridoso logo agora?

Paramos para esperar o sinal abrir. Atravessamos a rua, estávamos numa encruzilhada; paramos para esperar a outra sinaleira abrir, caminhamos uns duzentos metros. o velhinho do boa tarde perguntou onde era mesmo a casa. logo ali, depois daquela curva. Chegamos. A casa da velhinha do nunca mais faço isso era a própria curva. Pediu que colocássemos as sacolas no chão, abriu a porta, agradeceu e entrou.

Não vai querer as compras?, perguntou o velhinho do boa tarde a todos, batendo na porta.

Ah, meu Deus, já ia esquecendo, disse a velhinha do nunca mais faço isso abrindo a porta e pegando as sacolas. Quase que eu pedia a ela pra entrar e tomar um suco e comer uns biscoitinhos.

Gente idosa é assim, uma atrapalhação sem fim, disse o velhinho do boa tarde a todos.

Pois é, eu disse alisando a barba.

Nos despedimos, desejei-lhe um ótimo domingo. Idem, aproveite o domingo meu filho, disse ele todo serelepe dobrando uma outra esquina e sumindo de minha vista.

Corri para tentar conseguir pegar quem sabe o resto do fundo das penelas, meu estômago rugia feito um leão.

Cheguei.

Estava esbaforido.

Foi tentativa de assalto?, perguntaram.

Não, não queria me atrasar tanto, eu disse buscando respirar fundo.

Ah, nem precisava, a lasanha ainda está no forno, ainda estamos preparando a sobremesa.

De boa tarde a todos. Sentei. Enxuguei o suor da testa com um lenço.

Nunca mais faço isso.

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CARURU DA DIVER CIDADE

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Não comi o caruru.

Sairia tarde demais. Também não sou um fã ardoroso da iguaria baiana. Conheço gente que daria um rim para desfrutar do cozido de quiabos cortados com cebola, azeite de dendê e camarão. Mas havia a diversidade.

Recebi inúmeros convites para o evento Caruru da diversidade que aconteceu na residência dos estudantes da Universidade Federal da Bahia, no Corredor da Vitória aqui em Salvador. Promovido por alunos e ex universitários, e esse ano sob o tema Afete-se, a festa reúne toda uma gama de pessoas que se identificam com o universo Queer (me perdoem se errei o termo); além de falas sobre a importância da consciência pessoal e coletiva sobre os direitos individuais dos homossexuais, transsexuais, travestis, lésbicas, aconteceram apresentações as mais varias entre música, dublagem, performances, vídeos etc. Aproveitei para ver os amigos e colegas da banda Kiki e Os amores clandestinos, que foi objeto do documentário Kiki – O amor eu não sei, que fiz sobre o transformista baiano Kiki.

O caruru seria servido no começo da manhã – me contaram. Cheguei com um amigo que se hospedara em minha casa – Mathews Baldez é ator e está em uma montagem de um texto meu – Bílis negra – na capital do Maranhão, São Luís. Ele estava empolgadíssimo! Já passava das 23 horas. Kiki se apresentaria lá pela meia noite. Fiquei impressionado – e ao mesmo tempo a vontade – com o desfile de figuras das mais variadas cores, estilos, naquele grito de afirmação e sobretudo de atitude política frente ao estado de exceção que estamos vivenciando no Brasil. O pequeno palco de chão em estilo xadrez presenciou discurso de lésbicas, de viados, de bichas pretas, de monstras – um termo usado, se não me engano, para designar aquela espécie de drag queen que não segue os padrões de beleza das “divas” – e até de héteros. Isso me fez olhar mais atentamente enquanto aguardava a entrada de Kiki e banda. Um hétero pleno está em acordo com sua porção feminina e/ou masculina. É um encontro sagrado entre dois mundos que habita um só corpo.

Houve quem reclamasse dos excessos, dos discursos óbvios e batidos, sobretudo para um público que estava em conformidade com tudo aquilo, que fazia parte daquele propósito. No que concordo. Falar para uma multidão que está em acordo com o que dizemos é chover no molhado. Mas todo movimento é suscetível a exageros e descontroles. Afinal de contas protestos são apaixonados.

O que move um protesto é o assombro por algo que está errado, que é injusto, que não deveria estar naquele lugar. Ou sobre o que está fora dele. Daí pode gerar uma revolução.

Encontrei um sem-número de amigos e colegas de profissão e dos tempos da faculdade. Revi Tereza Skyper, criação de Noan Santos, colega da faculdade e dos tempos da montagem da peça Usina Conta Zumbi; revi Diego Alcântara e seus três metros de altura com sua Mamba Negra com aqueles lábios enormes de lindos numa performance deslumbrante. Revi Xica (de uma peça sobre uma trans (ou travesti?) baiana dos tempos da escravidão. Lembrei que parte daqueles tempos sombrios ainda está presente em 2017. Veio à tona uma conversa que tive com um amigo sobre identidade e afirmação pessoal e sobre um rapaz que vi em um ônibus: negro, gordo e afeminado. A antítese dos nossos tempos sombrios. Mas apesar de não ter o padrão que encanta a sociedade dominada por homens héteros, brancos e ricos (e congressistas e religiosos patifes), o rapaz parecia dono si, cheio de autoestima. Como Sonale Fonseca, Gabriel Carneiro, Moisés Rocha e Riam Santos,  produtora e atriz e integrantes da banda Os amores Clandestinos que são héteros e perfeitamente imersos naquele nosso mundo e em conformidade com seu eu feminino, gay, trans, lésbico. Como artistas que são. Como pessoas que são.

Parte do público presente parecia alheia às atrações e às falas. Uma pena.

Por falar em diversidade…

Você já tomou jambu?

Eu tomei.

Na cachaça.

Um amigo novo, cantor, lá de Belém (do Pará, claro) me ofereceu a bebida. Disse a Jeff Moraes que aquilo é um néctar dos deuses!, que nem a cachaça com raiz de umburana que tomei em São José do Paiaiá. Mas essa tem um gosto um pouco azedo e deixa os lábios dormentes e um tanto trêmulos. Que delícia! o caruru da diversidade foi isso: encontros, paixões sem escape, memórias, afetos, exageros, tropicalismo, bossa nova, rock, purpurina, dendê, beijos, amassos, timidez, olhares. e teve meu amigo Marcelo Ricardo, na organização do evento, naquela calmaria que lhe é peculiar. Que venha o próximo caruru. Com direito a tudo e todas.

E por uma cidade cada vez mais diversa. Sem nada a temer.

(Ah, soube hoje que o caruru saiu cedo, no começo da festa, por volta das 20 horas!)

Axé.

 

Foto: Pintura “gay family painting queer art 2 men with a child homosexual arts”, da Raphael Perez
https://www.artdoxa.com/users/raphaelperez/artwork_catalogs/5679-gay-family-paintings-homosexual-and-lesbian-families-painting/artworks/large?page=1#123984

 

 

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UBER

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Estava atrasado.

Jamais me recordaria de que só tinha uma cédula de 50 reais na carteira. O compromisso devia ter começa há meia hora. Pedi um uber. O motorista já me esperava no local determinado pelo aplicativo. Saí do Engenho Velho de Brotas em direção ao Corredor da Vitória, teria um encontro com agentes de cultura no ICBA – Instituto cultural Brasil Alemanha – e não poderia me atrasar. Incrível, de tempos pra cá me tornei o atraso em pessoa. Uma deselegância inominável. Será a idade? Claro que não, conheço pessoas idosas que são pontualíssimas! Preciso sair mais cedo, sempre mais cedo e com calma, pensei enquanto respirava fundo e colocava o cinto de segurança.

Tem alguma rota preferida ou prefere seguir o GPS?, perguntou o motorista.

Prefiro seguir o GPS, eu disse. Porque se mudar a rota o valor sobe, afirmei com apenas 87,5% de certeza.

Claro que no horário de pico – o encontro seria às 18h e já era 19h! – eu pegaria a triste lentidão do trânsito de Salvador. E assim foi. Normalmente eu pergunto como está a praça, se a pessoa está conseguindo tirar algum lucro com aquele negócio, se a prefeitura ainda persegue, falo sobre a medonha e porca situação política do Brasil etc, etc. Mas preferi me calar, queria chegar logo.

Chegamos.

Mesmo seguindo o GPS o valor subiu mais de 6 reais. Abri a carteira e saquei a nota de 50 sem reclamar. Ele disse que não tinha troco. Descemos para tentar trocar em uma delicatessem próxima. Não trocaram. Compra uma água mineral pra ver se trocam, eu disse e ele respondeu que tinha água no carro. Calei.

Vou trocar lá dentro. Tem um café e o movimento é razoável, devem ter troco. Fui safado, pedi um menor – que custa 5 reais – na esperança de trocar o dinheiro. Fui safado novamente, só mostrei a cédula quando o café estava pronto e eu já tinha bebido um gole. Tentei pegar o telefone para fingir olhar qualquer coisa e assim me safar de olhar para a cara da atendente mas não teve jeito. Ela me olhou primeiro e disse que não tinha troco, botando as mãos na cintura, jogando a bomba em meu colo como quem diz: e então? Vai ter que desmontar!

Aí o inferno começou: o pessoal da reunião já tinha me visto e acenaram para mim. Pedi que esperasse com um aceno apressado. O motorista com aquela cara de gato quando quebra prato.

Vamos lá fora, vamos tentar trocar. Engoli o café e corremos pela avenida. Uma banca de frutas: ah, a salvação! O cara nem olhou pra mim, disse logo que não trocava. Aí me retei.

Sinto muito mas a culpa é sua, falei para o motorista. Você deveria ter troco para os clientes.

É que essa á a minha primeira viagem, eu só trabalho a noite senhor, ele disse visivelmente constrangido.

O senhor não prefere anotar meus números de telefone e pegar amanhã esse valor em minha casa? Eu moro ali ao lado da praça em que o senhor me encontrou, praticamente no Bar Copo Cheio, falei achando que ele iria aceitar.

É que eu estou pagando ainda esse carro usado que comprei para trabalhar, senão eu faria isso.

O senhor está achando que não quero pagar?, indaguei espantado.

Não, não quis dizer isso, ele disse enquanto andávamos pelo Corredor da Vitória. Parei dei meia volta, ele me seguiu sem entender nada. Vamos ao Bompreço, lá deve trocar, eu compro um pacote de ração para minha cachorra e te pago a corrida.

Vamos, ele disse conformado.

Mas o senhor vai me trazer de volta, sinto muito, falei com aquela arrogância de cliente ofendido e dono do capital, portanto do poder.

Fomos. Na entrada do mercado, avistei uma baiana de acarajé. Vou comprar um e assim consigo trocar o dinheiro, falei ao motorista. A essa altura já tinha me conformado de que iria pegar apenas o final de reunião. Usei a mesma artimanha do café: primeiro pedi o bolo de Iansan, mordi e depois entreguei a nota. O rapaz disse que não tinha troco.

Mas eu só tenho esse dinheiro, disse colocando um camarão na boca, que me espetou. Me senti castigado.

Furei minha boca, a senhora deixou a cabeça do camarão com o chifre, falei tentando colocar culpa nela e no rapaz do caixa. Consegui. Ele se desculpou e disse que iria trocar o dinheiro no mercado. Voltou com o troco.

Paguei ao motorista. Perguntei a ele como estava a praça e ele disse que não andava com dinheiro trocado por medo de assalto. Que noutro dia ele foi parar em uma boca de fumo e bandidos colocaram armas em sua cabeça querendo saber opara onde ele estava indo. Graças a Deus tudo deu certo e ele estava ali comigo mergulhado naquela confusão pelo centro de Salvador.

Como bom libriano que sou, para harmonizar tudo, agradeci, me desculpei, disse que ele fizera uma ótima condução, que o problema do troco atingia a cidade inteira, que aquilo era um absurdo, que ele não tinha culpa e que eu daria cinco estrelas a ele.

Paguei o café, depois de dizer que deveria sair para trocar dinheiro, que não podem jogar aquele problema para o cliente!

Sentei-me à mesa de reunião, cumprimentei a todos, me desculpei narrando o acontecido.

Se tivesse me dito eu te emprestava, porque tenho aqui, falou uma amiga poeta.

Tem o quê?, perguntei.

Troco.

 

 

 

 

 

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DOIDINHO

 

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Ladrão que rouba ladrão não tem.

Mas os loucos sim.

Deus sempre perdoa os doidos, porque eles não fazem por mal. As sandices destoam do cotidiano travado a que estamos acostumados, cerceado por regras, leis e preceitos morais. O loucos não – quebram as regras e arejam o dia ao passar nu em frente à minha casa. Verdade. Uma senhora passou pela minha porta duas vezes completamente nua, rebolando, com as sandálias nas mãos. Com ares de Sônia Braga ou Sharon Stone na pele de suas personagens belas e sensuais. As vezes ela – que não sei o nome – passa gritando impropérios os mais variados. Isso altas horas da madrugada!

Ainda hoje, passeando pelo bairro com minha cachorra Liuba, me deparei com um deles – misto de doido e bêbado – levando grades de cerveja em um carro de mão. Com aquela energia incontrolável, misto de fúria e alegria, gritando e cantando dizendo que é o maior capoeirista do bairro. Parou para gingar um pouco, com golpes com as pernas sobre o carro de mão, como se aquele fosse seu adversário no belíssimo jogo da capoeira, nosso patrimônio imaterial. Não é que o danado sabe mesmo jogar? Tentei fugir, para que Liuba não invocasse com ele e vice versa mas não teve jeito: ele me viu, perguntou como eu estava, disse que meu pai é o maior cabeleireiro (barbeiro) do bairro (Ele e Elias, um barbeiro da geração de meu pai que fechou sua barbearia recentemente, se aposentou; meu pai é igualmente aposentado, mas prefere continuar na ativa).

Eles são assim: a doença os acomete no terreno do consciente; a inconsciência fica intacta, operando nas lembranças, na capacidade de não rasgar dinheiro, de se atentar com os veículos no trânsito e não morrer atropelado etc. Li isso em algum lugar e ouso falar aqui de coisas que não tenho certeza. Alguém me corrija se eu estiver errado.

 

Não estou aqui romantizando ou achando graça quem tem distúrbios mentais – creio que todos nós temos -, mas fazendo apenas um pequeno recorte daqueles que conseguem fazer algum gracejo e trazer encanto para o nosso cotidiano com suas tiradas incríveis, suas lembranças, a forma como bagunçam nossa ordem chatíssima estabelecida. Não posso deixar de denunciar certo descaso dos nossos gerentes (ou ingerentes) com a saúde pública em especial com os que sofrem de distúrbios mentais. Em todos os bairros essas pessoas lotam as ruas; estão por esquinas, pelos montes de lixo, confundem-se com alcoólatras e mendigos ou são isso tudo ao mesmo tempo. é uma tristeza ver tanta gente com a sorte traçada pela falta de interesse dos nossos representantes. Estamos todos, todos numa nau de loucos, todos no mesmo barco.

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Ou como disse a grande Nise da Silveira: “Para navegar conta a corrente são necessárias condições raras: espírito de aventura, coragem, perseverança e paixão“.

É preciso se aventurar,

É preciso ter coragem,

É preciso ter perseverança,

É preciso ter paixão, dona Nise.

E vergonha na cara para certos edis e chefes do Executivo.

Axé.

 

 

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AMOR E OUTROS PÁSSAROS

…como a carne que se torna dura e tranquila com o passar dos anos.

Escrever sobre amor é falar sobretudo de todos. Do seio materno e das lembranças que não sei. Coisas dos antepassados, impressas na cadeia dos genes, em cada gota de sangue, na saliva seca e na pele que lavamos e sabemos finita. É essa coisa que não sei quê. Que sinto e você sente. E eu sou o arquiteto de apenas 41 edifícios: algumas casas pequenas, casebres e plantas riscadas no papel. Amor bate, volta e fica. Não, não fica, deixa duas ou três pegadas. São os carimbos da repartição pública da vida onde não se tem fila, apenas espera.

Amor é assim essa lembrança cotidiana que martela, é vinho fresco em garganta sedenta. É menor que a paixão fulminante, que se diz prazer e dor. Amor dói em calma, sem dedo em riste, é conformado, não mira em cima nem olha pra baixo. Fita o horizonte, não aprova nem desaprova. É mistério e compreensão.

Amor é um canto de pássaro ancestral, que ouço e sei o que é.

Sem nunca ter visto.

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Itan 2 – POR QUE AS MULHERES NÃO PARTICIPAM DO CULTO DE EGUN?

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Em um dia muito importante, em que os homens estavam prestando culto aos ancestrais, com Xangô a frente, as Iyámi Ajé fizeram roupas iguais as de Egungun, vestiram-na e tentaram assustar os homens que participavam do culto.

Todos correram mas Xangô não o fez, ficou e as enfrentou desafiando os supostos espíritos. As Iyámi ficaram furiosas com Xangô e juraram vingança.

Em um certo momento que Xangô estava distraído atendendo seus súditos, sua filha brincava alegremente, subiu em um pé de Obi, e foi aí que as Iyámi Ajé atacaram, derrubaram e mataram a Adubaiyani filha de Xangô que ele mais adorava.

Xangô ficou desesperado, não conseguia mais governar seu reino que até então era muito próspero.

Foi até Orunmilá, que lhe disse que as Iyámi é quem haviam matado sua filha. Xangô quis saber o que poderia fazer para ver sua filha só mais uma vez, e Orunmilá disse para fazer oferendas ao Orixá Iku (Morte). E assim Xangô fez, seguindo a risca os preceitos de Orunmilá.

Xangô conseguiu rever sua filha mais uma vez, e pegou para sí os mistérios de Egungun (ancestrais).

Estando agora sob domínio dos homens este culto e as vestimentas dos Eguns, tornou-se estritamente proibida a participação de mulheres. Caso essa regra seja desrespeitada, provocará a ira de Olorun, Xangô, Iku e dos próprios Eguns.

Este foi o preço que as mulheres tiveram que pagar pela maldade das Iyámi, suas ancestrais. E assim é até hoje.

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ANOS 90: EROTIC MADONNA, VÊNUS DE WILLENDORF E O COLÉGIO CIDADE DE CURITIBA

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 Ao olhar para trás, para os anos 90, quando eu tinha cerca de 17 anos ao falar de sexualidade, recordo das imagens da TV, das aberturas de certos programas que exploravam o nu feminino em larga escala. A atriz Isadora Ribeiro aparecera anos antes na abertura da novela Tieta totalmente nua; e durante muitos anos na abertura do programa Fantástico junto com outras modelos seminuas. Lembro também dos enlatados estadunidenses reprisados com veemência como Porky’s e seus semelhantes sobre adolescente que só pensam em fuder.  Me recordo do Colégio estadual cidade de Curitiba (um colégio estadual no bairro do Engenho Velho de Brotas em homenagem à capital do Paraná!) e da vênus de Willendorf que vi em fotografia num livro de História.

A estatueta é a mais antiga representação de um nu que se tem notícia. Especialistas dizem que não se trata de uma representação realista, mas de uma idealização de mulher fértil. Uma professora dissera que a imagem era uma distorção da figura feminina. E que era praticamente pornográfica, ao expor de forma acintosa as genitálias. Não achei a imagem distorcida e muito menos pornográfica, muitas mulheres e homens reais são assim, distorcidos ou não. E não seria pornografia sentar-se à frente da TV e presenciar a Isadora Ribeiro penetrando (!) os nossos lares com seus seios duríssimos ou mostrando a genitália na abertura da novela?

Genitálias e seios à parte eu preferia os da Madonna, que artisticamente causou espanto e perplexidade ao abordar a liberdade sexual em seu disco Erótica, de 1992. Nas décadas de pós-liberdade sexual, de hipocrisia e terrível medo da infecção pelo vírus HIV, o álbum e principalmente a postura da artista no clipe e no show causaram revolta e críticas as mais variadas. A que mais me chamou a atenção foi a de a artista seria “amoral”.

Moral é derivado do latim mores e tem a ver com comportamento. Amoral seria alguém que desconhece o comportamento social, os pudores da sociedade, os preceitos da civilização em que vive. Não acredito que a chamada rainha do pop não tenha compreendido a cultura da sociedade em que vivia naqueles anos. Creio que a Madonna entendeu tanto a sociedade de seu tempo, seus padrões hipócritas e pobres que resolveu fazer um convite ao rompimento desse “hímen” inquisitorial que se chama moralismo. Na letra, a artista criou a personagem de nome Dita, que nos convida a um momento de erotismo, orgia, de prazer:

My name is Dita

I’ll be your mistress tonight

I’d like to put you in a trance.

A partir daí, adentramos em um mundo repleto de figuras do imaginário erótico e pornográfico. O planeta dos fetiches, da quebra das convenções, dos conceitos e pré-conceitos. Uma das imagens do clipe é de alguém chupando o dedão do pé de um dos atores/bailarinos. Não lembro se é a própria artista ou uma dançarina. Não importa, a imagem naquela época era (e ainda é, pouca coisa mudou nesse assunto) no mínimo interessante naquele videoclipe em preto e branco. Chupar o dedão dos pés não é nada em se comparando a pessoas que pedem que lhe enviem pelo correio meias e cuecas sujas. Esses fetichistas se masturbam e devem sentir prazeres inenarráveis cheirando as meias de chulé e as cuecas sujas pelas partes pudendas só Deus sabe lá de quem. Tudo humano. Ou o nosso lado animal?

Coisa do Diabo? Algo anormal? Não. É humana a depravação. São humanos os fetiches. É humano o desejo e a criatividade. Oscar Wilder disse certa vez que “a arte é amoral”. A arte não precisa se preocupar em fingir o que não é, não se preocupa com preceitos e convenções. O oposto disso fez Madonna em seu disco e videoclipe. Abriu uma portinha e mostrou um mundo que é o nosso, era o meu quando eu tinha 17 anos e queria comer qualquer coisa que se mexesse. Madonna acabou também por transformar o sutiã (do francês soutien) em um acessório de desejo, algo fetichista, praticamente uma obra de arte, aqueles famosos pontudos e um preto brilhante no show Erotica.

Não sou um fá ardoroso da artista estadunidense, mas quando penso em sexualidade nos anos 90, os anos da Guerra do Golfo, do Bush pai, da nova ordem mundial, do Itamar, do nascimento do Real, do surgimento da internet, das câmeras digitais e da popularização do crack, eu lembro de seu erotismo, de seu despudor, de suas polêmicas, de sua coragem e de sua postura. Anos se passaram e muita coisa ainda continua sendo um tabu. Ao passo que muitos comportamentos já são aceitos. A Madonna, tal qual o escultor da vênus de Willendorf, remaram contra a maré, foram amorais, não por desconhecerem os valores da sociedade em que viveram, mas por romper, através da arte, a barreira desses ditames. É como se a buceta, o cu e a pica dissessem: estou aqui. Como se os desejos mais reprimidos, as fantasias mais delirantes gritassem: me deixem sair! Me deixem devorá-los!

Erotic vênus.

 

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PABLLO VITTAR E AS COISAS DE OUTRO MUNDO. OU MORTA TRÊS VEZES.

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Existe uma polêmica envolvendo Pabllo Vittar.

Existe uma polêmica envolvendo Pabllo Vittar.

Existe uma polêmica envolvendo Pabllo Vittar.

Acontece que eu não sabia quem é esse artista. É tanto artista que aparece que não tenho tempo para processar todo mundo. As pessoas ouvem e comentam, mas ao ouvir por acaso que existia uma polêmica envolvendo Pabllo Vittar, eu pensava se tratar de algum cantor de música sertaneja ou coisa à margem dessa denominação. Nunca me preocupei em olhar uma foto ou baixar uma música.  Mas não adianta fugir. A coisa sempre te pega.

Me pegou quando vi uma postagem de um amigo internético que mora em Londres. Ele fez um vídeo falando sobre quem? Ele mesmo, o cantor, compositor e drag queen Pabllo Vittar, com dois élis e dois tês, ou dois lês e dois tês. E dizia no vídeo que quem não conhece Pabllo Vittar é de outro mundo. Aí me senti tocado e literalmente de outro mundo. Como assim? Disse a ele em off que não conhecia Pabllo Vittar, mas o respeitava como artista, como respeito qualquer artista desse nosso país bandalho; Que soube vagamente de alguma polêmica envolvendo o cara, pessoas tentando desqualificar seu trabalho etc. Um horror. Cada qual come o que gosta.

Ou o que tem pra hoje.

Dei um gúgol e fiquei surpreso quando apareceu a Madonna. Não a mãe de Jesus, mas a cantora, a maior pop star, a material girl. Então olhei noutras imagens e vi que o Pabllo Vittar quando montado é a cara da Madonna!

Eu acho!

Já estava pronto para pensar que tudo não passava de uma jogada de marketing da madonna, que ela é na verdade Pabllo Vittar, que precisa aparecer e certamente estaria planejando fazer algumas apresentações aqui no Brasil.

Ledo engano.

É que as loiras são muito parecidas. Eu acho. E Pabllo Vittar montada fica a cara da Madonna. Pelo menos no clipe de uma música chamada Open bar e noutro onde ele aparece em um ringue de lutadores. A música se chama K.O.

“Seu amor me pegou
Cê bateu tão forte com o teu amor
Nocauteou, me tonteou
Veio à tona, fui à lona, foi K.O.”, diz um trecho.

Um negócio meio adolescente. Com aquela batida que pega, com aquele bate cabelo que pega, com aquelas caras e bocas. Com mais uma pitada de sexualidade. Tudo pega. Ótimo. Particularmente fico feliz em ver artistas brasileiros fazendo sucesso. Cada qual come o que gosta.

Finalmente eu conheci Pabllo Vittar. E tudo continuou normal. Como haveria de ser. Agora faço parte desse mundo. Agora eu sou eu e um outro eu também, após essa inusitada experiência musical e babadeira.

Diz que a polêmica envolve também uma tal de Anita. perdão, é com dois tês. Essa Anitta fez um videoclipe com o Pabllo Vittar. Não assisti. Soube que teve não sei quantos milhões de acessos.

Meu amigo de Londres disse que estava “morta” quando eu afirmei que não conhecia o Vittar, mas conhecia o Escobar. Agora conheço ambos, pelo menos das notícias e da tela do computador. Em breve tentarei conhecer a Anitta. Que nem sei quem é. Se cruzar comigo na rua passa batida.

Morta três vezes!

 

 

 

Destaque

Yansan e Ossãe – Itan 1

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Esse itan, aqui adaptado por mim originalmente para o espetáculo Usina Griô, do Grupusina de Teatro, do qual faço parte. Foi uma pesquisa que fizemos sobre a mitologia dos orixás do candomblé e resultou naquela encenação.

Desde sempre, Ossãe conhecia o segredo de todas as folhas; quem lhe deu esse dom foi Olorun, o criador supremo de tudo o que existe.

Por isso, Ossãe se gabava e se aproveitava de seus poderes. Quando um de seus irmãos orixás ia em busca de uma folha para curar um de seus filhos, Ossãe sempre criava um obstáculo:

– Venha amanhã! Estou muito ocupado.

– Você quer folhas numa hora dessas? Estou com sono, venha depois.

– Você não avisou que vinha. Não posso te dar folha nenhuma agora!

Os orixás começaram a ficar intrigados com aqui, ficaram muito zangados porque seu irmão Ossãe lhes negava vez ou outra as folhas e somente ele sabia o segredo delas. Então, a pedido de Xangô, deus do trovão, eles se reuniram para resolver a situação.

Isso não pode ficar assim!, disse Xangô soltando fogo pelas ventas. Nosso irmão sempre arranja uma desculpa para nos humilhar quando precisamos das folhas!

Ontem mesmo eu precisei de algumas folhas para curar uma doença de um filho meu e não consegui porque ele disse que já era tarde!, disse Oxum revoltada.

Mas foi nosso pai Olorun quem deu o segredo delas para ele, Ele sabe o que faz!, disse Iansan.

Mas ele tem a responsabilidade de dividir as folhas com a gente, somos seus irmãos e irmãs!, disse Oxóssi.

Xangô teve a solução: pediu que Iansan fosse até o local habitado por Ossãe e pedisse a ele que dividisse com todos os segredos das folhas. Iansan era hábil com as palavras, saberia negociar muito bem.

Iansan assim fez, concordando com a ideia de seu marido Xangô. Chegando à porta da habitação de ossãe, pediu agô!

Iansan –     Ê Ê ewe ô!

Ossãe –      Eparrei!

Iansan –     Agô Ossãe

 E então, o que quer de mim minha irmã?

Meu irmão, vim te pedir agô, licença, e trazer um recado de nossos irmãos. Todos estão zangados porque você se nega muitas vezes a nos dar as folhas que precisamos para atender os pedidos dos nossos filhos humanos, a quem cuidamos e protegemos. Nos reunimos e decidimos que eu deveria vir aqui te pedir para que divida com todos nós o segredo das folhas, assim não precisaremos mais te incomodar.

 

Ah, dito isso, Ossãe se revoltou, ficou furioso.

Jamais! Quem me deu o segredo das folhas foi nosso pai Olorun. E eu não dividirei com ninguém. Nem hoje e nem amanhã! Portanto pegue seu caminho de volta minha irmã e dê o meu recado.

Ah, quando ele disse isso, tão cheio de si e de orgulho, Iansã ficou revoltada com a desfeita. Sacudiu sua saia, provocando uma ventania e um redemoinho tão grande que abarcou todas as folhas de todas as árvores de todas as florestas; todas as folhas se desprenderam dos galhos e se misturaram. Ossãe ficou aflito, corria para lá e para cá gritando Ewê ô! Ewê ô!, que significa Oh, folhas, Oh, folhas! Mas as folhas não obedeciam mais o seu comando, eram levadas pela força dos ventos de Oiá, a rainha dos ventos. Então os orixás vieram e cataram as folhas, cada qual de acordo com sua personalidade e finalidade. Exu por exemplo pegou urtiga e outras mais ardidas; Oxóssi pegou alecrim e manjericão, Ogum a que mais se parecia com sua espada; Yemanjá as que se pareciam conchas e assim por diante. E foram embora.

Ossãe ficou muito triste com o que aconteceu e decidiu ir pedir desculpas a seus irmãos.

Meus irmãos… Quero pedir desculpas a vocês. Nosso pai Olorun me deu o segredo das folhas, mas eu deveria dividir com vocês e não negar como fiz.

Assim, surgiu o mais velho e mais sábio dos orixás, Oxalá e resolveu a questão.

– Meus irmãos, nós precisamos das folhas, mas somente Ossãe conhece bem o segredo de todas elas. Ele continuará sendo o guardião delas e toda vez que um de nós ou algum humano precisar de alguma, terá de pedir agô, pedir licença a Ossãe., disse Oxalá.

– E se algum humano não me pedir agô, licença, a folha não terá efeito algum.

 

Todos concordaram e disseram em voz alta:

Kosi ewe kosi orixá!

Sem folhas não há orixá!

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Menina, boneca e travecona

Devia ter pego hum táxi.

Mas quiseram os deuses que eu pegasse um ônibus. Me arrependi. Sentei no fundo do coletivo – era o único lugar sobrando. Três estudantes ao meu lado. Elas sorriam e a queixavam do sol forte. Uma delas punha um capote sobre o rosto. Em meio aos solavancos elas riam e falavam de coisas que eu não entendia nem queria entender. Não era da minha conta. Mas a certa altura começaram a falar de alguém.

Pensei que fosse bicha baixo astral, disse uma.

Não menina, respondeu a outra como quem descobriu a uma nova ilha. Ele é bem educado, apesar de ser bicha.

Mas é travecona não é?, disse a terceira arrematando o diálogo surreal.

A essa altura tive vontade de me intrometer na conversa e dizer o quanto é lamentável ver mulheres falando de um homossexual -foi o que supus, mas poderia ser uma mulher trans, um travesti, um transformará uma pessoa não binária ou qualquer termo que talvez eu tenha esquecido aqui ou não saiba por simples ignorância. Dizer que mulheres possuem todo um histórico de maltratos e sofrem todo tipo de agressão de diversos agentes da sociedade. Inclusive por parte dos maridos que amam. Dos pais que amam. Dos namorados que amam etc.

Mas me calei.

Por falar em boneca, Dayse só quer uma boneca preta, disse uma delas indo de um assunto a outro.

Eu acho lindas as bonecas pretas. Sou doida pra ter uma, falou a do capote no rosto.

Nosso ponto, gritou outra pegando as sacolas que estavam no chão. Desceram. Sentei no lugar delas. Ainda pude olhar para elas andando em sentido contrário ao ônibus. Eu estava assombrado e desiludido.

Uma mulher entrou vendendo balas de gengibre. Nos chamou (nós passageiros) de abençoados. E que Deus estava conosco.

Lembrei-me do final de um livro do Hermam Melville.

Ah, humanidade!

Devia ter pego um táxi.

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LACRANDO

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Eu estava na Estação da Lapa. Agora o local é também um shopping center (mais um na cidade). Ao invés de pegar o metrô, resolvi pegar um ônibus. O subsolo estava lotado. Um calor abrasador. Por sorte consegui um lugar ao lado de uma moça que chupava um picolé.

Instantaneamente me deu uma vontade enorme de chupara também. Não o dela, é claro. Mas no coletivo só entravam vendedores de amendoim torrado e chocolates. Notei que a moça era bem jovem. Os cabelos pintados de verde e vermelho. Tinha um alargador enorme na orelha esquerda. Quase do tamanho de um pires.

Moço, ela disse me cutucando com o cotovelo. Desculpe incomodar, mas você sabe se lacre se escreve com c ou com k?

Lacre se escreve com C de carro, de casa, de ciumento, de casamento…

Ah, ela disse digitando no Smartphone.

Em seguida começou gravar um áudio dizendo que iria lacrar a rua inteira quando chegasse. Ela está pensando o quê?, disse me olhando. Eu sou bafônica!.

Perguntei o que significava ser bafônica. Claro que eu tenho uma ideia vaga do que seja, mas quis confirmar. Antes eu achava que era uma adaptação local do francês bas-fond, mas descobri decepcionado que significa outra coisa.

Que já chega lacrando!, disse ela.

Ah, então você vai lacrar sendo bafônica ou vai ser bafônica com um lacre?, indaguei.

Sei lá, ela disse. As duas coisas, porque eu sou isso!

Isso o quê?, perguntei curioso e segurando firme com medo de rolar pelo corredor do ônibus feito uma jaca mole (minha mãe que usa essa expressão). O motorista fazia curvas insanas em alta velocidade. Ou fazia curvas em uma velocidade insana? Ah, sei lá.

Passei as mãos nos meus pequenos brincos e olhei admirado para o pires (perdão, alargador) na orelha dela. Pensei: de fato, você lacra e é bafônica! Ou é bafônica porque usa essa tinta nos cabelos e esse alargador enorme. Ou é lacradora justamente por causa dos bafos que produz.

Levantou-se e pediu o ponto. Desceu com umas 20 pessoas. Olhei pela janela: andando devagar, trajando jeans, camisa e um colete de veludo preto, acuada no meio da multidão apressada ela não parecia lacrar em nada. Muito menos ser bafônica.

Era comum como aqueles granitos soltos na calçada. Esses sim são um verdadeiro lacre!

Que bafo!

 

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DONA ANA, MARIA FELIPA, OMOLU E OS MUROS DO ENGENHO VELHO

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Minha vovó já dizia que palma da mão coçando é sinal de dinheiro chegando. O diabo é que minha mão nunca coça. Mas cobrir espelhos em dias de trovoada para evitar que eles atraiam raios, quem nunca? Essas crendices populares – com fundo de verdade ou não, aqui não importam – vieram à tona após conversas com dona Ana Lúcia, liderança e personalidade muito conhecida no Engenho Velho de Brotas por conta de sua fé, espiritualidade e sobretudo altruísmo – coisas que andam em falta hoje em dia. Recentemente parei á sua porta para comprar dois geladinhos – manga e coco – que muito aprecio e trocamos dois dedos de prosa. Em menos de meia hora falamos de um tudo. Ela sentada atrás das grades da janela e eu em pé doido pra urinar. Falamos da situação sempre precária dos usuários do CAPS Aristides Novis (é um centro de reabilitação de pessoas com problemas mentais – pelo menos na teoria). Me lembro de quando dona Ana instituiu a primeira horta comunitária naquele lugar e eu participei com muito orgulho da plantação de milho e outras coisas que não lembro. Fiz até um espantalho para abrilhantar  o evento. Os usuários estavam felizes e ansiosos já pela colheita! Hoje todo o trabalho com a terra e os trabalhos artísticos são coisas do passado, enterrados em pilhas de pílulas que são entregues aos acometidos de esquizofrenia e outros distúrbios. Muitos deles transitam pelas ruas do bairro, eu os vejo todos os dias. Dona Ana se queixou mais uma vez dessa situação medonha e da pipoca que deve fazer para Omolu, afinal de contas o mês de agosto é quando ele é lembrado e homenageado; o rei da terra, caçador, que livra os fiéis das pestilências e que tem entrevero com Xangô é lembrado cada vez que pessoas de axé transitam com tabuleiros de pipoca e coco pedindo uma contribuição para as festas. Dizem que é para São Lázaro – coisas do sincretismo, as pessoas ainda tem muito desprezo pela religião do candomblé.  Fruto da ignorância e falta de conhecimento. Paciência.

Do CAPS Aristides Novis (que foi grande médico e professor acadêmico aqui da Bahia), pulamos para os festejos para Omolu. Cito no título dessa crônica a Maria Felipa porque dona Ana sempre me faz lembrar dela, não sei qual o motivo. Talvez porque conversávamos na rua que leva o seu nome ou por causa das ilustrações da grande heroína da Independência do Brasil no 2 de julho (aliás o aeroporto de Salvador precisa ostentar o orgulho desse nome novamente; a data oficial da independência brasileira idem). Mas talvez dona Ana Lúcia Cândido me faça lembrar de Maria Felipa por causa da maneira aguerrida e brilho nos olhos pelas causas sociais e contra as injustiças que a outra deveria ter.

Falando desses vultos dona Ana me disse que poderíamos pintar os muros do bairro com ilustrações de grandes vultos históricos do bairro e da cidade como Mestre Bimba, Pierre Verger, Castro Alves, Irmã Dulce dentre outros. Em especial os negros, pois falamos também das escolas (pasmem, de Salvador!) que não sabem – ou não querem, por preconceito – ensinar a história e cultura do grande continente negro.

Quando me entregou os geladinhos, dona Ana ia pegar o dinheiro com a mão esquerda, mas interrompeu o movimento e pegou com a direita. Pegar dinheiro com a mão direita!, disse ela sorrindo. Eu disse que sim, sem saber o motivo, mas imaginei. Afinal de contas me pego temeroso (não é um trocadilho com nossos dias temerosos) ao deixar a bolsa no chão, dizem que o dinheiro “foge”. Fico na dúvida se passo ou não por debaixo de alguma escada posta na calçada: desvio ou passo por baixo para enfrentar a superstição? Quando vou à casa de alguém e quando desejo retornar,  gentilmente deixo que a pessoa abra a porta para mim: dizem que o gesto faz a visita voltar. Recentemente soube de outra: na comer bananas que nasceram grudadas, faz com que tenha filhos gêmeos! Depois dessas elucubrações, com medo de molhar as calças e aproveitando que uma pessoa parou para conversar também, me despedi rapidamente de dona Ana.

Ainda espero a mão coçar.

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SEXO NOS ANOS 80

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QUANDO me lembro dos anos 80, aparecem os flashes do cruzeiro, cruzado, refrigerante de guaraná, bolo, doce de tamarindo, ki-suco, geladinho da fruta, da fruta mesmo!, empinar arraia, jogar bolinha de gude, fura pé, carrinho de rolimã e um sem-número de deliciosas brincadeiras talvez perdidas lá atrás, naquele tempo. Ao pensar sobre sexo eu me lembro do proibido: do frisson das primeiras revistas de sacanagem, da masturbação que causava uma série de problemas, da possibilidade, terrível de “mexer com as filhas dos outros” e principalmente do “homossexualismo”, da pederastia, da sodomia, da imoralidade. EXPLICO.

Como fui criado num lar cristão, protestante, um Deus punitivo estava sempre presente, aniquilando duramente os pecadores e aqueles que se opunham aos Seus mandamentos. Essa ideia foi inculcada em mim e meus irmãos em especial por meu pai, um típico machista que temia que um de seus filhos, eu em especial, se tornasse homossexual. Então essa questão estava quase sempre presente quando Ney Matogrosso aparecia rebolando na TV ou quando um dos (agora para mim) clássicos viados de meu bairro surgia causando tesão nos carinhas mais atirados. Não entendia nada disso, mas hoje percebo a aura de mistério que envolvia aquelas pessoas. Todos discretos no vestir e escancarados nos gestos, nos trejeitos. Lembro-me de um negro que não sei o nome, que dava para duas dúzias de caras do bairro, conhecia alguns da vizinhança e sempre andava por lá, de laje em laje, de beco em beco. Os comentários corriam soltos, que “fulano estava comendo fulano”, que tinham feito uma fila “para comer o cu de fulano”… Ao passo que aquilo me assustava pelo iminente castigo que se aproximava daquelas criaturas, não me causava interesse algum. Creio que também não interessava também aos meus amigos. A viadagem para mim não tinha a menor importância porque eu não me importava ainda com o sexo, via e ouvia aquilo tudo e tão logo esquecia. Na verdade achava aquele tabu muito sem nexo. Lembro vagamente também do A. (apenas iniciais, quero evitar problemas), um viado velho que se não me engano vendia acarajé, bastante afeminado e afetadíssimo, com umas camisas coloridas. Sumiu sem deixar rastro. Eu o achava triste e exótico. E só. Sem maiores julgamentos.

Um desses viados clássicos de minha pré-adolescência nos anos 80 e digno de nota aqui foi I. A única coisa que me lembro dele é que se parecia com o Lenie Dale, muito alto, moreno claro, afetado, um olhar triste, todas as semanas fazia as unhas das mãos e dos pés com uma vizinha minha. Era enfermeiro, pelo que lembro. Era muito alegre. I. foi o viado de minha infância e começo da adolescência. Papai avisava para ficarmos longe de I., que era por quase todos ridicularizado. I. nessa época devia ter seus 40 anos. E pelo que lembro e deduzo fodia com muitos de meus vizinhos, pois vez ou outra andava metido em casa de alguns deles, sempre aquele frisson, para lá corriam três ou quatro, faziam fila, uma vez de cada, diziam as boas línguas Agora percebo que tudo era abafado, afinal de contas muitos são hoje pais de família (a tradicional família brasileira), sérios cachaceiros de final de semana, fudiões de quinta categoria, mas honrados, ao lado de suas esposas empapuçadas de telenovelas e da vida alheia.

Infelizmente tempos depois I. morreu atropelado por um ônibus, foi o que me disseram. Apesar do grande preconceito, I. era muito querido pelas mulheres, uma delas minha mãe, que o achava simpático e recordo de tê-la visto comover-se com sua morte trágica. Alguém suspeitou que ele estivesse com AIDS e na verdade se matara atirando-se contra o coletivo. Naquele tempo a infecção pelo HIV era mais terrível do que hoje. Esse quadro mudou, exceto o preconceito. Quando penso em sexualidade nos anos 80 lembro-me dos viados. E me recordo do Isnard, um dos homossexuais clássicos de minha fresca memória. A., I., e Ney Matogrosso poderoso e baphônico naqueles tempos. Pessoal de hoje pensa que abapha….

Sexo para mim era um viado. Era o I.

(Esse texto foi escrito sob encomenda de um amigo que pretendia fazer um site com textos sobre sexualidade. O projeto dele não vingou, pelo menos por enquanto. Resolvi postar aqui)